Este livro foi digitado e disponibilizado pela prpria escritora, Carolina Reis Dal Bom, com o intuito de beneficiar, primeiramente, as pessoas com deficincia visual.
 tambm um presente a todos os meus colegas de grupo, uma espcie de agradecimento pelo muito que por mim j fizeram. Peo apenas que aqueles que tiverem o desejo
de adquirir a verso impressa no deixem de me procurar pelo seguinte e-mail:
Carolina.dalbom@bol.com.br
Essa ser uma forma de beneficiar a quem com tanto amor dedicou-se  escrita da obra que segue.
Carolina Reis Dal Bom.



Eterna Paixo
Carolina Reis Dal Bon


Prefcio
            
            Este livro, para muitos pode no passar de um simples romance, porm para minha filha, Carolina e para mim, que acompanhei todas as suas lutas, alegrias 
e decepes, tem um valor incalculvel.
            Tudo comeou com uma simples brincadeira de uma menina com apenas dez anos, que fazia um teatrinho de bonecas ao lado da amiga Keiciane, quando passava 
as frias na casa de seus avs, na cidade de Arapoti. 
            Pouco tempo depois, escreveu o roteiro para uma pea teatral, com a contribuio de algumas pessoas para a realizao desse sonho, as quais aceitaram 
interpretar seus to queridos personagens. Porm, esse teatro no passou do terceiro ensaio.
                    Carolina sofreu muito, pois ao ver sua pea encenada, era como se seus personagens tomassem vida atravs dos atores, sendo-lhe possvel abra-los.
            Ns, os pais, no suportvamos mais v-la sofrer tanto, e cheguei vrias vezes achamar-lhe ateno, pois s falava neste teatro, e eu estava vendo o 
tempo passar e minha filha com fixao na histria. J no levava mais uma vida como criana.
            Ento, eu e tambm alguns amigos, sugerimos que escrevesse um livro. 
            A histria foi reescrita com muito amor e empenho, procurando manter fidelidade ao texto original. Assim nasceu o livro Eterna Paixo, um romance que 
retrata no apenas o amor, mas nos leva a viajar pelos encantos do oriente, mais precisamente ao fascinante Marrocos.
                    Este livro foi escrito primeiramente em Braille, e Carolina precisou da ajuda de outras pessoas para transcrev-lo. Sua amiga Rosimara o ditava 
e ela digitava num programa comum de computador, pois ainda no havia sido instalado o programa especial para deficientes visuais
                    Que voc, caro leitor, ao ler este livro, o faa com os olhos do corao, assim como Carolina v este mundo.
            
                                                            Dirce T. Reis Dal Bon.
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           
           Quarta Capa
           
           Eterna Paixo
           
           Carolina Reis Dal Bon
            
             "Eterna Paixo"  um romance que conta a histria de um casal apaixonado que luta contra a obsesso de um homem e de uma mulher. O homem, um psicopata 
que sente um infinito desejo pela protagonista e a mulher, uma pessoa de poucos princpios, que se sujeita a todas as infmias para conseguir o homem que deseja.
            Os protagonistas sofrem durante cinco anos e seu amor gera um fruto, uma filha chamada Ceclia, mas essa alegria lhes  tomada pela insana perseguio 
de seu algoz, levando-os a todas as espcies de sacrifcios para concretizarem seu amor.
            Conhea, agora, caro(a) leitor(a), a histria de Luciano e Guadalupe, personagens que conquistam a felicidade atravs da f, do amor e do perdo.
                                                                                    
                                  A Autora
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
           Dedicatria
            
            
             
             
             
            Dedico este livro, primeiramente a Deus,
            fonte de toda Luz e Sabedoria.
            A toda a minha famlia, especialmente aos meus pais,
            Jos Carlos e Dirce e ao meu irmo Gabriel.
            Aos meus avs maternos, Maria e Moacir,
            Em memria de meus avs paternos, Celestina e Jos,
Em memria de minha querida av Tita,
minha amiga Talita Fernanda Silva,
            com quem dividi minhas expectativas e aspiraes.
            Profa.Maria Dolores Martinez Dib, revisora de meu texto.

            A todos os meus amigos e s pessoas que colaboraram para   
            que este sonho se tornasse realidade, entre estes os meus 
            professores e os funcionrios do Colgio Nossa Senhora das Neves, da Escola de Msica Talentos e da escola AJADAVI -
            "Associao Jacarezinhense de Atendimento
            ao Deficiente Auditivo e Visual".
                          
           
            
            
       
Captulo 1
       
       A mais bela moa
       Corria o ano de 1.978.
       No mundo todo, movimentos culturais buscavam a liberao dos costumes. Os descontentamentos dos jovens em relao s aes repressivas dos governantes desaguavam 
em manifestaes ora pacficas, ora contundentes nos Estados Unidos e na Europa.
       No Brasil, aos poucos a ditadura militar vai cedendo  presso internacional e d incio  abertura poltica, com a promulgao da Lei da Anistia e conseqente 
retorno dos brasileiros exilados.
       Esses acontecimentos, embora no passassem despercebidos, no afetavam Luci e Augusto, jovens casados h quatro anos, que viviam em um pequeno stio localizado 
numa cidadezinha do interior do Estado do Paran.
       O jovem casal cuidava com tanto zelo de sua terrinha, que esta mais parecia um jardim. Ali as rvores frutferas produziam mangas, jaboticabas, pssegos, 
ameixas, abacates, alm de aninhar uma variedade de pssaros, que a todos deliciavam com seu cantar. 
       Sob a copada das rvores, uma refrescante sombra desenhava arabescos e rendados na grama verdejante.
       Embora pequeno, todo o espao do stio era ocupado com a criao de gado leiteiro, porcos, aves, bons cavalos e o cultivo de uma lavoura de caf, arroz, feijo, 
milho e verduras. 
       Os jovens, filhos de agricultores vizinhos, conheciam-se desde crianas e sabiam, desde ento, que um dia se casariam. 
       Com o passar do tempo, os laos de amizade transformaram-se em algo mais profundo, at que, apaixonados, casaram-se e, com a chegada da filhinha Lucimara, 
agora com dois anos, passaram a constituir uma linda famlia.
       Levavam uma vida simples, ambos haviam estudado na escola rural, at a 4. srie, mas interessavam-se pela leitura, acompanhavam, pelo rdio, os acontecimentos 
e mantinham-se sintonizados com o mundo. 
       Augusto cultivava a terra, fazia as plantaes e colheitas, cuidava dos animais e negociava os preos dos produtos agrcolas. 
       Luci ajudava o marido com os cuidados do stio, alm de dedicar-se aos afazeres domsticos e  ateno  filhinha. Sua fama de boa quituteira percorria a 
regio. No havia festa da igrejinha ou da escola em que no solicitassem seus prstimos no feitio do curau, da pamonha, do bolo de milho verde, do queijo e do po 
feitos em casa.
       Quando a colheita no corria como o esperado, Luci arregaava as mangas e ia com o marido  cidade vender seus deliciosos confeitos, alm de frutas e verduras.
       Assim, nada lhes faltava, embora no conseguissem melhorar sua condio de vida, tanto quanto gostariam.
       Luci estava grvida de dois meses e a chegada de outro filho, ao mesmo tempo em que os enchia de alegria, tambm lhes provocava preocupaes, em razo da 
crise financeira pela qual estavam passando.
       Aquela era mais uma manh fria de julho, Augusto trabalhava na lavoura, e Luci cuidava da casa e da filha. 
       Quando lavava roupas, ela sentiu uma terrvel dor no ventre e percebeu que estava tendo hemorragia. Desesperada, foi ao encontro do marido e contou-lhe o 
que estava acontecendo.
        Augusto emprestou uma caminhonete de um amigo, que morava num stio prximo, e partiu imediatamente para a cidade, deixando Lucimara aos cuidados de uma 
vizinha que tinha um filho de cinco anos, chamado Rodolfo.
       Quando chegaram ao hospital, o mdico disse que Luci perderia o beb, pois havia tido uma hemorragia muito forte.
       Augusto, homem de f, foi  capela do hospital, ajoelhou-se diante da imagem da Virgem de Guadalupe que estava no altar e suplicou-lhe que salvasse a vida 
de seu filho. Ele chorava muito, implorando que Nossa Senhora intercedesse por ele. No auge do desespero, prometeu que, se a criana fosse uma menina, lhe daria 
o nome de Guadalupe em homenagem  santa de sua devoo.
       Ficou longo tempo na capela. Ento, o mdico apareceu e lhe disse que havia conseguido salvar o beb, e que a me e a criana passavam bem,mas que Luci precisava 
fazer repouso por uns dias, evitando trabalhos pesados. 
       Agradecendo  Virgem de Guadalupe, Augusto foi ao quarto da esposa e a encontrou sorrindo, demonstrando que o pior j havia passado. 
       Ao lado de sua cama, na mesinha de cabeceira, estava uma pequena imagem da Virgem de Guadalupe, deixada por uma enfermeira mexicana. 
       Ela contou ao marido que, durante todo o tempo que esteve com os mdicos, rezara implorando que a Virgenzinha salvasse seu filho. Augusto sorriu e disse que 
tambm havia rezado muito. 
       Dentro de dois dias, Luci pde retornar  sua casa, onde uma vizinha carinhosa passou a cuidar dela e de Lucimara.
       O tempo foi passando, Luci tomou os cuidados indicados pelo mdico e depois de sete meses nasceu uma linda menina a quem os pais, conforme prometido  Virgem, 
deram o nome de Guadalupe.
       Embora pequena e frgil, Guadalupe demonstrava muita vontade de viver. 
       O tempo foi passando, Guadalupe crescia feliz, em companhia dos pais e da irm. 
       Era uma menina adorvel, muito doce e meiga, gostava de ajudar os pais alimentando os animais menores e arrumando a casa. Estava sempre com Lucimara, as duas 
se adoravam e brincavam muito. Todos os dias levantavam-se bem cedo, tomavam caf e pegavam o nibus que as levava, junto com as crianas da vizinhana,  escola 
da cidade.
       Aquela era mais uma segunda-feira ensolarada. Aps o caf, as meninas foram esperar o nibus. Quando este chegou, muitas crianas embarcaram, fazendo uma 
grande algazarra. Guadalupe, apelidada de Lupita, estava sentada ao lado da irm e folheava o caderno verificando os deveres. Era muito estudiosa e querida por todos 
os colegas e professores.
       Depois de uma longa manh na escola, as crianas voltaram para casa. Luci e Augusto esperavam as filhas na cozinha e, ao v-las, abraaram-nas carinhosamente, 
perguntando como havia sido a aula e se encantando com a enxurrada de informaes que as pequenas lhes passavam.
       Aps o almoo, Lupita e Lucimara ajudaram a me a arrumar a cozinha e foram fazer os deveres de casa. Quando terminaram, foram ver os pintinhos, que rompiam 
as cascas dos ovos, ansiosos para nascer. Lupita olhava para eles admirada, enquanto a irm segurava um ovo, que logo se rompeu e o pintinho nasceu em sua mo:
       - Olha s que bonitinho, Lupita! - disse a menina, radiante.
       -  verdade, Lucimara - disse Lupita, apanhando outro que acabara de nascer. As duas ficaram muito tempo admirando as pequenas aves, at que a me as mandou 
entrar e tomar banho.
       O jantar foi silencioso, Lupita percebeu que os pais estavam preocupados e quis saber o que havia acontecido. Eles disseram que no era nada, mas a menina, 
que tinha muita sensibilidade, percebeu que algo no ia bem e disse:
       - Foi o frio do ms passado, no foi?  Matou as plantaes.
       - Foi, meu amor, mas no precisa se preocupar. - disse Luci. A menina, sentindo a aflio do pai, abraou-o e beijou-o:
       - No fique triste, papai, no  voc que diz que a gente tem que confiar em Deus? Ele vai nos ajudar! - Augusto sorriu, sua filha lhe transmitia muita paz, 
e logo ficou mais tranqilo.
       Durante um perodo, a famlia passou por grandes dificuldades, o frio intenso do ms anterior matara grande parte das plantaes e Augusto teve um grande 
prejuzo. Muitas despesas foram cortadas, porm o essencial no lhes faltava e continuavam unidos.
       Naquele sbado ensolarado, as meninas levantaram-se cedo e foram para a cozinha. A me preparava o caf, e o pai entrou trazendo um balde de leite recm-tirado. 
Depois do caf, foram todos  feira, onde Augusto e Luci venderam verduras, curau, queijo e bolo de milho produzido por eles. As duas meninas ficaram um pouco com 
os pais, depois saram juntas e foram passear pela feira.
       Mais tarde, Luci e as filhas foram ao mercado e s lojas para fazer compras. Lupita olhava tudo encantada, principalmente as lindas bonecas nas vitrines. 
Depois de comprarem o que necessitavam e passearem pela cidade, voltaram  feira, onde Augusto ficara para guardar as coisas e, juntos, retornaram ao stio.
       Aps o almoo, Lupita e Lucimara foram se divertir com as crianas da vizinhana. Lupita gostava de brincar de princesa e suas personagens favoritas eram 
a Branca de neve, a Cinderela, a Rapunzel e a Bela adormecida. 
       Em suas brincadeiras, havia um fundo de verdade. Ela dizia que quando crescesse iria se casar com um prncipe que iria faz-la muito feliz. As crianas mais 
velhas diziam que prncipes no existiam, mas a sonhadora menina insistia, dizendo que iria se casar com o prncipe mais lindo do mundo, e que ele cantaria para 
ela com sua voz de anjo.
       Naquele domingo de vero, a famlia se reuniu em torno de uma mesa de almoo no stio Santa Teresinha, de uns amigos de Augusto. O almoo foi animado, todos 
riam e conversavam ao som de uma msica sertaneja. Depois do almoo, as crianas foram brincar, subindo em rvores, nadando no riacho e correndo para todo lado. 
Os homens pegaram as varas de pesca e se dirigiram para um grande rio ali prximo, e as mulheres, enquanto conversavam, arrumavam a cozinha e preparavam deliciosos 
quitutes para o lanche.
        tardezinha, os homens voltaram do rio trazendo pouca pesca, mas muitas piadas a respeito do tamanho dos peixes que conseguiram apanhar. Aps se lavarem, 
reuniram-se a elas, enquanto as crianas ainda brincavam alegremente no quintal. 
       Lupita, Lucimara e as outras meninas brincavam de casinha embaixo de uma grande rvore, e quando perceberam que o sol j estava desaparecendo, correram para 
casa, cheias de fome.
       E assim Lupita ia crescendo, cercada de alegria e amor, e mesmo passando por dificuldades, sua famlia era feliz e unida.
       Muito tempo se passou. Guadalupe transformou-se em uma bela moa. Era alta, tinha um corpo perfeito, pele moreno-clara, lindos olhos verdes e cabelos negros 
encaracolados, que lhe caam at a cintura.
       Todos os homens que a viam se encantavam com tanta formosura, mas ela sonhava encontrar o verdadeiro amor, ser me e ser professora. Era muito meiga, pautava 
sua vida pelos valores ticos e morais aprendidos com os pais. Usava roupas comportadas e no tinha muita vaidade, seu corao era puro, acreditava que toda pessoa 
deveria preservar-se at encontrar sua alma gmea.
       Apesar de muito assediada, nunca havia tido um namorado.
       Era tambm muito religiosa, estava sempre na igreja, e como era de se esperar, adorava crianas. Gostava de passear pelo stio, sentir a brisa suave e o perfume 
das flores, enquanto se sentava sob a sombra das rvores, ouvindo o barulho do rio, sonhando com seu verdadeiro amor.   
       Lucimara sempre sonhara ser enfermeira. Seu jeito meigo e atencioso com todos, sua ateno com as pessoas enfermas indicavam ser essa a profisso de sua vida. 
Assim, graas ao seu empenho e inteligncia, aos dezoito anos conseguira ser aprovada no vestibular de uma universidade pblica bastante renomada na cidade de So 
Paulo.
       Seus pais ficaram bastante apreensivos em pensar na filha to querida, que jamais sara de perto da famlia, ainda to jovem partir para uma localidade to 
distante e perigosa, mas Lucimara os acalmava, dizendo que j fizera amizade com alguns colegas quando fizera os exames e depois os reencontrara por ocasio da matrcula. 
J havia, inclusive, encontrado um quarto para alugar numa penso de estudantes.
       Entendendo o desejo da filha e sabendo que ela se havia preparado para esse momento, o pai lhe dera uma boa quantia em dinheiro, que poupara justamente para 
o estudo das filhas e a aconselhou a colocar em prtica todos os ensinamentos que a famlia lhe passara, confiante de que sua filha mais velha se tornara uma mulher 
ajuizada e correta.
       Chegara, enfim, enfim, o dia da despedida e todos na casa estavam tristes. A me estava toda chorosa, no suportava ficar longe de Lucimara e, embora entendesse 
que a moa no deveria desperdiar essa oportunidade, a separao da filha lhe causava grande sofrimento. Augusto tentava disfarar, mas no fundo tambm sofria. 
Consolava-se ao pensar que, em So Paulo, a filha conseguiria realizar seu sonho de profissionalizar-se como enfermeira, custeando seus estudos com o trabalho que 
conseguira como tcnica em enfermagem, em um grande hospital.
       Lupita tambm estava muito triste com a partida da irm, elas eram muito unidas, e sentiriam muito a falta uma da outra, mas sabia que Lucimara partia feliz, 
em busca de seu sonho.
       A famlia resolveu passar o dia todo juntos, aproveitando cada momento com Lucimara, antes de sua partida.
       Um pouco antes das dez horas da noite, a famlia acompanhou Lucimara at a rodoviria, onde se despediram tristemente. 
       Quando o nibus partiu, Augusto, Luci e Lupita voltaram para casa, sentindo um vazio incmodo no peito.
       - Vou sentir muito a falta dela - disse Luci, entre lgrimas.
       - Eu tambm - disse Lupita, tambm chorando.
       - Parem de chorar,  para o bem dela, e logo ela vem ver a gente. - disse Augusto, esforando-se para esconder as lgrimas.
       No dia seguinte, embora o sol aquecesse e iluminasse o stio, tudo parecia frio e escuro, sem a presena de Lucimara. 
       Os dias passavam e, para ajudar financeiramente a famlia, Lupita comeara a trabalhar como domstica em um stio vizinho.
       Nessa manh, a patroa lhe pedira para lavar a roupa e saiu para fazer compras no mercadinho da vila. Ento Rodolfo, o filho da dona da casa, aproximou-se 
da moa. Lupita assustou-se, porque ele sempre a assediava. 
       - Voc precisa de alguma coisa? -perguntou ela, tentando disfarar o receio.
       - Quero o seu amor, princesa. - disse o rapaz estendendo as mos em sua direo. Lupita afastou-se e disse que, se ele insistisse nesse assdio, ela gritaria.
       Naquele momento, a me de Rodolfo entra na casa e ele se afasta da garota.
       Ao fim da tarde, Lupita vai at a igreja e, diante da imagem da Virgem de Guadalupe pede que ela a ilumine e proteja, livrando-a de todo mal, pois temia que 
Rodolfo tentasse atac-la.
        noite, Lupita cursava o ltimo ano do curso de magistrio numa escola pblica situada na cidade, uma vez que seu maior desejo era ser professora de crianas.
       Um nibus escolar era o seu transporte, mas a deixava na estrada principal, a alguns quilmetros do stio onde residia. Era sempre amedrontador andar sozinha, 
tarde da noite, pelo caminho escuro e deserto que a distanciava de casa.
       O pai, sempre que podia, ia busc-la, mas nessa noite, no aparecera.
       Foi ento que a moa percebeu um vulto e gritou assustada quando reconheceu Rodolfo. O rapaz a agarrou por trs e disse que agora ela no escapava.   
       - Por favor, me solte, ou eu vou comear a gritar - disse a moa desesperada, mas com voz firme e decidida. 
       Rodolfo tapou sua boca e comeou a arrast-la para dentro do mato fechado. Ela se debatia cheia de medo, chutava, arranhava, procurando defender-se de todas 
as formas, mas era tudo em vo. 
       Naquele momento, Augusto aparece e bate na cara de Rodolfo, dizendo-lhe para nunca mais se atrever a tocar em sua filha.
       O rapaz afasta-se e o pai, abraando-a pergunta se ela est bem. A moa, ainda muito assustada e chorando, diz que sim e agradece ao pai. Augusto grita para 
Rodolfo, que se afasta em direo ao seu carro: 
       - Seu canalha, se voc se aproximar de novo da minha filha, eu juro que te mato!
       Quando chegaram em casa, percebendo que a filha estivera chorando e que o marido parecia transtornado, a me quis saber o que acontecera. Muito revoltado, 
Augusto contou-lhe o ocorrido. Luci abraou a filha e disse com ternura que, de agora em diante, todas as noites o pai iria busc-la no ponto do nibus.
       No dia seguinte, Luci foi at a casa da me de Rodolfo e contou-lhe o que havia acontecido, informando-a que Lupita no trabalharia mais naquela casa. 
       Os dias transcorriam normalmente. O clima estava colaborando e agora a produo do stio melhorara um pouco. De vez em quando recebiam cartas de Lucimara, 
todas elas em tom entusiasmado, com a moa contando sobre seus estudos e o trabalho que estava desempenhando no hospital, demonstrando satisfao e alegria.
       Lupita tambm estava muito feliz com seus estudos. Durante o estgio, tivera contato dirio com crianas da educao infantil e do ensino fundamental, encantando-se 
com a vivacidade e as peraltices dos petizes. Isso a deixava cada vez mais encantada com a profisso que escolhera e no via a hora de concluir seu curso e iniciar 
sua carreira de professora.
       Alguns meses depois, Lupita e Luci estavam cuidando de seus afazeres, quando um dos empregados do stio aproximou-se esbaforido e disse que Augusto estava 
passando mal. Lupita pediu que ele chamasse um mdico e ela e a me correram at seu pai. Ele estava cado no cho e, com esforo, murmurou:
       - Luci, estou morrendo, eu sempre te amei. Voc e as meninas so tudo para mim.
       - No fale assim, meu querido, voc vai ficar bom - disse a mulher desesperada, abraando-o e no mais sentindo as batidas de seu corao. Lupita segurou 
a mo do pai e chamou-o, em prantos. 
       Ele, porm, j no a ouvia.
       As duas entraram em profundo desespero, no conseguiam se controlar. Alertados pelo empregado do stio, vrios vizinhos comearam a chegar, todos surpresos 
e consternados com o acontecido. Uma ambulncia chegou em seguida, mas nada havia a ser feito.
       Lupita e a me pareciam estar vivendo um pesadelo. No conseguiam acreditar que o pai, um homem forte, que nunca ficara doente, sofresse do corao. O mdico, 
no entanto, lhes assegurou que o enfarte cardaco era quase sempre fatal em pessoas jovens, como Augusto.
       Os amigos tomaram as providncias necessrias para o funeral de Augusto, enquanto uma vizinha se incumbia de dar a terrvel notcia a Lucimara, em So Paulo. 
       Os servios funerrios foram realizados na cidade e para l se dirigiram os vizinhos, amigos e parentes distantes da famlia enlutada.
       Lucimara falara com a me por telefone, avisando que chegaria em tempo para o sepultamento e assim o fez.
       A moa, agora enfermeira formada e noiva do mdico Rogrio, chegara no meio da tarde, acompanhada do noivo e da me deste.
       Luci e Lupita a abraaram desconsoladas e ela, com a experincia adquirida na profisso que a obrigava a conviver diariamente com tais infelicidades, as consolou, 
fazendo com que se lembrassem dos momentos felizes vividos na companhia do pai e do quanto ele fora importante em suas vidas.
       Depois do enterro, todos voltaram para o stio, mas, apesar do carinho de Rogrio, da aparente tranqilidade de Lucimara, dos parentes e dos amigos, nenhuma 
das trs conseguia se consolar. 
       Em casa as esperava um lanche reforado, preparado pelas amigas de Luci. Sentaram-se  mesa, deixando vago o lugar do pai. Lgrimas rolavam por suas faces 
enquanto, algum tempo depois, folheando um velho lbum de fotografias, recordavam a feliz infncia que desfrutaram e do amor que compartilharam com os pais.
       A noite j ia alta quando todos se recolheram, tentando descansar e esquecer, por alguns momentos, a perda to dolorosa.
       Luci se encantara com a gentileza e a educao de Rogrio, com o carinho que o rapaz dedicava  sua filha e tambm com a simplicidade de sua me. 
       Lucimara, com muito pesar, avisou a me e a irm que, aps a missa de stimo dia, teriam que voltar para So Paulo, onde o seu trabalho e o de Rogrio os 
esperavam. Luci e Lupita entendiam, mas mesmo assim lhes doa ficar sem Lucimara.
       Uma semana depois, Lucimara, o noivo e a futura sogra voltaram para So Paulo.
       Apesar da tristeza, Luci e Guadalupe tiveram que dar seqncia s suas vidas, cuidando do pequeno stio como podiam. Todas as noites a viva ia buscar a filha 
na estrada, onde parava o nibus que a trazia da faculdade. 
       Chegou o final do ano e, com ele, a concluso do curso de Lupita.                 
       A me, cada vez mais calada e triste, caiu em depresso. No queria comer nada e s ficava na cama. Sua sade foi se tornando frgil e ela adoeceu seriamente. 
A filha tentava fazer com que tomasse sopas vitaminadas e os remdios anti-depressivos, porm Luci no queria nada, s pensava em morrer, para reencontrar seu amado 
Augusto.
       Mesmo com todo tratamento mdico, com o organismo bastante enfraquecido, Luci teve uma gripe forte que se transformou em pneumonia, vindo a falecer dias depois, 
deixando a pobre filha no mais completo desconsolo.
       Lucimara e Rogrio vieram para o funeral. Era evidente o sofrimento de ambas. Os amigos e vizinhos tentavam consol-las, porm de nada adiantava.
       Depois de uma semana, Lucimara teve que retornar a So Paulo, deixando Lupita sozinha na casa.
       Dias depois aconteceria sua formatura como professora, mas nem a realizao desse sonho conseguia dar-lhe nimo. De que adiantava essa conquista, se no podia 
dividir essa alegria com aqueles que tanto amara e que eram os responsveis por essa felicidade?
       A moa decidira no participar das festividades de formatura, pois no se sentia em condies de comemorar e seria um fardo para os amigos que tanto a amavam, 
perturbando-lhes a felicidade.
       Numa noite, aps ter apanhado seu diploma na secretaria do Colgio, Lupita retornava,  casa onde vivia solitria. Saltando do nibus escolar, imersa em seus 
pensamentos, a moa se defrontou, novamente, com o odioso Rodolfo que, encostado em seu carro do ano, a olhava com desprezo:
       - Agora o papai e a mame no esto aqui para proteger a mocinha inocente. - disse o rapaz, visivelmente embriagado.
       - No se refira aos dois nesse tom, seu canalha! - diz a moa com firmeza, tentando esconder o medo. Mas Rodolfo estava decidido a tom-la  fora. Abraou-a 
tentando beij-la, causando asco com seu odor  bebida. Lupita comeou a gritar por socorro, procurando livrar-se dele, de todas as formas. 
       Ento, um caminho parou e o motorista, saltando do veculo, agarrou o rapaz e o fez soltar a garota. Ento deu-lhe uns safanes  e o covarde entrou em seu 
carro e partiu dizendo desaforos.  
       Ela agradeceu e deu alguns passos, mas o homem a deteve, dizendo que queria um pagamento. Antes que a moa pudesse fazer qualquer coisa, o caminhoneiro a 
atacou e comeou a rasgar suas roupas. Lupita comeou a gritar desesperada, lutando contra ele, com todas as suas foras, tentando machuc-lo o mais que pudesse. 
       Naquele momento, o padre, que fora dar a extrema uno a um moribundo, apareceu e ordenou, com vigor, que ele a soltasse. O homem soltou Lupita e afastou-se, 
envergonhado. O padre aproximou-se dela e perguntou com ternura:
       - Voc est bem, minha filha?
       - Estou, Padre, muito obrigada, se no fosse o senhor...
       - No pense nisso, eu vou acompanh-la at a sua casa. 
       Com as roupas rasgadas, ela tentava cobrir-se de alguma maneira. Estava muito assustada, tremia e chorava, seu desespero era tanto que mal conseguia falar.
       O padre levou Lupita at a casa dela e deu-lhe a bno antes de sair. Lupita trancou a porta e foi rezar, agradecendo a Deus por t-la protegido, e ainda 
chorando, tomou um banho demorado e foi se deitar. Enquanto dormia, teve um sonho, a Virgem de Guadalupe estava a seu lado e lhe dizia:
       - "Minha filha, sua beleza  infinita, no h neste mundo mulher mais bela que voc,  por isso que os homens a perseguem. Mas existe um homem que desejar 
mais do que aventuras, ele vai am-la e respeit-la. Vocs tero que passar por muitas provaes e voc precisar ser espiritualmente muito forte para enfrentar 
os desafios que a vida lhe apresentar. Saia desta cidade e v para outro lugar".
       No dia seguinte, quando acordou, ficou pensando no sonho e decidiu consultar sua irm Lucimara sobre a possibilidade de mudar-se para uma prspera cidade 
no muito distante, onde tinha uma amiga que conhecera durante o curso de magistrio e que agora vivia na cidade vizinha, onde cursava a faculdade de Pedagogia, 
um sonho que Lupita sempre alimentara.
       Lucimara concordou de imediato com a idia da mudana, considerando que a irm deveria procurar novos espaos para crescer profissionalmente. Optaram, ento, 
por colocar  venda o stio que herdaram dos pais e, com o valor que conseguissem, Lupita poderia adquirir uma casa onde pudesse viver tranqilamente. 
       Como se tratava de uma propriedade muito bem cuidada, em menos de um ms a imobiliria fechou negcio com um dos vizinhos do stio e Lupita, aps colocar 
o dinheiro da venda numa poupana, iniciou os preparativos para deixar o lar onde vivera momentos de grande felicidade ao lado de sua famlia.
       Sabia que a atitude que estava tomando alegraria seus pais queridos.
       Motivada pela colega, a moa presta vestibular e entra para o ensino superior, pois havia arranjado um emprego de professora do ensino fundamental na mesma 
escola particular onde  a amiga trabalhava. 
       Com a ajuda da amiga Lia, procurou um apartamento recm-construdo e bem localizado, que mobiliou com simplicidade e carinho. Em poucos dias estava adaptada 
 nova vida. 
       A mudana fez bem  Lupita. Tendo facilidade em fazer amizades, a moa logo se adaptou  nova realidade, conquistando, com seu trabalho e competncia, a admirao 
dos colegas e da direo da escola.
       Apenas uma nuvem impedia a felicidade da moa. ris, a professora de quem era auxiliar, cheia de cime e inveja do carinho que a diretora lhe dedicava, tentava, 
por todos os modos, dificultar a vida de Lupita, sonegando-lhe informaes, tentando exclu-la do grupo de colegas.
       Mas, com a experincia que adquirira, a jovem conseguiria superar mais essa dificuldade.
       Assim, o tempo passava sem maiores confrontos ou suspenses e Lupita, aos 20 anos, aproveitava cada momento para viv-lo intensamente.
                    
            
            
            
       
Captulo 2 
       
       Um belo rapaz   
       Luciano era um belo rapaz, vivia em companhia dos pais, lvaro e Lcia, no bairro do Bom Retiro, na cidade de So Paulo, onde o casal tinha uma grande e imponente 
loja de roupas caras, muito bem freqentada. 
       A famlia desfrutava de uma boa condio financeira, o pai era formado em administrao de empresas e a me era professora aposentada. Tinham sua prpria 
casa, grande e confortvel, onde as cortinas claras que protegiam as grandes janelas, permitiam a entrada do sol, aquecendo-a e a iluminando.
       Lcia e lvaro haviam se conhecido em um baile, quando ainda eram bem jovens. Foi encantamento  primeira vista. Comearam a namorar, apaixonaram-se e depois 
de algum tempo, se casaram. 
       Ansiosos por constituir famlia, no viam a hora de Lcia engravidar. Alguns meses se passaram, a jovem, que passara por um perodo de gestao difcil, deu 
 luz o menino Luciano. 
       Em razo de complicaes durante o parto, Lcia no poderia mais engravidar.
       Nesse momento, porm, era tanta a alegria pela chegada daquela linda criana, que o casal nem se deu conta da gravidade da situao.
       Com o passar do tempo, ainda que tivesse vrios amiguinhos, Luciano passara a sentir a falta que lhe fazia um irmo. 
       O garoto loiro de olhos azuis, tornara-se um rapaz charmoso, dono de um olhar intenso, de um lindo sorriso e de uma bela voz que encantava as jovens com quem 
convivia. Era um moo caprichoso, sempre de barba bem aparada, trajava roupas sociais  e costumava usar os cabelos bem penteados. Era forte e tinha o porte elegante. 
Gostava de sair  noite com os amigos, para conversar e paquerar as moas. Tinha uma ou outra namorada, porm no gostava do jeito daquelas mulheres, pois se insinuavam 
demais, sem se importarem com os valores to importantes para ele. 
       Em sua opinio, os homens no deveriam relacionar-se com vrias mulheres, mas serem fiis quela que os completassem. 
       Sempre dizia aos amigos que era homem de uma mulher s. Eles,  claro, riam. Procurava uma mulher diferente, que se valorizasse, usasse roupas discretas, 
fosse inteligente e tivesse um bom papo.  
       Desde muito cedo, Luciano demonstrou uma grande paixo pela msica. Assim, naturalmente dedicou-se ao estudo dessa arte, aprendeu a tocar vrios instrumentos 
e agora era professor de Msica na educao bsica, pois alm dessa habilidade, gostava muito de trabalhar com crianas. 
       As coisas no iam muito bem para a sua famlia em So Paulo. A violncia deixava-os apreensivos. Era a terceira vez que a loja havia sido assaltada e estavam 
todos cansados daquela insegurana e do terrvel trnsito paulistano. H muito vinham cogitando a hiptese de sarem de So Paulo e se mudarem para uma cidade do 
interior, mais calma, onde pudessem viver com tranqilidade.
       Amadureceram essa idia, venderam a loja e a casa de que tanto gostavam e, influenciados por Rogrio, amigo de Luciano e noivo de Lucimara, uma jovem cuja 
irm residia em Ibaiti, cidade paranaense que conhecera e gostara muito, e em comum acordo, lvaro, Lcia e Luciano resolveram mudar-se para essa terra distante, 
mas que se lhes apresentava como um recanto de paz e sossego.
       Antes da deciso final, a famlia foi conhecer a pequena cidade de Ibaiti, encantando-se com sua singeleza e com o povo acolhedor.
       L o casal abriu uma loja de roupas, e o filho comeou a dar aulas em uma escola de msica.
       Muito diferente da vida na grande capital, tudo ali era perto, fcil e, em pouco tempo fizeram amizades e se integraram  nova condio. Sentiam saudades 
de So Paulo, mas cada vez que iam para l, a fim de reabastecer a loja, lvaro e Lcia se davam conta da deciso acertada que haviam tomado. Era to melhor viver 
no interior...
            
            
            
            
            
       
Captulo 3
       
       O Encontro...
               O tempo havia passado muito depressa, j era dezembro e aquele era o ltimo dia de aula. Houve uma bonita festa de despedida, e a escola fechou para 
as frias. No tendo parentes na cidade onde morava, Lupita, como era chamada pelos mais ntimos, foi passar as frias em So Paulo, em companhia de Lucimara.
       Todas as noites a moa romntica tinha o mesmo sonho: um homem que ela nunca havia visto o rosto, aparecia e lhe dizia palavras de amor.
       - Meu amor, voc  to bonita,  a mulher que eu amo. Confie em mim, pois o meu amor por voc  sincero. Lembre-se de que eu a amo mais que tudo na vida e 
ningum poder nos separar, porque o nosso amor ser mais forte do que tudo. Teremos muitas provaes, mas nunca se esquea que eu a amo.
       Ao acordar, lembrava-se do sonho, tentava visualizar a imagem daquele rosto, mas era impossvel. Seria o prncipe dos seus sonhos quando menina? Ou seria 
o homem de suas fantasias romnticas? 
       As frias passaram depressa, e Lupita voltou para casa, pois no dia seguinte recomearia a trabalhar. Deixara a irm muito feliz com sua visita e retornara 
contente por verificar que Lucimara  estava envolvida nos preparativos para o casamento com Rogrio, a quem dizia amar muito.
       Naquela noite, Lupita teve novamente o sonho. No podia se apaixonar por uma fantasia, precisava parar de pensar naquele homem. Afinal, ele no existia!
       A manh de fevereiro estava ensolarada, uma brisa suave acompanhava Lupita no caminho para o trabalho, e algumas flores perfumavam os jardins das casas. 
       Ao chegar  escola, Guadalupe encontra suas grandes amigas, as professoras Lia e Roseana. As trs se cumprimentam animadas, abraaram-se cheias de saudade 
e Lia a parabeniza porque no ser mais auxiliar da professora ris, ter sua prpria turma. 
       Entre risos e abraos, Lupita contou de sua estada em So Paulo e Lia e Roseana a puseram ao par das novidades acontecidas durante as frias.
       - Voc j viu o novo professor de Msica? - Pergunta Roseana, animada.
       - No, quem ? - Responde Lupita. 
       - Ai, ele  lindssimo, tem um jeito, um olhar, um sorriso... despeja a encantada Roseana. Lia confirma, e ficam as trs a trocar confidncias, at que, 
com ar preocupado, Roseana avisa Lupita que o novo diretor quer v-la.
       Lupita dirige-se  sala do diretor e bate  porta. 
       Ele a manda entrar; estava sentado  sua mesa examinando alguns papis. Era um homem alto, moreno-claro, forte e bonito. Seus cabelos muito curtos eram negros, 
bem como seus olhos. Vestia um terno preto, usava cavanhaque e tinha uma expresso zangada. Este fsico avantajado era fruto dos muitos anos em que praticara esgrima. 
No passado, fora um excelente lutador. 
       Gostava muito de festas e belas mulheres, as que mais o atraam eram as comportadinhas e donzelas. No acreditava no amor, a vida era feita de aventuras e 
dos desejos da carne. Vestia-se bem e atraa muitas mulheres. Morava sozinho em um apartamento, no era rico nem pobre. Seus pais haviam morrido quando ele era ainda 
muito jovem. A me, vtima da violncia do marido, morrera pouco depois de dar  luz sua filha, e o pai, fora assassinado em conseqncia de uma dvida de jogo. 
A nica parente que tinha, era a irm mais nova, criada por uma grande amiga de sua me, que tambm o ajudava muito.
       Sem sequer olhar para a moa, o diretor lhe pergunta:
       - Voc  a professora Guadalupe?
       Lupita confirma, um tanto admirada com aquele tom de voz zangado.
       - Incompetente, deveria ter vindo falar comigo assim que chegou. - disse o diretor.
       - Peo desculpas, mas acabei de chegar. -respondeu a professora. 
       Lupita teve um mau pressentimento. Por que esse tom de voz, essa censura a ela, afinal,  no estava atrasada. 
       O diretor pra de examinar os papis sobre a mesa e olha para a moa, fica espantado com tanta beleza, apesar de ela usar uma blusa fechada e uma saia que 
cobria os joelhos, era a mulher mais linda que ele j vira.
       - Muito prazer, meu nome  Marcos. 
       Lupita pergunta o motivo dele hav-la chamado  diretoria e ele afirma que desejava apenas conhec-la, pois j lhe haviam falado muito sobre sua beleza e 
simpatia.
       Timidamente, a moa pergunta se pode se retirar.
       - V, princesa. - ele diz, deixando nela uma estranha sensao de desconforto e apreenso pelo tom de intimidade usado pelo diretor. 
       Depois que Lupita sai, a professora ris entra na sala de Marcos. Ambos haviam vivido um romance no passado e como ele estava desempregado, a moa, que detinha 
certa influncia junto aos mantenedores do colgio, arranjara-lhe o cargo de diretor, e em troca, ele a ajudaria a destruir Lupita, por quem nutria inconfessveis 
sentimentos de cime e inveja. 
       Porm,Marcos ficara encantado com a beleza de Lupita e desfaz a esperana de ris, dizendo-lhe que a moa lhe despertara um desejo incontrolvel e que, pelo 
menos por enquanto, no faria nada para afast-la de suas funes. Zangada, ris sai da sala, batendo a porta. 
       Naquela manh, ris gritava, furiosa com os seus alunos, quando algum bate  porta.
       Ao atender, seu rosto enche-se de admirao, pois tinha  sua frente um homem lindssimo como jamais vira. Meio abobada, pergunta:
       - Voc  o novo professor de msica?
       - Sim, eu sou o professor Luciano Leal. 
       ris disfara a forte atrao que sentia e, pensando num jeito de ficar perto dele, diz  sua turma:
       - Bem, queridos, teremos que continuar o nosso teatro depois, porque agora vocs participaro da aula do professor Luciano. Mas no fiquem tristes, eu vou 
ficar aqui com vocs. 
       Os alunos se entreolham, a professora era uma verdadeira bruxa e estava se fazendo de boazinha para impressionar o novo professor. ris sorri maliciosamente 
para Luciano.
       O rapaz tambm a achara bonita. ris era alta, magra, de cabelos pretos, que lhe caam at o meio das costas. Seus olhos expressivos eram castanho-claros. 
Vestia-se elegantemente, trajando terninho bege e sapatos de salto alto. 
       Enquanto os alunos trabalhavam com o o professor,a moa procurava participar, mostrando-se atenciosa e pronta a colaborar.
       ris era uma mulher determinada, capaz de tudo para conquistar um homem, contudo, no era do tipo romntica e apaixonada, nem fazia o tipo maternal e esposa 
bem comportada. 
       Gostava de usar roupas chamativas e adorava sair  noite com as amigas. Era filha nica, por isso fora muito mimada pelos pais e, com a morte dos dois, passara 
a morar sozinha. Mesmo no sendo rica, andava sempre na moda, era muito bem relacionada, tinha amigos poderosos.
       Terminando sua aula na turma da professora ris, Luciano dirigiu-se  sala de Lupita. 
       Quando a professora abre a porta, os dois ficam espantados, olhando-se como se conhecessem h muito tempo. Ficam parados, olhando-se. Lupita acaba deixando 
cair os livros que segurava. Luciano os recolhe e os entrega  moa:
       - Obrigada. - diz ela desconcertada.
       - Bem, com licena, fique  vontade. Essa turma  muito interessada e participativa.
       - Fique, no precisa sair - diz o rapaz gentilmente. 
       Ela se acomoda no fundo da sala e comea a corrigir alguns cadernos de seus alunos, com alguma dificuldade em se concentrar na atividade, uma vez que seu 
pensamento foge constantemente para a figura de Luciano.
       O professor se concentra em sua aula, motivando os alunos a se apaixonarem pela histria da msica e a importncia desse dom divino em nossas vidas.
       Luciano passa um exerccio para os alunos e vai conversar com Lupita. Ambos olhavam-se de um modo especial, as pernas dela tremiam e seu corao batia to 
forte que parecia que ia saltar de dentro do peito. As mos de Luciano tambm tremiam, ele nunca sentira tanta emoo em sua vida. 
       Durante o resto do tempo ele ajudava os alunos a fazer os exerccios, e Lupita se aplicava em examinar, com cuidado, o dever de Histria que eles haviam feito. 
Ao fim da aula, Luciano despede-se dela e dos alunos e sai da sala. 
       Lupita no parava de pensar em Luciano. Ele era o homem mais lindo que ela j vira. E no era apenas beleza fsica, ele lhe passara a impresso de ser uma 
pessoa inteligente, amvel, educada, tudo que a moa admirava num homem. Luciano tambm no parou de pensar em Lupita, ele nunca encontrara mulher mais bela, com 
esse olhar to inocente e uma voz to encantadora.
       No intervalo, todos se encontram na sala dos professores, onde Lupita se senta perto de suas amigas e comenta que havia conhecido o professor Luciano, que 
este fora muito gentil com ela e que, estranhamente, embora no conhecesse o rosto do homem que povoava seus sonhos, ela o relacionara imediatamente ao de Luciano. 
       Luciano se aproxima, acompanhado da Supervisora que o apresenta a todos os colegas. Ele os cumprimenta educadamente, olhando para Lupita de um jeito especial. 
Lia e Roseana inventam um pretexto e se afastam um pouco, para que os dois pudessem conversar mais  vontade. Luciano senta-se ao lado de Lupita e os dois iniciam 
uma conversa amigvel sobre suas atividades profissionais.
       Neste momento, entram na sala o diretor e ris. Marcos diz que precisa falar com Lupita. Ela se despede de Luciano e o acompanha  outra extremidade da sala. 
Enquanto isso, ris senta-se ao lado de Luciano e puxa conversa, mas ele s tem olhos para Lupita e, embora converse educadamente com a colega, de vez em quando, 
olha discretamente para ela.
       Quando volta para a casa, Lupita no pra de pensar em Luciano. "Meu Deus, o Luciano  to lindo, to simptico.  o homem mais atraente que j conheci. Que 
maneira encantadora ele tem de me olhar...  como o prncipe dos meus sonhos de menina. Como eu gostaria de estar em seus braos neste momento". 
       Ao mesmo tempo, sem conscincia de sua prpria beleza e encanto, pensava: "mas ele nunca vai se interessar por mim, ris  muito mais bonita e sedutora."
       Em sua casa, Luciano no parava de pensar em Lupita. "Como ela  bonita. Meu Deus, nunca vi uma mulher assim, to linda quanto delicada, inteligente e, ao 
mesmo tempo to doce, to meiga, to inocente. Como seria feliz se pudesse t-la em meus braos... "
       Uma semana depois.
       Rogrio e Lucimara, ao contrrio dos amigos que se haviam mudado para o interior, adoravam a efervescncia da vida paulistana. Ambos trabalhavam no mesmo 
hospital, estavam com suas carreiras bem aliceradas e,  vivendo s mil maravilhas. Resolveram, ento, oficializar essa unio.
       A empolgao do casal era imensa. Redecoraram com muito gosto o apartamento onde Rogrio vivia, ocuparam-se de todos os detalhes para que o enlace fizesse 
jus ao sonho de ambos. Convidaram seus parentes e amigos e para padrinhos, escolheram Luciano, o melhor amigo de Rogrio e Guadalupe, irm querida de Lucimara.
       Embora vivessem na mesma cidade, Luciano ainda no conhecera a irm de Lucimara e, quando soubera que ela estaria ao seu lado no altar, procurara informaes 
a seu respeito com os colegas de trabalho.
       Qual no foi sua surpresa quando soube que Lupe - como Lucimara chamava a irm mais nova - era a mesma Lupita por quem se enamorara ao primeiro olhar.
       Assim que recebeu o convite, Luciano procurou-a e combinou de viajarem juntos para So Paulo. Ali comeava uma histria de amor, pois Luciano, que se impressionara 
com a beleza, a educao e a doura da jovem, teria um tempo precioso para estar ao lado dela, para conhec-la melhor. Por seu lado, Guadalupe no podia acreditar 
nas tramas que o destino urde para unir aqueles que se amam. Parecia que todos os santos estavam ao seu lado.
       Como ambos trabalhavam pela manh na sexta-feira, combinaram de viajar  tarde, no carro de Luciano. Assim, estariam em So Paulo ao cair da noite.
       Lcia e lvaro, pais de Luciano, aproveitariam a oportunidade para comprar mercadorias para sua loja e para isso, partiram para So Paulo na quinta-feira, 
combinando com Luciano de se encontrarem no dia seguinte, no hotel onde sempre se hospedavam.
       O casamento transcorreu exatamente como Lucimara havia planejado. A cerimnia na igreja toda enfeitada, a recepo num salo de eventos decorado de forma 
simples, mas com muito bom gosto, a msica muito bem escolhida e tocada por um conjunto de cordas, dava o tom intimista e, ao mesmo tempo romntico  comemorao. 
Os noivos valsavam encantados e Lucimara, lindssima em seu belo vestido, resplandecia a felicidade que estava sentindo.
       Luciano e Guadalupe aproveitaram todos os momentos da festa, danando e conversando longamente. O rapaz ficava cada vez mais encantado por essa jovem de uma 
beleza incrvel, de tamanha simplicidade e, ao mesmo tempo, de pensamentos to claros e maduros.
       Ambos foram apresentados aos amigos de Rogrio e Lucimara e embora mantivessem contato com todos, acabavam preferindo degustar o champanhe, enquanto conversavam 
longamente. 
       Rogrio e Lucimara j se haviam retirado, pois tomariam ainda naquela noite, um avio para Fortaleza, onde passariam alguns dias em lua de mel.
       O tempo passou rapidamente e logo era hora de Luciano, os pais e Guadalupe repousarem para a longa viagem de retorno que fariam na manh seguinte.
       A contragosto os jovens despediram-se naquela madrugada fresca de So Paulo. 
       Ao se preparar para dormir, no apartamento de solteira da irm, Guadalupe rememorava cada instante de encantamento que desfrutara naquela noite mgica. 
       Pedindo a Deus pela felicidade de Lucimara e ainda sentindo o suave perfume de Luciano, a jovem adormeceu.
       Amanhecera chovendo, mas nem esse inconveniente tirava de Guadalupe a doce expectativa pela viagem que faria ao lado de Luciano.
       lvaro e Lcia haviam partido um pouco antes, pois queriam chegar em Ibaiti com tempo de conferir as mercadorias que haviam comprado, antes de coloc-las 
 venda.
       Despediram-se do filho com o carinho de sempre, alertando-o para os perigos da estrada com forte trnsito e que, com a chuva que caa, tornava-se ainda mais 
perigosa. Luciano tranqilizou-os dizendo que iria devagar e com bastante cuidado. Abraaram-se e antes da partida, olharam-se longamente nos olhos, trocando palavras 
mudas de carinho.
       Conforme haviam previsto, a pista estava escorregadia, devido  lama que rolava da encosta, fazendo com que, perigosamente, os carros tivessem que ocupar 
uma nica pista. A chuva torrencial impedia a completa visibilidade da estrada. lvaro e Lcia estavam tensos, pensando nas dificuldades que o filho teria que passar, 
rezando para que a chuva amainasse e para que a polcia rodoviria passasse a administrar o trnsito.
       De repente, um automvel que vinha em sentido contrrio, perdeu a direo e colidiu de frente com o veculo do casal, atirando-o pela ribanceira.
        O barulho ensurdecedor cedeu lugar ao silncio, quebrado somente pelo ritmo da impiedosa chuva. Lcia, apesar de muito ferida, num ltimo alento, olhou para 
o lado e, com grande esforo e amor, cerrou os olhos de seu amado companheiro de existncia. Com um suspiro e tendo como ltima lembrana a imagem do filho, pediu 
a Deus por ele, perdendo a conscincia em seguida.
       Quando a polcia chegou, alguns minutos depois, encontraram os corpos abraados, e na bolsa de Lcia, o nmero do celular de Luciano. 
       Presos no congestionamento que se formara na estrada, devido ao desastre ocorrido, Luciano e Guadalupe h alguns quilmetros do local onde ocorrera o acidente 
com os pais, conversavam. Inexplicavelmente, talvez em razo do mau tempo, ambos estavam circunspectos, com um estranho sentimento de preocupao.
       Quando o celular tocou, Luciano sentiu um frio na espinha e imediatamente pensou nos pais.
       Ao saber do ocorrido, o rapaz se desesperou, gritando para o guarda que o havia informado sobre a morte dos dois, que aquilo no era verdade, que no era 
possvel. Guadalupe, apesar de extremamente chocada, tomou o telefone, anotou as informaes com o endereo do local para onde os corpos seriam levados e aceitou 
a oferta do policial para conduzi-los na viatura, uma vez que demorariam muito para conseguirem livrar-se do engarrafamento em que se encontravam.
       Desligou o telefone e abraou o amigo, dizendo-lhe palavras de conforto e passando-lhe foras para enfrentar a imensa dor. 
       Ao ter acesso aos corpos dos pais, Luciano abraou-os enquanto, desesperado, dizia: 
       - Por que, por que eu perdi vocs dois no mesmo dia? Descansem em paz, que aqui fica o seu filho morrendo de saudade. 
       Chorando muito, beijou a mo do pai e o rosto da me. Ele sabia que, nesse momento, uma linda fase de sua vida estava sendo concluda. Agora, seria preciso 
que  com muita coragem, passasse a construir uma nova etapa de sua existncia.
       Para isso ele sabia que tinha com quem contar, no lhe faltariam os colegas e amigos que havia conquistado em sua nova cidade e tampouco o especial carinho 
de sua mais nova conhecida, Guadalupe que, como um anjo protetor, lhe fizera companhia por vrios dias, at que a dor maior da perda se tornasse suportvel e que 
ele adquirisse foras para recomear a viver.
       Trs meses depois
       No fim de uma fria tarde de maio, Lupita estava saindo da escola, quando Marcos a chama e a convida, como j fizera outras vezes, para sair com ele no dia 
seguinte, aps a reunio, que se realizaria no final da tarde. Ela mais uma vez recusa gentilmente, dizendo que iria  missa. Marcos afasta-se contrariado. Era a 
terceira vez que ela recusava um convite seu. Com o amor prprio ferido, decidiu usar um truque que, com certeza, no falharia.
       No dia seguinte, quando os alunos foram embora, os professores se dirigiram  sala de reunies, onde o diretor os esperava. 
       - Estou muito insatisfeito com o trabalho de vocs. Algumas professoras... - e olhou significativamente para Lia, Roseana, e mais alguns professores. - No 
tm correspondido s expectativas da instituio, por isso serei bem mais rigoroso. Decidi tambm demitir o professor Luciano, uma vez que a aula de Msica  totalmente 
desnecessria.
       Essa deciso tomou os professores de surpresa, mas nenhum deles saiu em defesa de Luciano. Ficou evidente para Lupita que Marcos estava usando sua autoridade 
para tirar Luciano de seu caminho, uma vez que devia ser de seu conhecimento o fato de que os dois jovens estavam apaixonados, o que dificultava o seu assdio a 
Lupita. 
       ris, no entanto, lanou ao diretor um olhar de reprovao, deixando claro que, se ele demitisse Luciano, ela faria de tudo para tir-lo do cargo. 
       Luciano, revoltado com o menosprezo pelo seu trabalho, pede a palavra e afirma:
       - Desculpe-me, mas no posso concordar com sua opinio sobre as aulas de msica. Trabalhar essa arte com crianas e jovens, embora no seja obrigatrio por 
lei, faz com que se desperte a sensibilidade e a emoo, ampliando-lhes a viso de mundo e contribuindo para a melhoria de sua auto-estima. Discordo de sua opinio, 
diretor, em relao  eficincia do corpo docente do colgio, pois os considero  excelentes profissionais, devendo ser adequadamente valorizados. Nos ltimos meses, 
no entanto, voc passou a descontar valores excessivos de nossos salrios, sem justificativa. - disse Luciano educadamente, mas num tom de voz firme. 
       Todos murmuraram concordando, j estava na hora de algum enfrentar aquele diretor, pois toda vez que algum o fazia, Marcos ficava furioso e os humilhava.
       O diretor olhou para Luciano com frieza, dizendo-lhe que, se no estava satisfeito, poderia ir embora, vendo  assim, uma maneira de livrar-se da incmoda 
presena do rapaz. 
       Luciano estava com os nervos  flor da pele, diante de tanta arrogncia. Sua vontade era responder  altura tal agresso, mas antes que retrucasse, Lupita, 
que estava a seu lado, disse-lhe baixinho:
       - Contenha-se, no piore as coisas. - E ele resolveu se controlar, pois precisava do emprego.
       O diretor continuou a tratar a todos com desfaatez, tratando dos assuntos administrativos, atribuindo aos professores a responsabilidade por todos os problemas 
que vinham ocorrendo no Colgio, mesmo aqueles que diziam respeito  sua incompetncia para gerir uma instituio de ensino.
       Uma hora depois, num clima muito tenso, deu a reunio por encerrada.
       Quando Lupita estava no porto, Marcos ps a mo em seu ombro e lhe disse que ela iria sair com ele. A moa assustou-se com tamanha liberdade, mas segurando 
sua vontade de esbofete-lo, desculpou-se, dizendo estar atrasada para a missa.
       Despeitado, Marcos lhe disse que nenhuma mulher o desprezava. Pegou-a, ento pelo brao e a empurrou para dentro do carro. Naquele momento, Luciano aproxima-se 
dos dois:
       - Algum problema, Lupita?
       - No, eu vou lev-la para casa. -disse Marcos, zangado, antes que a moa pudesse responder.
       Luciano no se intimidou com o tom agressivo do diretor e disse:
       - No se incomode, Marcos, ns vamos sair juntos hoje  noite e eu fao questo de acompanhar Lupita at seu apartamento.
       Luciano estendeu a mo para ajudar Lupita a descer do carro, levando-a, gentilmente at seu automvel. 
       A moa tremia de medo, pois voltavam-lhe  mente as lembranas do que lhe acontecera em sua cidade natal.
       Assim pensando, Lupita entrou no carro de Luciano. Estava confusa, pois no havia combinado sair com ele naquela noite.
       Dando a partida, o jovem lhe disse que havia falado daquela forma para que Marcos acreditasse que os dois estavam namorando e parasse de assedi-la. Meio 
sem jeito, Lupita agradeceu:
       - Ele machucou voc? -perguntou Luciano, preocupado.
       - No, mas eu s continuarei trabalhando aqui pelas crianas e porque preciso do emprego.
       - Eu prometo que vou proteg-la. Confie em mim, minha querida.
       A moa agradece, convidando-o a entrar no apartamento, pois sua amiga Lia chegaria dentro de instantes para lancharem juntas.
       Ambos entram e o silncio reina no aposento. Ao fechar a porta, toda maldade do mundo fica l fora, aproximando os dois enamorados. Nesse clima de intimidade 
e encantamento, com os coraes batendo descontroladamente, abraam-se ternamente. Luciano encosta seus lbios suavemente e beija Lupita, que corresponde. Ambos 
so tomados por uma sensao maravilhosa, era como se o resto do mundo no existisse, parecia que o tempo havia parado, que flutuavam num universo de sonhos. Olharam-se 
nos olhos, cheios de paixo. 
       Voltando  realidade, Lupita fica muito envergonhada e apreensiva.  
       - Isso no poderia ter acontecido,  melhor que voc v embora.
       - Perdoe-me, Lupita, no tive inteno de desrespeit-la, mas estou feliz porque h muito tempo desejo abra-la como agora. Entendo que no devemos ficar 
aqui sozinhos, por isso vou deix-la, disse saindo e fechando a porta do apartamento atrs de si.
        Marcos, que os seguira, v quando entram no apartamento e fica, raivoso,  espreita. Percebe o amor nos olhos de Lupita ao despedir-se de Luciano, sentindo 
o dio e o cime roerem-lhe a alma. Sente vontade de matar Luciano e obrigar Lupita a aceitar seus carinhos.
       Afasta-se, ento, do local ruminando formas de prejudicar Luciano e arrebatar Lupita para si.
       O trabalho no dia seguinte foi tenso. Todos os professores demonstravam preocupao com o destempero do diretor e a forma agressiva que tratava os assuntos 
da educao.
       No final da tarde, um grupo de professores vai falar com o diretor. Luciano toma a palavra e, conforme previamente combinado, pede demisso em nome de todos. 
Marcos pergunta ironicamente qual era o motivo daquela deciso. Luciano lhe diz que ele sabe perfeitamente a razo dessa atitude extrema, pois no havia deixado 
dvida na reunio de que no estava satisfeito com o desempenho do corpo docente, demonstrando toda sua ira injustificada. Outro fator que levava a equipe de professores 
a essa deciso eram os descontos descabidos em seus salrios, o atraso no pagamento e a falta de registro em carteira dos trabalhadores.
       Dando um murro na mesa, Marcos grita:
       - Por mim vocs podem morrer, que no vou mover um dedo. 
       Deixando intempestivamente a sala, o diretor puxa Lupita pelo brao e no corredor, distante dos ouvidos alheios, lhe diz:
       - Voc no vai sair daqui, no , Lupita?
       -Eu no estou entendendo, senhor diretor. Diz a moa, libertando-se com um safano. 
       Ainda mais irritado, Marcos a humilha, dizendo:
       - Voc, uma moa que parece to inteligente, para as coisas do amor  mesmo muito boba. Ainda no entendeu que eu a desejo e que no vou descansar enquanto 
voc no for minha, minha, somente minha. 
       Assim falando, o diretor agarra Lupita pelo brao com firmeza, machucando-a.
       - Me solta! Disse a moa trmula, embora olhasse para Marcos com firmeza, demonstrando uma coragem que estava longe de sentir.
       Luciano segue os dois e ao ver a cena, fala, em tom de voz decidido e bastante alterado:
       - Como se atreve a tocar em Lupita, ela  uma mulher pura, como pode ter a indecncia de dizer isso a ela? 
       - Voc no  ningum para me dizer como tratar uma mulher, e como se atreve a falar assim comigo, sou um diretor.
       - Voc pode ser um diretor, mas no  homem suficiente, pois  uma covardia tentar obrigar uma mulher a fazer o que quer que seja. 
       Neste momento, Luciano e o diretor atracam-se batendo um no outro. Lupita desespera-se ainda mais. Os outros professores aparecem e ris manda os dois pararem. 
Lia e Roseana amparam a amiga, que treme sem se conter.
       - Luciano, no desa ao nvel dele, por favor pare com isso! disse Lupita chorando assustada. Luciano finda a briga imediatamente e 
sai de mos dadas com Lupita, Lia, ris e Roseana os acompanham at o carro.
       Guadalupe, ainda assustada, agradece o carinho das colegas e vai para casa com Luciano.
       Durante o pequeno trajeto, conversam sobre o ocorrido, ambos preocupados com o desenrolar dos acontecimentos.
       Dizendo que j se haviam aborrecido muito por um dia, Luciano convence Lupita a jantar com ele naquela noite, e ela, um tanto reticente, aceita.
       
       Enquanto se arruma para sair com o amado, a moa pensa: "Nunca fui defendida desse jeito, os homens que conheci s queriam abusar de mim", pensou a moa emocionada, 
cada vez mais enamorada de Luciano.
       A noite estava linda, uma brisa suave a refrescava, a lua nova brilhava no cu, aumentando ainda mais a ansiedade de Lupita. Na hora marcada, Luciano chega 
para apanh-la, trazendo um belo ramalhete de flores que oferece  amada. O rapaz est muito elegante, compondo um lindo par com a jovem vestida com um discreto 
conjunto azul, que a deixa ainda mais bonita. 
       Os dois conversam, enquanto seguem para o restaurante:
       - Tivemos um dia horrvel, mas, estar aqui com voc me faz esquecer esses momentos desagradveis.
       A moa concorda, enquanto suas mos se encontram numa demonstrao de carinho que apaga todo sofrimento pelo qual haviam passado.
       Era to agradvel esse contato, que o tempo passava, j chegando ao fim o jantar, sem que os enamorados se dessem conta.
       Convicto de que Lupita era a mulher de sua vida, quando chegam ao prdio onde a moa reside, Luciano se declara:
       - Quero que voc saiba, minha querida, que aquele beijo de ontem teve um grande significado para mim. Eu a amo com todo o meu corao. - Disse Luciano, segurando 
a mo deLupita e olhando em seus olhos. Sua voz vibrava de emoo, transmitindo todo seu sentimento.
       - Quer namorar comigo? - Pergunta o rapaz.
       Sensibilizada, Lupita responde, com expresso radiante:
        - Sim, acho que o amei antes mesmo de conhec-lo. Oh, Luciano, voc no sabe o quanto esperei por este momento.
       Os dois se aproximam, inclinam as cabeas um para o outro, e se beijam apaixonadamente.
       -  No dia seguinte, sbado, Luciano e Lupita passeavam de mos dadas, quando encontram com ris e a cumprimentam. Percebendo a estranheza da moa, Luciano 
lhe conta que estavam namorando. Ela d um sorriso forado, deseja-lhes sorte e se afasta furiosa e muito enciumada.
       O final de semana cheio de momentos de rara felicidade, passou rapidamente para os namorados.
       A segunda-feira amanheceu ensolarada e quente. Lupita e Lia, que se encontraram no caminho para a escola, passaram a comentar o que as esperava, uma vez 
que os professores haviam acordado comparecer no estabelecimento para receber os pagamentos que se encontravam em atraso.
        ris e Marcos tentavam convenc-los a ficar, o diretor diz que o contrato que assinaram s vence no final do ano, e promete que ser bem menos rigoroso, 
aumentar e colocar em dia os salrios, entre outras promessas.  
       Eles pensam um pouco, conversam e, chegando a um consenso, Luciano diz em nome de todos que, em respeito ao compromisso que tinham com seus alunos e pelo 
amor  profisso, desde que Marcos mantivesse sua palavra, aceitavam suas condies.
       De fato, durante um bom tempo, as coisas voltaram ao normal e todos puderam trabalhar com dedicao e prazer.
       Conforme prometido, Marcos passara a ter um comportamento exemplar, ocupando-se com ateno e competncia da administrao do colgio, relacionando-se amistosamente 
com os professores e cumprindo com os compromissos assumidos.
       Incrivelmente, nunca mais hostilizara Luciano ou faltara com o respeito a Lupita, pelo contrrio, passara a mostrar-se amigo, aps desculpar-se contritamente 
pelas atitudes impensadas que tomara. Parecia outro homem.
       Com o tempo, passou a cultivar uma amizade aparentemente sincera pelo casal. E no era raro fazerem programas juntos, ele acompanhado de ris. Iam a festas, 
bailes, como bons companheiros.
         Sem esse vu a enevoar a vida, Luciano e Lupita vivem uma linda histria de amor. Muitas vezes, aps o trabalho, vo at uma praa onde ficam abraados 
por longas horas e depois fazem uma agradvel refeio em um restaurante 
       e com freqncia, ela lhe preparava um jantar romntico. 
       O casal vivia cercado de amigos, recebiam muitos convites, que atendiam com prazer, sem esquecer de seus deveres para com o prximo.
       Participavam das atividades beneficentes promovidas pela igreja. Divertiam-se juntos, mas estavam mesmo era ansiosos para marcar a data do casamento. 
       Lupita havia se soltado um pouco, mas desde o comeo deixara claro para Luciano que s teriam intimidades depois de casados, e ele, sorrindo, compreendeu-a 
e aceitou sem reclamar.
       No final do ano, aproveitando os festejos do reveillon, passado em So Paulo, junto de Lucimara e Rogrio, trocaram alianas de noivado, marcando a data do 
casamento para alguns meses depois. Pretendiam se casar no sbado anterior  Pscoa, quando Lucimara e Rogrio poderiam deixar seus afazeres na capital paulista 
e participarem desse momento de felicidade para Lupita e Luciano.  
       A partir da, o tempo correu como o vento. Em meio aos preparativos para as bodas, envolvidos com a reforma da casa de Luciano, onde passariam a viver depois 
de casados, com a nova decorao, com a organizao da recepo, nem perceberam que a semana do casamento se aproximava.
       No entanto, nem o acmulo de trabalho conseguia acalmar a ansiedade com que aguardavam o grande dia.
       Finalmente faltavam trs dias para o casamento. 
       Os jovens estavam numa joalheria, escolhendo a jia que Luciano daria a Lupita, quando, de repente, ris, agora uma amiga querida, aparece correndo e chorando. 
Desesperada, conta que Marcos havia tido uma parada cardaca e estava no hospital quase morrendo e pedira v-los. 
       Naquele momento, Lupita lembra-se do pai, e uma lgrima escorre por seu belo rosto. A notcia chocara os jovens, pois jamais imaginaram que Marcos, um rapaz 
que parecia gozar de perfeita sade, tivesse algum problema cardaco.
       Preocupados, os trs dirigiram-se ao hospital.
       Deitado num leito estava Marcos, muito plido e com respirao ofegante.
       Percebendo a presena dos amigos, sorriu dolorosamente e falou com grande esforo:
       - , meus caros, sei que vou morrer em breve e, quero que me perdoem por todo o mal que fiz a vocs, mas quero que saiba, Lupita, que tudo o que fiz foi porque 
no consegui sufocar o grande amor que sempre senti por voc. 
       Com expresso de dor, d um rizinho e fala tentando brincar com a gravidade da situao:
       Afinal, esse meu pobre corao j no devia estar funcionando bem h bastante tempo e as atitudes que tomei e das quais me arrependo, devem ser colocadas 
na conta da necessidade de transpor os obstculos e buscar, a qualquer custo, a felicidade que nunca tive
       Os amigos queriam impedi-lo de gastar suas energias falando, mas Marcos parecia querer aproveitar ao mximo os momentos que lhe restavam.
       ris, segurando as mos do amigo, tinha o rosto coberto de lgrimas. Seu sofrimento era tanto, que, sensibilizada, Lupita a abraou, tambm em prantos.
       Durante o tempo em que conviveram, nos ltimos meses, ris lhes contara a triste histria de sua famlia. A pobre nunca contara com o amor puro e sincero 
de ningum. Vivia sempre  beira da depresso e, nessas horas, pudera contar com o apoio de Luciano e Lupita, alm do carinho deMarcos, seu bom amigo. Alm do mais, 
sua sade era frgil e no podia prescindir de constantes cuidados mdicos. Marcos era seu arrimo, seu porto seguro, por isso, a idia de perd-lo causava-lhe uma 
dor insuportvel.
       Marcos pede a Luciano que se aproxime e lhe sussurra:
        - Luciano, eu vou morrer em breve e ris ficar totalmente s. Preocupo-me com o que lhe possa acontecer. Temo por sua sade e voc bem sabe que ela no 
tem ningum com quem contar nos momentos de necessidade. Por isso, peo que voc a proteja. Tenho grande carinho por ela e no posso partir deixando-a desamparada.
       Luciano, emocionado, aceitando o aperto de mo do amigo, afirma que, enquanto viver, cuidar da moa.
       Marcos, ento, causando grande constrangimento em Luciano e Lupita, diz:
       - Perdoe-me pelo que vou lhe pedir, meu amigo, mas somente partirei em paz se souber que voc cuidar de ris como sua esposa. Case-se com ela, Luciano, faa-a 
feliz, pois esse  o seu maior desejo.
- O que voc est me propondo, Marcos? - diz Luciano sem acreditar em tamanho absurdo. 
       - Isso  totalmente impossvel, eu e Lupita vamos nos casar depois de amanh.
       - Voc no pode negar o ltimo pedido a um homem que est morrendo. - insistiu o moribundo. 
       - Isso no  coisa que se pea, voc deve estar delirando - diz Luciano trocando um olhar aflito com Lupita.
       Os dois esto desesperados, plidos sem saber o que dizer ou pensar. Luciano pega Lupita pela mo e diz que iro se retirar por um momento e Marcos, com voz 
sumida, lhes pede que no vo embora. 
       Aquilo no podia estar acontecendo com eles, abraam-se forte, o instinto lhes dizendo que a deciso que tomariam lhes partiria o corao, jogando por terra 
todos os seus sonhos mais acalentados.
       Embora no pudesse imaginar a vida sem Luciano, a sensibilidade e a pureza de seu corao falavam mais alto e, nesse momento de comoo, em que seus sentimentos 
se misturavam, a pobre moa no sabia o que fazer. Tinha vontade de implorar ao amado que no atendesse quele pedido infeliz, porm Marcos iria morrer e deveriam 
fazer sua ltima vontade. Por seu lado, Luciano amava a noiva e no suportaria viver sem ela, mas seus princpios no lhe permitiam negar o ltimo pedido a um moribundo,por 
mais egosta e absurdo que parecesse.
       A brutal surpresa daquela situao, impedia que os jovens raciocinassem com lgica e ponderao. Ento, com lgrimas nos olhos e o corao partido, Lupita 
diz a Luciano:
       - Atenda ao pedido dele. Pobre rapaz,  resta-lhe pouco tempo de vida.
       - Olha, Lupita, podemos atender, ao menos em parte, ao pedido de Marcos - fala Luciano, com lgrimas nos olhos, beijando os lbios de Lupita. 
               - Faremos um acordo com ris e iremos ampar-la sempre que precisar. Para que Marcos descanse em paz, caso-me com ela e depois nos separamos e ento 
voc e eu poderemos realizar nossos sonhos de amor. 
       Os dois abraam-se, em lgrimas, os corpos tremendo, ainda perplexos pelos rumos que suas vidas estavam tomando. 
       Ficam unidos durante alguns minutos, olhando-se nos olhos, avaliando o pesadelo que estavam vivendo e renovando, em silncio, suas juras de amor eterno.
       Mais calmos, retornam ao quarto de onde acaba de sair uma enfermeira que ajeitara os aparelhos de respirao artificial utilizados por Marcos.
       Marcos agradece por no terem ido embora e suplica a Luciano que atenda seu pedido:
       - Eu no teria corao se negasse um pedido feito com tanto desespero, mesmo contrariando totalmente a minha vontade. - diz Luciano ao mesmo tempo penalizado 
e aborrecido.
       - Eu sei que estou lhe pedindo um imenso sacrifcio e agradeo-lhe imensamente por isso. Muito obrigado, Luciano.
       Eu nunca fui feliz na vida, e morreria feliz se, nesse pouco tempo que me resta, voc se casasse comigo, Lupita. Acredite, eu a amo muito, e quero morrer 
sabendo que tenho ao meu lado a mulher da minha vida. 
       Cada vez mais aturdidos com o desenrolar dos acontecimentos, Lupita e Luciano trocam um olhar desconfiado. O que ser que poderia acontecer de mais surpreendente 
e atroz?
       Nesse instante, entra no quarto um mdico que eles no reconhecem e, preocupado com a agitao do paciente, pede s visitas que se retirem, porque Marcos 
ter que ser transferido para a Unidade de Terapia Intensiva, pois seu estado de sade se agravara.
       Lupita, levada por um impulso de seu generoso corao, diz, com os olhos cheios de lgrimas:
       -Eu atendo ao seu pedido, no seria justo, neste momento, lhe negar a felicidade que nunca teve. 
       A comoo de Lupita era tanta, que ela no sabia como havia conseguido pronunciar tais palavras.
       - Ento vamos nos casar amanh, para que o Marcos possa aproveitar o tempo que lhe resta ao lado de Lupita, e parta em paz, vendo-me em segurana com Luciano. 
- diz ris chorando assim que saem do quarto. 
       Luciano deixa Lupita em seu apartamento e leva ris para a casa onde a moa reside.
       Nenhum deles consegue dormir naquela noite. Os acontecimentos recentes, que causariam mudanas brutais em suas vidas, atormentavam seus pensamentos, impedindo-os 
de refletir, com serenidade, sobre as decises tomadas.
       O dia seguinte, sexta-feira, encontrou Lupita e Luciano abatidos e infelizes.
       Vo ao o hospital juntos e, calados, encontram-se com ris, com quem iniciam os preparativos para a concretizao das promessas feitas a Marcos.
       At o dia parecia estar triste, caa uma chuva grossa e fria, era como se o cu chorasse.
       Lupita sabia que no suportaria ver Luciano casando-se com ris, e ele tambm sabia que sofreria ao v-la se casar com outro.  
       ris parecia muito abatida, usava um terninho e sapatos de salto, os cabelos presos num elegante penteado e seus olhos vermelhos denunciavam a dor que sentia 
pela perda iminente de Marcos.
       Os trs discutem durante alguns momentos na sala de espera, enquanto aguardam autorizao para visitar Marcos.
       Uma vez que no h tempo para que sejam feitos os proclamas, decidem que o casamento ser apenas civil, realizado por uma juza de paz, conhecida de Marcos, 
que aceitara realizar a cerimnia no leito de morte do rapaz.
       Nisso, o mdico que conheceram no dia anterior, aparece e lhes pede que retornem mais tarde, pois o paciente tivera uma piora durante a noite e agora estava 
sob cuidados especiais.
       Os amigos se entristeceram ainda mais ao ouvir o mdico afirmar que a situao de Marcos era muito grave, restando-lhe pouco tempo de vida.
       Algum tempo depois, os jovens retornam e entram na UTI, onde Marcos se encontra ligado a diversos aparelhos. 
       O doente, muito plido, usando roupas de hospital e coberto com um lenol, abre os olhos e sorri levemente ao ver os amigos. 
       Luciano e Lupita lhe dizem que j haviam ultimado os preparativos para o casamento civil que se daria naquela mesma tarde.
       A juza de paz indicada por ris estava sentada em uma das cadeiras, ao lado da cama de Marcos. Parecia muito jovem e um tanto insegura, o que Lupita creditou 
ao inusitado da situao. Afinal no era todo dia que ela tinha que realizar dois casamentos num quarto de hospital, com um dos noivos s portas da morte.
       Constrangidos, Luciano e Lupita decidiram que primeiro a juza realizaria o casamento de Marcos e Lupita, seguindo-se depois o dele e ris.
       Em meio ao ambiente de profunda consternao, tendo o ex-noivo, a amiga e uma enfermeira como testemunhas, Marcos e Lupita casam-se civilmente. A moa no 
consegue conter as lgrimas. Uma profunda tristeza a envolve ao assinar o documento que a afasta cruelmente de seu mais acalentado sonho, casar-se com Luciano. Quando 
foram realizar o casamento de Luciano e ris, ele assinou o livro sem conseguir disfarar a grande tristeza que sentia, as lgrimas tambm corriam por seu rosto. 
Foi imensamente doloroso para o casal ter que assinar o livro como testemunha do casamento um do outro. Terminada a rpida cerimnia, a juza e a enfermeira saem 
do quarto, aps cumprimentar os dois casais, agora legalmente marido e mulher. A tristeza e o desespero eram visveis nos rostos de Luciano e Lupita. Suas lgrimas 
irritaram ris que disse ao marido que queria ir embora. Lupita ofereceu-se para acompanh-los at a porta do hospital e ris pediu que ela e Luciano a esperassem 
l fora, pois queria se despedir de Marcos. 
        Luciano e Lupita saem do quarto e comeam a chorar abraados, seus coraes estavam partidos, como aquilo podia ter acontecido? Estava tudo certo para seu 
casamento no dia seguinte, por qu? Por que seus destinos mudaram assim to de repente?Amavam-se com todas as foras, e agora estavam presos a outras duas pessoas, 
sua histria de amor havia acabado. 
       Pouco depois, ris aparece e apressa Luciano para ir embora e diz  Lupita que Marcos est esperando por ela. Os dois despedem-se entre lgrimas e Lupita 
vai para o quarto de Marcos, tentando esconder o desapontamento e  a tristeza que sentia.
       Ao ajeitar-lhe os travesseiros, sente a mo de Marcos segurar seu brao, acariciando-o. Inconscientemente, Lupita afasta-se, ao que o marido, delicadamente, 
diz:
       - Meu amor, voc vai negar um carinho ao seu marido? Venha c, d-me um beijo.
       Sentindo asco, a jovem se retrai, o que irrita Marcos.
       Surpreendentemente, o rapaz senta-se na cama, e a agarra com inesperada fora, abraando-a fogosamente.
       -Deite-se, Marcos, seno voc pode desligar os aparelhos e prejudicar ainda mais sua recuperao.
       Apesar de aturdida, Lupita percebe que algo no est certo naquele comportamento aparentemente saudvel de Marcos e lhe pergunta, assustada:
       - O que voc quer, Marcos?
       - Quero voc, mas este no  o ambiente mais adequado para uma noite de amor, minha querida, vamos para outro lugar.
       Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, ele se levanta da cama, abraa-a fortemente e uma luz de febre e desejo brilha em seus olhos, assustando ainda 
mais a pobre moa.
       Lupita pensa queMarcos est tendo um surto psictico, fruto da gravidade de sua doena, e tenta alcanar a campainha para chamar a enfermeira, mas ele a contm 
com um brao, enquanto amordaa sua boca.A moa se debate, tentando derrubar a cadeira, a fim de atrair a ateno de algum do hospital, maso marido a agarra e a 
arrasta para fora do quarto. Percebendo que no havia ningum no corredor, Marcos foge arrastando-a para a porta dos fundos do hospital. Lupita debate-se desesperadamente, 
contudo ningum os ouve e, mesmo chutando Marcos, ele consegue amarrar-lhe as mos, impedindo-a de escapar.
       No estacionamento do hospital, Luciano e ris conversam dentro do carro, quando vem Marcos entrar em seu veculo carregando Lupita, que continua a se debater. 
       Surpreso e ao mesmo tempo furioso, Luciano liga o carro e sai em disparada atrs do rival. ris tenta impedi-lo, dizendo que agora era sua esposa e que ele 
deixasse o outro casal cuidar de suas vidas.
       Porm, o rapaz no lhe dando ouvidos, acelera seu carro, pois Marcos dirigia a toda velocidade em direo  sada da cidade, rumando para a estrada. 
       Era uma situao totalmente incompreensvel. Como podia uma pessoa s portas da morte agir dessa maneira? Pensava Luciano.
       Uma dvida comea a surgir em sua mente: ser que ele estava mesmo to mal?
       No carro de Marcos, fortemente amordaada, Lupita debatia-se, tentando se libertar.
       Chovia torrencialmente e o limpador de pra-brisas no dava conta de manter a visibilidade. Em meio a esse tumulto de emoes, Marcos dirige perigosamente, 
fazendo ultrapassagens perigosas, dizendo que era timo motorista e despistaria o babaca do Luciano.
       Lupita estava desesperada, a forte chuva mal lhe permitia ver o carro do amado, que j emparelhava com eles. Marcos tirara sua mordaa e ela tentava convenc-lo 
a parar o veculo e conversarem, buscando o entendimento.
       No entanto, temendo que ela corresse para o amado, o rapaz dizia que preferia morrer junto com ela, do que ced-la a outro homem.
       Luciano baixou o vidro do carro e gritou:
       - Pare o carro, Marcos, vamos conversar. No desgrace sua vida e a de pessoas inocentes.
       Sem diminuir a velocidade e tentando abalroar o carro de Luciano, Marcos, insandecidamente, grita:
       - Voc perdeu, seu idiota, agora ela  minha esposa e far tudo o que eu quiser. Saia do meu caminho, se no quiser morrer!
       Luciano tem certeza da insanidade de Marcos e lhe diz:
       -No se atreva a tocar em Lupita, seu  calhorda!
       -Voc no  ningum para me dizer como tratar a minha mulher. - diz Marcos, o sangue fervendo nas veias e a raiva aumentando cada vez mais. 
       A chuva era intensa e a viso da estrada estava totalmente comprometida. Cada vez mais enlouquecido, Marcos no percebe um caminho vindo em sentido contrrio 
e nem ouve o grito de desespero de Lupita.
       Luciano consegue escapar pelo acostamento. Nesse momento, ouve-se um rangido de freios e logo um estrondo. O carro de Marcos e o caminho colidem com violncia. 
Com a fora do impacto, o carro de Marcos  lanado para o outro lado da pista, atingindo o veculo de Luciano. Marcos  atirado para fora, Lupita bate a cabea 
no vidro e desmaia sangrando copiosamente. 
       ris e Luciano ficam presos nas ferragens do automvel e tentam desesperadamente se soltar. A situao do rapaz fica cada vez mais grave. Ainda consciente, 
Luciano se apavora ao lembrar do acidente que vitimara os pais.
       ris grita, desesperada, por socorro. Apesar de enfraquecido pela perda de sangue, Luciano procura tranqiliz-la, pedindo-lhe para manter a calma e pedir 
ajuda pelo celular. Com muita dificuldade, ris consegue alcanar o aparelho, mas este estava descarregado.
       Poucos minutos depois, Lupita acorda do desmaio e procura limpar a testa que sangrava muito. Tinha conscincia do que se passava, mas estava desnorteada e 
s pensava em Luciano.
          Desce do carro, e tal era seu estado que no percebe que Marcos estava cado  beira da estrada.
          Caminha at o carro de Luciano, desesperando-se ainda mais quando v a gasolina do veculo escorrendo pelo cho.
          Ela abre a porta e encontra os dois conscientes, mas presos nas ferragens.
          Luciano lhe pergunta se est bem, porm ela nem pde responder, pois ris lhe implorava que a tirasse de l.
          Depois de muito esforo, Lupita consegue retirar a jovem e ambas, em desespero, tentam libertar Luciano.
          Como no obtivessem sucesso, ele lhes disse para buscar ajuda. Apesar de sentir-se bastante enfraquecida, Lupita saiu correndo, e ris foi ver como Marcos 
estava.          Entrementes, alguns veculos que passavam pelo local, ao verificarem a gravidade do ocorrido, prontificaram-se a socorr-los, pedindo ajuda pelo 
celular  polcia rodoviria.
          Algum tempo depois, chegam os policiais e uma ambulncia. S ento Luciano  libertado das ferragens, seu corpo estava todo dolorido devido s escoriaes 
sofridas, mas os mdicos constataram que, milagrosamente, nada de mais grave havia sucedido aosdois. Lupita corre at o amado e ambos se abraam cheios de preocupao, 
mas demonstrando todo seu carinho:
       - Lupita, voc est bem, meu amor?
       - Estou, e voc, como est se sentindo? - pergunta a moa sem importar-se com sigo mesma
       - Meu corpo est todo dolorido, mas acho que estou bem.
       Preocupada com ris e Marcos, a moa relata aos policiais e paramdicos o que havia ocorrido e pede que prestem atendimento ao rapaz, que estava desfalecido 
 beira da estrada.
       Os homens se dirigem para o local apontado por Lupita. Nesse momento, ouve-se um estrondo e grossas labaredas podem ser vistas. Um grito lancinante e a voz 
de ris, em prantos, dizendo que Marcos est morto. 
       Mesmo muito enfraquecida, esforando-se, Lupita vai at a moa, abraa-a, tentando acalm-la e lhe pergunta:
       - Meu Deus, o que aconteceu?
       - Ele est morto e seu corpo foi carbonizado. - diz ris, derramando lgrimas amargas. 
       Ambas caminham at a ambulncia, apoiadas por um policial, que lhes pergunta se sabem como os fatos ocorreram. Omitindo os detalhes dos casamentos, as moas 
contam por alto como se dera o acidente e pedem informaes sobre o motorista do caminho que se envolvera inocentemente na tragdia.
       O policial as acalma informando que o homem passa bem.
       Lupita e ris entram na ambulncia, onde Luciano acaba de ser atendido e ris, sentindo necessidade de desabafar, em prantos, lhes diz:
       - , ningum pode com o destino, no ? Vocs nasceram para ficar juntos e nada poder impedir a felicidade que tanto merecem. Agora que nosso plano foi por 
gua abaixo, devo confessar-lhes que Marcos nunca esteve doente. Ele subornou uma enfermeira e um falso mdico para encenarem aquela tragicomdia. At a juza era 
falsa, no houve casamento. 
       Essa notcia pegou-os desprevenidos, pois nem mesmo em sonho poderiam supor que conviviam com pessoas to ardilosas como Marcos e ris, capazes de atitudes 
to desonestas, somente para satisfazerem caprichos indecorosos.
       No entanto, apesar de todo sofrimento, foi inevitvel que Luciano e Lupita se sentissem felizes. Afinal, o pesadelo acabara e agora poderiam retomar os planos 
de se casarem e viverem um para o outro, para sempre.
       Seus bondosos coraes os levaram a lamentar sinceramente a morte estpida de Marcos, pois haviam acreditado que ele havia recuperado o bom senso e se tornara 
uma pessoa digna de sua amizade. Infelizmente estavam enganados.
       Luciano beijou a amada e perguntou se ela ainda queria se casar com ele. Sorrindo entre lgrimas, ela disse que era o que mais desejava nessa vida.
       Levados ao hospital pelos policiais que os socorreram, foram examinados e medicados. Lupita precisou levar pontos na testa e Luciano teve o brao esquerdo 
engessado, pois o havia fraturado no acidente.
       Devido aos vrios hematomas e machucaduras pelo corpo, ambos tiveram que permanecer aquela noite em observao no hospital.
       Conseguiram que os colocassem no mesmo quarto, separados por um biombo. Assim podiam driblar as enfermeiras e ficar abraados, agradecendo a Deus por essa 
felicidade.
       J eram quase 17:00 horas. Pensar que a vida dera mil voltas nos dois ltimos dias, deixava-os arrepiados.
       Estavam conversando distraidamente, quando uma enfermeira abre a porta e lhes diz que tm visita. 
       Qual no  alegria dos jovens, quando vem Rogrio e Lucimara entrando, com os braos abertos para consol-los e aliviar-lhes as dores.
       Sem terem sido avisados do cancelamento das bodas, a irm e o cunhado haviam chegado  tarde e se hospedado em um hotel. Na casa de Luciano, foram avisados 
do ocorrido e dirigiram-se rapidamente ao hospital, muito preocupados, sem imaginar o motivo daquela tragdia.
        - Lupi, minha querida, como foi acontecer isso, justo no dia de seu casamento?
       - Ah, meus queridos, sentem-se que vamos lhes contar uma histria absurda e, no entanto, verdadeira.
       Lucimara e o marido ficaram revoltados com tanta maldade e repreenderam Lupita e Luciano por no haverem confiado neles para ajud-los a sair de situao 
to constrangedora. 
       Ficaram conversando por um bom tempo, at que Rogrio, aps conversar com a equipe mdica que estava atendendo os pacientes, decidiu que eles se encontravam 
em excelentes mos e que a direo do hospital descobrira a farsa urdida por Marcos e ris, despedindo a auxiliar de enfermagem e o enfermeiro que se prestaram, 
mediante pagamento, a to srdidos papis. Da suposta juza de paz, ningum mais teve notcias.
       Por iniciativa de Rogrio e Lucimara, os convidados foram informados da transferncia da cerimnia de casamento, para um ms depois, em razo do acidente 
sofrido pelos noivos. Concordaram que o verdadeiro motivo no deveria ser notificado, para no ferir as imagens de Marcos e de ris, ambos pessoas de destaque na 
sociedade.
       Rogrio e Lucimara, preocupados com a sade de Lupita e Luciano, resolvem permanecer na cidade por alguns dias.
       O mdico logo faz amizade com os colegas de profisso que, percebendo a qualificao profissional de Rogrio, o convidam a associar-se a eles numa Clnica 
Mdica que pretendiam abrir na cidade.
       Rogrio e Lucimara analisam a proposta e esta, feliz por poder ficar perto da irm caula, incentiva o marido a aceit-la 
       Assim, aps as providncias necessrias, o casal muda-se para o interior, enchendo de felicidade Luciano e Lupita que, envolvidos com os novos preparativos 
para o casamento, tinham mais um motivo para entender que a vida, finalmente lhes sorria.

            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
           Captulo 4
           
           Momentos de Felicidade
            
               A noite est linda, iluminada pela luz da lua cheia.  final de maio e, apesar do inverno que se aproxima, as flores ainda embelezam e perfumam os 
jardins e as casas. Uma brisa suave rompe o calor dos ltimos dias, mantendo um clima aconchegante. J est quase na hora do casamento e Rogrio, nervoso, apressa 
Lupita e Lucimara que se arrumam no quarto. A esposa, sem pressa, tenta tranqiliz-lo.
         Quando a cunhada sai do quarto, Rogrio fica admirado com sua beleza. O vestido branco de Lupita, longo, em renda e cetim, tem o corpo enfeitado com bordados, 
ajustando-se perfeitamente  cintura delicada da linda noiva. O vu e a grinalda lhe conferem um ar de princesa divina. A moa est encantadora em sua suavidade 
e meiguice, porm muito nervosa. 
       Ao chegarem  igreja, Lupita  deixada sozinha na porta. Os convidados j aguardam o incio da cerimnia, acomodados nos bancos. Rogrio e Lucimara entram 
e se colocam na posio de padrinhos e Luciano sobe ao altar cheio de emoo. 
       Aos acordes da marcha nupcial, Lupita adentra a igreja, e a viso que tem da nave toda decorada com rosas vermelhas, festes e velas, faz com que se sinta 
flutuar num mundo de sonhos. 
       Ao longe, ela vislumbra Luciano, elegantemente trajado em seu terno preto e gravata prateada. Seus olhos se encontram e, marejados pelas lgrimas de emoo, 
fitam-se, esquecendo-se, por um momento dos convidados que os rodeiam. Sentem-se como os nicos habitantes da Terra.
        Luciano se aproxima, beija-lhe a mo e sussurra em seu ouvido:
       - Lupita, maravilhosa mulher de minha vida, diante de Deus lhe declaro meu amor, para sempre.
       Lupita, inebriada de amor, sorri delicadamente, enquanto reafirma seu grande amor pelo noivo.
       Despertam para a realidade, ao ouvir a voz do Padre: 
       -Estamos aqui reunidos para celebrar o casamento de Luciano e Guadalupe, um jovem casal que fez por merecer esta felicidade... 
       - Luciano,  de livre e espontnea vontade que voc aceita Guadalupe, como sua legtima esposa?
        -Sim,  o que mais quero na vida, responde o rapaz, emocionado. 
       - Guadalupe,  de livre e espontnea vontade que voc aceita Luciano, como seu legtimo esposo?
       - Sim, padre, ele  o amor da minha vida.
       - Aqui, nesta Santa Igreja, diante de suas testemunhas eu os declaro marido e mulher. Que Deus derrame sobre vocs todas as bnos e que a Virgem Maria sempre 
os ampare, na alegria e na tristeza, na sade e na doena. O que Deus uniu o homem no separe. Sejam fiis um ao outro, amem-se e se respeitem. Luciano, cabe a voc 
amar e proteger sua esposa. Guadalupe, cabe a voc ser fiel e carinhosa com seu marido. E que as bnos dos cus desam sobre vocs e sua descendncia, em nome 
do Pai, do Filho e do Esprito Santo. 
        -Amm.
       -Luciano, pode beijar a noiva. - Diz o padre.
       Num momento de pura magia, os dois saem da igreja de braos dados, acompanhados pelos padrinhos e convidados.
       O local escolhido para a recepo, um salo de festas rodeado por jardins,  de uma encantadora singeleza e ficara ainda mais elegante com o toque especial 
que Lupita e Lucimara deram  decorao.
       Um buf de requinte e bom gosto disponibilizava aos convidados, um fino jantar seguido de sobremesas delicadas e do tradicional bolo em camadas, que Lupita 
e Luciano cortaram ao som de uma bela melodia, enquanto brindam com seus convidados,sorvendo um champagne.
       Radiantes de felicidade, deslizam pelo salo na valsa dos noivos, trocando juras de amor, num clima de sonho e fantasia
       Todos na festa se divertem, menos ris, que tenta, sem conseguir, disfarar o cime e a inveja de Lupita. 
       As horas passam rapidamente. Pouco depois da meia noite, os dois se despedem dos poucos convidados restantes, que os aplaudem e vo para a linda residncia 
que haviam preparado com tanto carinho para ser seu ninho de amor.
       Luciano toma Lupita em seus braos e entram na sala enfeitada de flores. As cortinas em tom de bege que cobrem as grandes janelas, contrastam com a cor acobreada 
dos sofs. Na estante, ao lado da televiso, estavam retratos de seus pais e dos pais de Luciano lindamente emoldurados. Elegantes tapetes cobrem o assoalho de madeira. 
Em uma das paredes, um quadro com a pintura do Sagrado Corao de Jesus e outro da Virgem de Guadalupe lembram a proximidade dos noivos com a f religiosa. 
       Luciano coloca a esposa no sof e lhe entrega um enorme buqu de rosas vermelhas.
        - Receba estas flores, minha amada, juntamente com o meu corao. Diante do retrato de nossos pais e de nossos santos de devoo, eu lhe juro fidelidade 
e amor eterno.
       -Eu tambm o amo muito hoje e sempre. Somente a morte poder nos separar. Prometo que nenhuma intriga, dvida ou desconfiana existir em nosso casamento. 
       Luciano a pega em seus braos e a leva para o quarto.
        As cortinas difanas e a macia colcha da cama, brancas e lils, os mveis laqueados de branco, o espesso tapete e um lindo quadro de tulipas rosadas completam 
a decorao daquele ninho de amor. 
       Luciano senta na cama com Lupita no colo e comea a cantar baixinho:
       "  dia de sol radiante, manh to linda de primavera.
        ave buscando o ninho pelo caminho de uma quimera
       Um sonho uma esperana  o que guarda em seu corao, 
       menina, mulher amiga e sempre cr no amor, assim  ela.
       Guadalupe, quem me dera, 
       ser o dono do seu corao, ah quem me dera.
       Guadalupe quem me dera,
        ser aquele que vai ter seu amor a vida inteira".1
                       
               Os dois se abraam cheios de paixo e, entre juras de amor, entregam-se um ao outro de corpo, alma e corao. Luciano realiza seu mais acalentado 
sonho, am-la por inteiro, com toda ternura.  
            A manh de domingo, ensolarada e preguiosa, encontra-os dormindo docemente abraados. A insistente luz que atravessa as cortinas, acaba por acord-los 
dessa primeira das muitas noites de amor que viveriam.
Lembrando que Lucimara e Rogrio os haviam convidado para o almoo em sua residncia, levantam-se a contragosto, pois gostariam de nunca mais se separar. 
       O sol j ia alto quando saram de casa. Os pssaros cantavam alegremente, dando um especial encanto a essa manh to especial. Lupita lembra-se, com saudade, 
dos domingos no stio ao lado dos pais, onde fora to feliz.
       Rogrio e Lucimara os esperavam com deliciosos aperitivos. As irms se afastam para um canto da varanda, enquanto os amigos bebericam uma suave caipirinha. 
       Curiosa, Lucimara pergunta  irm sobre sua noite de npcias. Feliz e um pouco encabulada, Lupita lhe diz que Luciano foi gentil, educado, amoroso. Provou 
que , de fato, o homem de seus sonhos, tratando-a com o maior amor e respeito. Era sua eterna paixo.
       - Luciano e Rogrio conversavam afastados. O recm-casado no parava de elogiar a esposa, o outro ria e dizia que ela era a nica em quem o amigo no encontrara 
defeitos.
       
       
       Trs meses depois
       
       Era hora do almoo, Luciano e Lupita estavam em sua casa, quando ela se sente mal. Ele fica preocupado e a faz marcar uma consulta com Rogrio, que dirige 
uma conceituada clnica mdica.
       Luciano, apreensivo, acompanha a esposa at a clnica.
        Rogrio a examina e d os parabns animado, pois Lupita est em seu primeiro ms de gestao. Luciano fica eufrico:
       -Tem... tem certeza? - pergunta cheio de felicidade.
       -No h a menor dvida, meu amigo, voc vai ser papai. - O casal se abraa e se beija, mal cabendo em si de tanta alegria.
       -Meu amor, eu sou o homem mais feliz do mundo!
       - Eu j suspeitava, mas no quis dizer nada antes de ter certeza. 
       Depois disso, Luciano que j cuidava muito bem de Lupita, passou a mim-la ainda mais. No a deixava fazer qualquer esforo, cuidava de sua alimentao e 
a protegia como se qualquer descuido de sua parte pudesse afetar a ela e ao beb.
           Oito meses depois
            O dia estava amanhecendo, os primeiros raios do sol surgiam no horizonte. Desde a noite passada, Lupita comeara a sentir as contraes, mas no queria 
dizer nada ao marido a fim de no preocup-lo. Agora, porm, no dava mais para agentar, ela o acorda e diz que j est na hora. Sua voz tinha um tom desesperado 
pela grande dor que  sentia. 
       Luciano toma-a em seus braos, coloca-a no carro e seguem para o hospital.
       Conforme j combinado com o mdico, Luciano fica com a esposa durante o parto. 
       As dores da moa aumentam, deixando o marido agoniado e impotente diante desse sofrimento.
        Rogrio pede a Lucimara, competente enfermeira, que aplique o anestsico, pois j est na hora do beb vir  luz. Orienta, ento, Lupita para fazer fora, 
de maneira a ajudar a criana a nascer, enquanto acalma a parturiente e o nervoso marido que, em vo, tenta aparentar tranqilidade.       
       Alguns minutos depois, a criana nasce. Rogrio segura o beb, olhando-o atentamente, enquanto se ouve um chorinho que enche de alegria os coraes de seus 
emocionados pais.
        -  uma menina linda e aparentemente muito saudvel. - diz o mdico sorrindo. 
       Ao v-la, os pais comeam a chorar de emoo, e os tios tambm no conseguem conter as lgrimas. Rogrio entrega a criana para Lucimara, que a aninha nos 
braos da me, para o primeiro contato. O beb procura instintivamente o seio de Lupita, sugando-o sofregamente. A moa experimenta algo que jamais pensara existir, 
um sentimento de poder supremo, de ser responsvel por uma vida. Abraando a esposa e a filha, Luciano participa desse momento da mais pura beleza e encantamento.
       Minutos depois, Lucimara toma a criana para banh-la e submet-la ao exame clnico pelo pediatra, enquanto o mdico ultima os procedimentos necessrios para 
liberar Lupita para retornar ao apartamento do hospital e, enfim, desfrutar do merecido descanso.
       Quando Lucimara volta com o beb, a me ansiosa pede para segur-lo.
       Olha-o com amor infinito. Este era o momento mais lindo de sua vida, aquela menininha era sua filha, o fruto de seu amor por Luciano, carne da sua carne e 
precisava do seu carinho e de seus cuidados.
       Dominada pela emoo, a moa comea a chorar, amparada por Luciano que, em lgrimas, pensa na bondade divina em premi-lo com uma mulher maravilhosa e agora 
com essa criaturinha, concebida com o amor mais puro e verdadeiro. Nesse momento, ele eleva seu pensamento a Deus e promete que viveria por elas o resto de seus 
dias. 
       Os pais no se cansavam de olhar para aquele rostinho lindo, que se parecia com Luciano, mas tinha o lmpido olhar da me.
       Eles decidiram dar-lhe o nome de Ceclia, em homenagem  Santa Padroeira dos Msicos. Passaram um bom tempo assim, at que Lupita entregou a menina ao pai. 
Foi o momento mais feliz da vida dele, tinha nos braos sua filha e encantava-se cada vez mais com ela. Ceclia era linda, loirinha como o pai e tinha os olhos verdes 
como os da me. Nascera gordinha e com bastante cabelo, e seu rosto era como o de um pequeno anjo.
           Algum tempo depois, aparecem Lia, Roseana e ris. As amigas os parabenizam, muito felizes e, encantadas, no param de elogiar o beb, que agora dorme 
no colo de Lia. 
          No dia seguinte, j liberada por Rogrio, Lupita, tendo nos braos a filhinha e sob os cuidados de Luciano, volta para sua casa, ambos mal cabendo em si 
de tanta alegria.
        Os trs seguem para o quarto, Lupita deita-se na cama e Luciano senta-se ao seu lado, com Ceclia no colo. O casal dizia palavras de amor um ao outro e no 
paravam de elogiar a filha, que agradecia aos agrados com seu primeiro sorriso.
         Na manh seguinte, um clido vento sacode as folhagens do jardim. Entretanto, o sol brilhava cada vez mais forte, em tom alaranjado, prenunciando um dia 
quente. Luciano saiu para trabalhar e Lucimara, que conseguira folga no hospital, foi cuidar da irm e da sobrinha. Ela estava toda orgulhosa porque fora a primeira 
e nica pessoa que dera banho em Ceclia at aquele momento. A menina gostara da tia, era uma criana encantadora.
       - Como o Luciano est se saindo como pai? - perguntou Lucimara, enquanto terminava de trocar a sobrinha, depois de lhe dar banho.
       - Muito bem, ele adora a Ceclia e, apesar de sua pouca experincia em lidar com criana, j sabe trocar fraldas, coloc-la para arrotar,... - diz Lupita 
feliz, recebendo a filha para amament-la.
       Um ms se passa rapidamente e em breve vir a Pscoa, a primeira da vida da menina. Os pais no se cansam de planejar os festejos para essa data to importante. 
J nem se lembram da infelicidade que vivenciaram essa mesma poca h um ano atrs.
       No final de uma tarde de maio, Luciano chega em casa trazendo um enorme buqu de rosas e o entrega  esposa:
       - Hoje faz um ano que me tornei o homem mais feliz do mundo.
       - Que coincidncia, tambm faz um ano que sou a mulher mais feliz do mundo - diz ela sorrindo. As rosas so lindas, so as minhas flores preferidas, obrigada.
       Os dois trocam presentes e palavras de amor, beijando-se carinhosamente.
       Um mau pressentimento passa pela mente de Lupita, mas ela o afasta, abraando Luciano, seu refgio e porto seguro.
       -Ah, meu amor, eu prefiro a morte a me separar de voc. - diz Lupita.
       -E eu prefiro a morte a perd-la. - diz Luciano, acariciando-lhe os longos cabelos. 
       
       
Captulo 5
       
       Trgica separao
       
       Trs meses depois.
       A vida, para Lupita, se tornava cada vez mais alegre, embora preocupante. Com o final da licena maternidade, voltara a trabalhar, e lhe custava um grande 
sacrifcio deixar sua filhinha aos cuidados da bab que contratara. Mas durante o tempo em que estavam juntas e acompanhadas do pai, aproveitavam para brincar e 
trocar carinhos.
       A manh seguinte amanheceu chuvosa e o vento frio balanava as cortinas. O inverno havia finalmente chegado com todo vigor. Durante a volta da escola, Lupita 
contou a Luciano que ris lhe mandara flores e dissera no carto que iria visit-la naquela tarde. Ele ficou apreensivo, teria que voltar  escola para substituir 
uma professora que havia faltado, e pediu que ela se cuidasse, pois ris era uma mulher maligna e no era bom confiar nela.
       s trs horas daquela tarde, Lupita est com Ceclia no colo, quando ouve algum batendo na porta. Deixando a filha no bero, foi abri-la. ris a cumprimenta 
como a uma amiga muito querida e com ela vinha uma moa chamada Geovana, muito simptica.
       Lupita j ouvira falar dessa moa. Ela era a irm de Marcos que havia sido criada por uma grande amiga de sua me, que morrera no parto, em circunstncias 
muito estranhas, sobre as quais nem Marcos, nem ris comentavam.
       Receptiva, Lupita abraa a jovem, dizendo de seu sentimento pela morte do irmo. Percebe, no entanto, que seu abrao no  bem recebido e acha aquela atitude 
estranha.
       Tentando desfazer esse mal estar, ris diz que Geovana adora crianas e pede a Lupita que a leve para conhecer Ceclia, enquanto ela fecha a porta de entrada.
       Geovana e Lupita vo at o quarto, ela pega a filha e leva a visitante para a sala. Amoa v a fotografia de Luciano sobre a mesa de centro e comenta:
       - A sua filha  muito parecida com o pai. Vocs se do bem?
       Estranhando a pergunta, Lupita responde:
       - Claro, o meu marido  maravilhoso e nos amamos muito.
       - , mas voc j se ofereceu para outro homem.
       - O que voc quer dizer com isso? No vou permitir que me ofenda em minha prpria casa! - diz Lupita, furiosa, aumentando o tom da voz. 
       E naquele momento, inacreditavelmente, Marcos aparece diante dela:
       - Ol, minha querida, conte a Geovana sobre as muitas noites que passamos juntos, antes de voc me trocar pelo Luciano.
       - No, voc no pode estar vivo, meu Deus no pode ser! - grita a jovem, desesperada. 
       Ento, numa narrativa inacreditvel, ele lhe conta tudo o que sucedera aps o acidente. Quando ris se libertou das ferragens e saiu para buscar ajuda, a 
cmplice foi at Marcos e o reanimou. Ento resolveu fingir-se de morto, para poder atacar em outro momento.
       - E o corpo carbonizado que a polcia encontrou? - Pergunta a moa.
       - Simples, minha cara Lupita: o caminho contra o qual havamos colidido carregava, ilegalmente, na carroceria, um homem que, com o choque, fora atirado bem 
longe. Aproveitando que o motorista do caminho se encontrava desacordado, peguei o corpo e o coloquei em meu lugar, no carro. Depois, foi s provocar o incndio 
e apostar no pouco interesse da polcia em fazer uma investigao mais cuidadosa.
       E o manaco continua a contar sua bravata  apavorada Lupita, sem disfarar um sorriso de satisfao com sua esperteza.
        - Embora ferido, caminhei por alguns quilmetros, consegui que me dessem uma carona at a cidade vizinha, transferindo-me, depois de alguns dias, para Curitiba, 
de onde monitorava o que acontecia entre voc e Luciano.
       O rapaz parecia encantado com a confuso e o medo que provocava em Lupita e esta, desesperada, pergunta, j com receio da resposta:
       - - O que voc veio fazer aqui?
       - Boa pergunta! Ento voc e o paspalho do Luciano pensavam que haviam se livrado de mim? Negativo, minha cara, vim busc-la, o meu desejo est cada vez mais 
ardente e no vou descansar enquanto voc no for minha!
       - Oh, Meu Deus, voc perdeu totalmente o juzo, deixe-me em paz, sou uma mulher casada, amo o Luciano mais que minha prpria vida e, alm disso, temos uma 
filha.
       Sem nenhuma compaixo, com a voz cada vez mais alterada e aproximando-se perigosamente de Lupita, Marcos lhe diz:
       - -Voc pode am-lo, mas  a mim que vai satisfazer.
       A moa percebe que nada que diga ir demov-lo de to louca idia e, ainda  mais apavorada, olha suplicante para ris, pedindo-lhe ajuda. A outra ri malignamente 
e lhe atira na cara uma acusao que pe por terra a esperana de Lupita em contar com sua ajuda:
       - Voc  a nica culpada por Luciano no me amar, mas eu vou fazer com que ele a esquea para sempre, Guadalupe.
       Antes que Lupita possa fazer qualquer movimento, Marcos a segura pelos ombros, impedindo-a de caminhar e, apontando-lhe uma arma, diz que se ela gritar, ele 
mata a sua filha.
       ris tenta tirar a menina dos braos da me, que a segura firmemente e implora que no lhe tirem sua filha, mas ris  mais forte e no teme machucar o beb,e 
consegue arranc-lo de Lupita. Assustada, a criana comea a chorar e a me estende os braos para peg-la, num gesto desesperado.
       - Faam o que quiserem comigo, mas pelo que h de mais sagrado, no me tirem a minha filha - diz chorando, em total desespero.
       -A menina fica! - grita Marcos. 
       Geovana, que voltava do quarto de Lupita trazendo uma mala com algumas roupas e documentos, v a cena. Seus olhos se enchem d'gua e ela tenta convencer Marcos 
a levar Ceclia,porm ele  inflexvel. 
       - Me solte, eu no vou com voc a lugar nenhum! - diz Lupita debatendo-se violentamente - Me deixe em paz, eute odeio, seu nojento!- Marcos volta a apontar 
a arma para Ceclia, agora no colo de ris e diz:
       - Fica quieta, ou ser que j se esqueceu do que est em jogo? Voc vai fazer o que eu mandar, e se tentar fugir, a sua querida filhinha vai morrer, entendeu? 
       Compreendendo a gravidade da situao e sabendo do que Marcos e suas comparsas so capazes, sem outra alternativa, Lupita em lgrimas olha para a filha e 
lhe diz:
       - Minha filha, a mame nunca vai esquecer voc, diga ao papai que eu o amo. 
       Completamente desesperada, a me sente que lhe arrancam o corao, tanta a dor que a tortura. Era como se a vida fosse se esvaindo dela.
       ris entrega o beb a Geovana e a nica coisa que Lupita consegue fazer  pegar o retrato de Luciano que estava na mesa ao lado.
       Marcos lhe entrega papel e caneta e comea a ditar uma carta dirigida a Luciano. Lupita se recusa a escrever. Ele desvia a arma de Ceclia e a aponta para 
ela, ainda segurando-a com o outro brao. Chorando, Lupita obedece, mas era exatamente isso o que ela queria, sabia que Marcos no iria mat-la, pois era seu objeto 
de desejo.
        Aproveitando um instante de distrao de Marcos, d-lhe pontaps, enquanto grita com todas as suas foras:
       - No, vocs no vo me tirar a minha filha, eu no vou permitir! Me d a Ceclia, ris, ela no tem culpa se o Luciano ama a mim e no a voc. 
       Pelo que h de mais sagrado, no a separem de mim, tenham misericrdia!
       Eu quero a minha filha! Me devolvam a minha filha! -Lupita gritava, completamente descontrolada, debatendo-se com tal fria, que consegue desprender-se de 
Marcos e avana para Geovana, tentando recuperar Ceclia. 
       ris tenta cont-la, porm Lupita se transformara em uma fera para defender a filha. Bate no rosto de ris e a empurra para que saia do caminho, aproximando-se 
de Geovana. 
       J estendia os braos para Ceclia, que chorava muito assustada, quando Marcos vem por trs dela e a sufoca com um leno embebido em clorofrmio. A moa desfalece 
nos braos do algoz.
       ris olha pela janela, observa que no passa ningum na rua e diz a Marcos, que amarrara as mos de Lupita, para lev-la para o carro. 
       Algum tempo depois, Lupita acorda, lembra-se de tudo, comea a se debater, tentando, inutilmente, libertar-se.
       - Para onde voc est me levando? Cad a minha filha, vocs no a machucaram, no ?
       Marcos responde rispidamente: 
       - No, mas se voc no me obedecer, sabe do que eu e ris somos capazes.
       - Me deixa sair, eu no quero ir com voc a lugar algum, eu te odeio, seu crpula, me deixa sair!
       A pobre moa est apavorada, o que ele iria fazer? 
       Novamente a chuva em sua vida.
       Desta vez, tambm chovia torrencialmente, ouviam-se fortes trovoadas, o cu estava escuro, e lgrimas frias escorriam pelo rosto de Lupita. 
       Percebendo que o retrato de Luciano estava sobre seu peito, segurou-o com toda fora, como se de repente, ele fosse aparecer e resgat-la daquele pesadelo. 
       A moa se sentia mal, estava com frio e um terrvel pressentimento lhe cortava o corao. O que ris faria com sua filhinha? O que diria a Luciano? Como ele 
reagiria a mais essa provao?
       Seus pensamentos, em tumulto, impediam-na de raciocinar com calma. O clorofrmio ainda produzia efeito em suas veias, deixando-a sonolenta.
       Passado algum tempo, ela acorda ao ver as luzes de uma cidade. Verifica que haviam chegado em Londrina e seguido para o aeroporto.
       Lupita no consegue acreditar no que est acontecendo. - No podia ser verdade, deveria ser mais um daqueles horrveis pesadelos. Logo ela iria acordar e 
tudo teria terminado. Ento poderia aninhar-se nos braos de seu marido e abraar sua filhinha.
       Acordando, no entanto, para a cruel realidade, ela pergunta para Marcos sobre suas intenes e por que estavam ali.
       Ele no responde. Apanha, numa maleta, duas passagens areas e ameaa Lupita que se ela no fugir com ele, sua filha morre.
       Fugir, meu Deus, para onde? O pavor da moa  indescritvel.
       Lupita, trancada sozinha no carro, com os vidros fum fechados e amarrada, chora desconsoladamente, abraada ao retrato de Luciano.
       - Meu querido, meu amor, d-me foras para superar este sofrimento.
       Ao mesmo tempo, pede a Deus que ampare Luciano quando ele tomar conhecimento sobre o ocorrido com a esposa e compreendesse que ela escrevera o bilhete que 
lhe deixara, forada por Marcos.
       Longe dali, quando Luciano chega em casa, v a porta aberta e Ceclia chorando muito. Ao lado da criana, h uma carta que ele apanha e l, sem acreditar 
em seus olhos. A carta diz:
               "Luciano, estou abandonando voc e Ceclia pela minha felicidade. Na verdade, me casei achando que o amava, mas descobri que Marcos est vivo e ele 
 o homem que amo. Espero que entenda essa minha deciso, me esquea e procure ser feliz...
       Lupita" 
       Ao terminar de ler a carta, Luciano rasgou-a furiosamente. No podia acreditar que isso fosse verdade, sua amada esposa o havia abandonado, seu corao parecia 
estar partido em mil pedaos, ele chorava desesperado, era inaceitvel.     
              Porm, a verdade  que Lupita fugira com Marcos e agora sua vida no tinha mais sentido. 
       O desespero o invadiu de tal modo que, por um instante, pensou em tirar a prpria vida. Pegou uma faca e estava prestes a cometer essa loucura, quando veio 
 sua mente a imagem angelical de sua amada filha. Envergonhado, largou a faca que havia apanhado e voltou seu olhar pleno de amor e sofrimento para aquela frgil 
criatura que agora tinha somente a ele. Pegou-a no colo e a abraou chorando. Seria um egosta, ela tambm estava sofrendo e precisava dele mais do que nunca:
       -No chore, meu anjo, voc ainda tem o papai, eu prometo que vou cuidar de voc. Nunca a abandonarei. - diz Luciano beijando a menina, que agora parara de 
chorar.           
       Seu sangue fervia nas veias. Sem pensar no que fazia, agasalhou a filha, acomodou-a na cadeirinha do carro e, sem destino certo, acelerou o automvel e saiu 
atrs de Marcos, disposto a mat-lo.
       Procurou-o em vrios lugares, mas obviamente no conseguiu encontr-lo e, algum tempo depois, voltou para casa, desconsolado.
       No havia nada que pudesse fazer, nem mesmo denunci-lo  polcia, pois o bilhete que Lupita deixara, comprovava que o havia seguido por livre vontade.
       Luciano segurava a filha, que chorava de fome. Foi at o supermercado e comprou o leite em p mais nutritivo que encontrou, voltou para casa e o preparou.
       Ceclia teve muita dificuldade em pegar a mamadeira, mas premida pela fome, acabou tomando todo o leite preparado pelo pai.
       Luciano troca a criana e a prepara para dormir, o que acontece em poucos minutos, embalada pela cano de ninar cantada pelo pai.
       O pobre homem, agora ainda mais s, chora pela esposa.
       Embora j fosse bem tarde, surpreso, Luciano recebe a visita de ris que, fazendo de conta que no sabia de nada, pergunta por Lupita, fingindo espanto quando 
ele lhe conta o que havia acontecido. 
       O rapaz est completamente desesperado, chora como uma criana, e ris aproveitando-se desse momento de fraqueza, leva-o at a cozinha, onde pega uma garrafa 
de whisky que trouxera e lhe serve uma generosa dose.
       Procurando qualquer forma de amenizar o terrvel sofrimento, o rapaz cai na lbia de ris, embebedando-se. 
       Sentados no sof e com Luciano completamente embriagado, ris o aconchega, insinuando-se, at conseguir que ele a beije. 
       Estavam abraados quando, pouco depois, Rogrio e Lucimara entram pela porta que ficara entreaberta. 
       Desagradavelmente surpreendida pela cena absurda que presencia, num mpeto de fria, Lucimara pega ris pelos cabelos e a joga para fora da casa, sem que 
a moa tenha chance de se defender. 
       Ento, olha para o cunhado com desprezo, enquanto Rogrio tenta entender o que est acontecendo e comea a gritar, dizendo que ele havia trado sua irm.
       Rogrio argumenta, tentando acalmar a esposa, dizendo que o amigo estava bbado, mas, furiosa, ela no lhe dava ouvidos.
       O mdico aproximou-se de Luciano, pegou-o pelos braos e o levou para o banheiro, colocando-o embaixo do chuveiro de gua fria.
       Rogrio volta para a sala, onde Lucimara tenta raciocinar, buscando entender a cena que presenciara. Nem mesmo as palavras do marido conseguem acalm-la, 
pois ela pressente que algo muito grave havia acontecido com sua irm e a filhinha. 
       Neste momento, eles ouvem um choro de criana, correm at o quarto de Ceclia e a levam para sala, dizendo-lhe palavras de carinho.
       Fazem de tudo para acalm-la, mas Ceclia no pra de chorar e ento concluem que ela sentia a falta dos pais. 
       O tempo ia passando, e como Lupita no chegava, Lucimara foi ficando cada vez mais aflita.
       Luciano, aps o banho de gua fria, recuperou o equilbrio e, j vestido, foi at a sala encontrar-se com os cunhados, contando-lhes, em detalhes, tudo o 
que sabia a respeito do desaparecimento da esposa.
       Enquanto isso, no avio, sentada ao lado de Marcos e abraada  fotografia do amado, Lupita estava desesperada. Seu corao estava partido pela dor. Haviam 
lhe tirado sua filha, seus braos estavam vazios, fora arrancada da prpria casa e separada do marido que tanto amava.
       Quando o comandante anunciou a chegada a So Paulo, uma leve esperana brotou em seu corao. Talvez pudesse denunciar o seqestro que estava sofrendo. Essa 
idia, porm, logo foi afastada, uma vez que Marcos lhe lembrava a todo  momento, que ris poderia machucar Ceclia se ela o fizesse. 
        
       Tremia ao pensar no que a esperava. Sentia muito medo de Marcos, sabia que ele iria abusar dela, e no poderia fazer nada para impedir essa agresso. Embora 
de vontade frrea, sua constituio fsica era frgil e no teria como se defender de um homem como ele. 
       No saguo do aeroporto, juntamente com os demais passageiros, Lupita, cujas mos se encontravam presas s de Marcos, aguardava a chamada para o prximo vo. 
Perguntava ao rapaz para onde estavam indo, mas ele desconversava. 
       Assim, sem idia do local para onde ele a estava levando, tinha conscincia de que qualquer que fosse seu destino, no teria como pedir ajuda, com medo do 
que poderia acontecer com sua filhinha e com seu marido.
       Algumas horas depois, o alto-falante anuncia a chegada da aeronave que Marcos aguardava ansiosamente. 
       Quando Lupita percebeu que estavam embarcando para o Marrocos, com escala em Paris, recomeou a chorar copiosamente.
       "Oh, meu Deus, tenha piedade de mim. Como Luciano poder encontrar-me? Ser que este  o fim de nossa vida. Como poderei viver sem ele e sem minha filha?" 
       No mais profundo desespero, pensava: "Tomara que este avio caia no oceano, assim morrerei e no cuMarcos no poder me atingir."
       A viagem prosseguia longa e terrvel, sem que ela pudesse conversar com ningum. Nem mesmo a simpatia das comissrias de bordo, que percebiam seu sofrimento 
e o confundiam com o medo de viajar de avio, fazia com que se sentisse melhor.
       Durante o trajeto interminvel, recusou todo tipo de alimentao, limitando-se a tomar o suco que lhe ofereceram, pois se sentia seca por dentro.
       Era final da tarde quando o avio pousou no aeroporto. Enquanto a aeronave se preparava para aterrissar, Lupita olhou pela janela e divisou uma terra rida, 
com pouca vegetao e, no centro dela, uma cidade de grande porte, bastante povoada, com casario no qual o sol quase poente, lanava tonalidades de amarelo, ocre 
e ferrugem.
       A deciso de Marcos em lev-la para esse extico e distante pas, conforme Lupita viria a saber mais tarde, tinha fundamento.
       Marcos conhecera um empresrio brasileiro, que residia naquele pas h algum tempo e dele se tornara um grande amigo. Tratava-se de Thomas Ribeiro, um engenheiro 
qumico, scio de uma empresa exportadora de petrleo e fosfato, matrias primas presentes em grande quantidade no Marrocos. 
       Como Marcos era formado em administrao de empresas, o amigo o convidara para trabalhar numa de suas organizaes, o que viera a calhar com os planos do 
rapaz.
       Durante o tempo que Marcos fora considerado morto por Lupita e Luciano, refugiara-se nesse distante pas.
       Durante o vo, a fim de se entreter com algo que no lhe lembrasse a tragdia que estava vivendo, Lupita folheara uma revista turstica que apresentava informaes 
e fotos do Marrocos, um pas fantstico, que se localiza no extremo noroeste da frica e muito prximo do continente europeu, separado da Espanha apenas pelo estreito 
de Gibraltar. Vizinho da Arglia, do Saara Ocidental, do Ir e do Iraque. O misticismo dessa cultura, predominantemente rabe, sempre fascinara Lupita.
       Ela soube que o pas oferecia belas e exticas paisagens, lindas praias banhadas pelos oceanos Atlntico e Mediterrneo e cidades populosas que encantavam 
pela arquitetura extica, alm da colorao predominante em cada cidade. Em Rabat, sua capital, as construes so brancas, em Fez, predomina a cor amarela, Mekns, 
cidade cercada pela Kasbah , muralha com 25 km de muro,de 15 m. de altura,  toda verde. J em Marrakech, sua cidade de destino, as construes so rosadas e terracota, 
com altos muros, jardins internos, com chafarizes que refrescam o ambiente.
       Ao desembarcarem no aeroporto internacional de Rabat, Lupita constatou a veracidade dessas informaes. De fato, a cidade era linda. 
        Aquela bela viso, no entanto, no afetou os sentimentos damoa, que estava cada vez mais aflita e assustada, sem saber o que esperar.
       Aps cumprir a rotina de praxe, passaram sem problemas pela alfndega, ltima esperana dajovem que esperava ser retida pela imigrao. Tal como acontecera 
em So Paulo, Marcos apresentou os passaportes que falsificara, e que agora os identificava como Sr. Salen e sra. Soha, de nacionalidade Marroquina, sem que os policiais 
percebessem a fraude.
       A cultura do pas, em que a mulher exerce papel subalterno ao do homem e a lngua francesa falada pela funcionria da alfndega, idioma que Lupita no dominava, 
ajudaram Marcos a representar o papel de marido atencioso, que tudo faz pela esposa, sem despertar a mnima suspeita.
       Tomaram, ento, um carro que os esperava no estacionamento, e saram da cidade, rumando para Marrakesh, conforme lhe informara seu algoz.
       Ao cair a noite, chegaram nessa cidade de ruas antigas e estreitas, a ponto de no permitir a passagem de carros, ou largas como os boulevares mais modernos, 
das mais famosas capitais europias. 
       Conhecida como cidade vermelha, Lupita constatou que as construes de Marrakesh eram invariavelmente rosa, agora ainda mais atraentes sob a luz crepuscular.
       A paisagem era dominada pela torre da mesquita de Koutoubia, que na hora sagrada, ficava lotada por muitos muulmanos.
       O trnsito era catico, pois nas ruas transitavam charretes puxadas por cavalos meio-sangue, magrelos e altos, alm de carros, motos, camelos e bicicletas.
       Durante o trajeto, Marcos ia passando a Lupita informaes sobre a cidade, tentando anim-la. 
       Passaram pela Medina, centro comercial e residencial, pelo Mellah, bairro judeu e pelos souks, mercados onde se vendia de tudo, no burburinho em que o rabe, 
o francs e o espanhol, alm de outros dialetos, provocavam em Lupita  um atordoamento insuportvel. 
       Chegaram, ento, a uma casa com arquitetura tpica, cercada de altos muros, com janelas protegidas por grades e um imenso e pesado porto,  parecendo uma 
fortaleza.
       Surpreendentemente, o jardim era magnfico, com plantas ornamentais, flores exticas, palmeiras imensas e uma encantadora fonte de gua iluminada por luzes 
indiretas que lhe davam tonalidades diversas. 
       Ao entrar, a moa percebeu que a casa era ampla, com p direito alto, cmodos espaosos, mas escura e abafada, com mveis antigos de madeira negra, sem outro 
detalhe em sua decorao, alm de tapetes que cobriam quase todo o piso e alguns grandes vasos de folhagens. 
               - Esta ser a nossa casa, meu amor, mas por enquanto vamos ficar em quartos separados, at voc se acostumar a viver comigo - disse Marcos.
       -Eu nunca vou me acostumar a viver longe do meu marido e da minha filha, que eu amo com todo o meu corao. -respondeu Lupita com ferocidade, tentando esconder 
o medo e a repulsa que sentia. 
       Marcos no se deixou impressionar pelo dio e determinao que via nos olhos da moa. 
       O desespero a dominou e Lupita atirou um vaso em cima dele, gritando descontroladamente que o odiava. Foi difcil cont-la, Marcos precisou segur-la com 
firmeza. Levou-a com esforo para um quarto e fechou a porta:
       -Esse descontrole s vai lhe fazer mal,  bom se acostumar com a idia de que nunca mais voltar a ver Luciano e Ceclia. Agora voc e eu temos uma nova identidade: 
eu sou o sr. Salen e voc  minha esposa Soha. Aqui os costumes so outros, minha cara. As mulheres so submissas aos homens e voc me deve obedincia ou sofrer 
os rigores das leis muulmanas.
       Lupita d um tapa no rosto de Marcos e diz que prefere morrer a entregar-se a ele. Marcos lhe diz que ter pacincia, afinal ela ainda amava Luciano, mas 
logo o esqueceria.
       Ela grita, desconsolada:
       - Nunca, nunca!
       Uma senhora usando turbante e vu entra no quarto, trazendo um ch calmante para Lupita, por ordem de Marcos. Ele as apresenta. A mulher, que se chamava Maria, 
era-lhe fiel e trabalharia na casa, cuidando dela.
       A moa recusou-se a tomar o calmante, mas Marcos a obrigou e depois saiu do quarto, dizendo-lhe que seu banho estava preparado e que, aps, jantariam juntos.
       Lupita precisava mesmo de um banho reparador. Sua blusa estava mida pelo leite que vazara o tempo todo, lembrando-lhe da filhinha que amava amamentar e do 
marido que deveria estar sofrendo muito por sua ausncia. Sentia-se quebrada por dentro, sem foras sequer para chorar.
       Maria, trazendo uma xcara contendo um remdio para secar o leite, a desperta desses pensamentos, quando agasalhada num roupo felpudo, seca os longos cabelos.
       Ela recusa a bebida, mas acaba sendo convencida a tom-lo, quando a mulher lhe diz que, se o leite no secar, poder lhe causar febre e grande dor.
       Lupita no poderia ficar doente, pelo contrrio, tinha que estar muito forte e consciente para enfrentar o que o destino lhe reservara.
       Enquanto isso, muito longe dali.
       Rogrio e Lucimara passaram a noite na casa de Luciano, cuidando de Ceclia. Na manh seguinte, Luciano acordou com uma terrvel dor de cabea, e ficou surpreso 
ao perceber que os dois ainda se encontravam em sua casa.
       Vendo o estado lastimvel em que Luciano se encontra, Rogrio diz, pesaroso:
       - Sinto muito, meu amigo.
       - Voc no sabe o quanto  duro ser abandonado pela mulher que se ama, descobrir que ela se casou porque pensava que me amava, e porque achava que o homem 
que de fato ama, estava morto. - diz Luciano desesperado, como se seu corao estivesse partido em mil pedaos e ele no sentia mais vontade de  viver. 
       Naquele momento, ouviram um choro de beb e Luciano foi at o quarto atender a filha.
       - No chora, meu anjo, ns no temos a mame, mas temos um ao outro.
       Lucimara chegou com o caf e o remdio, disse que ela e Rogrio levariam Ceclia para sua casa, onde a empregada, uma senhora muito querida, cuidaria dela, 
convidando o cunhado para almoar com eles naquele dia.
       Ele lhes agradeceu por tudo e, apesar de se sentir muito mal, foi trabalhar. Afinal, mesmo com o mundo desabando  sua volta, a vida tinha que continuar e 
estar junto de seus alunos faria com que esquecesse, por alguns instantes, o pesadelo que estava vivendo.
       Embora estivesse se esforando para reagir, foi muito difcil para Luciano responder aos colegas e aos alunos de Lupita que desejavam saber por que ela viajara, 
para onde fora.
       Disfarando a dor como podia, ele passou a todos uma desculpa que arquitetara: ela fora para So Paulo, visitar uma amiga que estava muito doente, mas em 
breve voltaria.
       Essa era sua esperana: que um milagre acontecesse e Deus a trouxesse de novo para seus braos.
       Mal sabia ele que esse tormento estava longe de acabar. 
       Lupita levantou-se chorando, o travesseiro estava encharcado por seu pranto, os olhos muito vermelhos.
       O sol brilhava em tons avermelhados e, pela janela do quarto, a moa observou as pessoas tipicamente vestidas que circulavam pelas ruas, aproveitando o calor 
da manh de sexta-feira, indo para o trabalho ou simplesmente passeando a p, em automveis, motos ou bicicletas. 
       Passara a noite toda sem dormir, tentando encontrar uma maneira de fugir, no entanto nada lhe ocorrera, pois Marcos havia trancado a porta do quarto. S o 
que sabia  que precisava faz-lo o mais depressa possvel. 
       Naquele momento, Marcos apareceu:
       -Venha comer alguma coisa. - disse ele, em um tom simptico.
       - No quero. - respondeu Lupita, com agressividade.O rapaz insistiu dizendo que ela ficaria fraca, contudo a moa no lhe deu ouvidos, voltando-lhe as costas.
        Marcos aproximou-se dela e a beijou. Lupita afastou-se bruscamente. Apanhou um vaso que estava  mo e o atirou na direo de Marcos, desejando mat-lo. 
O homem se esquivou, enquanto o vaso se espatifava de encontro  parede.
       - Minha linda fera, estou tentando ter pacincia, mas tudo tem limite, querendo ou no voc ser minha. - disse ele, retirando-se
       - Antes eu te mato, maldito!. - gritou a moa assustada, porm decidida.
       Pouco depois, a criada entra no quarto com uma bandeja de caf da manh, insistindo para que Lupita se alimente, mas ela agradece e recusa e de nada adiantam 
os esforos da boa senhora. 
       A empregada se afasta e a moa continua a chorar. Uma hora depois, Maria volta para buscar a bandeja, que continua intacta.
       Lupita pergunta  senhora se havia algum telefone na casa, mas a criada a informa que o Sr. Salen havia retirado o aparelho.
       Lupita j esperava por essa resposta, mas no desanima. Pensa que se puder sair  rua, com certeza encontrar um telefone pblico e poder se comunicar com 
seu amado Luciano, contar-lhe o que de fato acontecera, ter notcias de sua filhinha, e pedir-lhe que a livre de seu cativeiro.
       Dizendo a Maria que queria conhecer um pouco do bairro onde se encontrava e respirar ar puro, pediu-lhe que abrisse a porta.
       A senhora lhe responde que, infelizmente, tem ordens estritas de no deixar a moa se ausentar da casa e mesmo que ela desobedecesse, havia dois seguranas 
l fora, que impediriam Lupita de sair.
       O desespero da moa e sua revolta ficavam cada vez maiores. Como ela odiava seu agressor! 
       Forando-se a reagir, ela sai do quarto, a fim de conhecer a casa, tentando memorizar cada aposento, as janelas e as portas que do acesso ao exterior e onde 
ficavam os seguranas, pois apesar do grande medo que sentia, Lupita decidiu que naquela mesma noite tentaria fugir.
       Sentindo-se fraca, devido  falta de alimentao e sabendo que precisaria de muita energia para enfrentar o desafio a que se propusera, resolve aceitar o 
almoo que Maria lhe preparara, uma sopa feita com favas, alho, azeite e especiarias, acompanhada de po rabe.
       Ao entardecer, Marcos retorna do trabalho e fica satisfeito em encontrar Lupita na sala, arrumada para o jantar.
       Depois da entrada, uma pasta de berinjela muito saborosa, servida com po, a criada apresentou o prato principal, um couscous marroquino, espcie de risoto 
composto de uma variedade de trigo e especiarias, acompanhado de carneiro assado ao molho de hortel. Tudo muito diferente do que Lupita j provara, mas de muito 
bom paladar. Marcos lhe oferece um clice de vinho tinto encorpado, que a moa recusa, preferindo servir-se de um suco de laranja.
         Jantam em silncio, sem que o rapaz faa nenhuma tentativa de se aproximar dela, que agradece a Deus por essa graa.
       Logo em seguida, Lupita pede licena para se retirar para seu quarto, trancando a porta.
       L chegando, abre o armrio, onde Maria havia guardado as vestimentas tpicas que Marcos lhe comprara: cftans em algodo e seda, turbantes, vus, chales 
e sapatilhas ricamente bordadas. Apanha apenas as roupas que vestia no dia anterior e que agora j estavam limpas e passadas, colocando-as numa sacola que encontrara.
       Procura seus documentos, sem encontr-los. Isso seria um fator que complicaria sua fuga, mas pretendia, mesmo assim, dar continuidade ao seu plano de sair 
daquela casa, pedir informaes para chegar ao Consulado Brasileiro, onde pediria asilo e telefonaria para o Brasil.
       Resolve vestir as roupas marroquinas, pois assim poderia se confundir com outras mulheres e passar despercebida nas ruas.
       Deita-se, fica aguardando o tempo passar e a casa silenciar, para ento dar seqncia ao seu plano de fuga. 
       A madrugada est quente. A lua minguante  visvel pelas grades de sua janela, e as estrelas parecem piscar para ela, encorajando-a. 
       No tem relgio, mas o instinto lhe diz que passa da meia noite. Tudo est calmo na casa. No se ouve nenhuma movimentao.
       Durante a tarde, em seu passeio pela casa, reparara que a chave da porta que dava para uma ala lateral, era guardada num chaveiro colocado sobre um aparador. 
        Por sorte, a chave ainda se encontrava no mesmo lugar. Abre a porta silenciosamente, e pedindo a proteo divina, esgueira-se pelo ptio externo da casa, 
mas ao chegar ao porto, se depara com um enorme co de guarda que investe contra ela.
        A moa pula para trs assustada, contudo o animal  detido por um segurana, um homem moreno, com trajes ocidentais, que a olha acreditando que fosse marroquina. 
Lupita percebe a indeciso do homem e sabe que, se falar, ele perceber que ela no  uma compatriota.
       Sob a vestimenta, as pernas de Lupita tremem de medo e ansiedade. Abaixa a cabea, tentando passar pelo segurana. Mas este, falando em seu dialeto e tomando-a 
pelo brao, faz com que ela volte sobre seus passos e entre novamente na casa, apesar da resistncia que, desesperadamente, ela apresenta.
       Atrado pelos latidos do co, Marcos aparece e falando energicamente em rabe com o homem, parece repreend-lo. Arrasta Lupita para dentro e j longe do segurana, 
diz-lhe para no tentar escapar novamente, pois ela pagaria muito caro por isso.
        - Quando  que voc vai entender que nada poder lev-la para longe de mim? Esquea tudo o que passou, aceite seu destino, minha cara. Sua vida, agora e 
para sempre, ser ao meu lado. Eu ainda a farei feliz, voc vai ver!
       A moa est to desapontada que no tem nem palavras para contradiz-lo.
       Marcos leva Lupita para o quarto, agora trancando-o pelo lado de fora.
       A jovem deita-se chorando at que o cansao a vence e ela pega no sono. Sonha que est ao lado de Luciano e da filha, que os abraa fortemente e lhes diz 
o quanto os ama.
       Na manh seguinte, antes de ir para o trabalho, Marcos entra no quarto, encontrando Lupita de banho tomado e j vestida com as roupas marroquinas, que a tornavam 
ainda mais bela e atraente, sentada numa poltrona ao lado da janela.
       - Vejo que est com melhor aparncia. Voc dormiu bem?
       Seus modos, antes agressivos e raivosos, agora pareciam mais simpticos, quase ternos, o que colocou Lupita em posio defensiva, imaginando que esse poderia 
ser um novo estratagema para tentar dobrar sua rejeio. 
       No entanto, ele no se aproximou, partindo em seguida, desejando-lhe um bom dia e dizendo que jantariam juntos.  
       Estranhamente, Marcos no tranca a porta do quarto ao sair.
       O dia transcorre calmamente, e embora tivesse alguma dificuldade para entender o francs falado por Maria, Lupita consegue travar uma agradvel conversao 
com ela, percebendo que a criada no se sentia  vontade em vigi-la para cumprir as ordens do patro.
       Sabendo que, por enquanto, nada havia que pudesse fazer para escapar de seu cativeiro, a moa resolve esperar o momento adequado para faz-lo com segurana 
e, nesse nterim, vai se familiarizando com os usos e os costumes daquela terra estranha.
       Naquela noite, ao chegar do trabalho, Marcos cumprimenta-a gentilmente, dizendo que tomaria uma rpida ducha e logo estaria pronto para jantar com ela.
       Pouco depois, Maria a chama, dizendo que o patro a aguarda na sala, onde logo o jantar seria servido.
       Vestida com um discreto cftan de seda sulferino que a cobre at os ps, os cabelos presos em um coque e sem nenhuma maquilagem, Lupita parece deslumbrante 
aos olhos cobiosos de Marcos, que beberica um aperitivo. A mesa posta para dois, ornamentada com flores e iluminada por velas, parece preparada para amantes apaixonados.
       Embora percebendo a beleza das porcelanas, dos cristais e da prataria, Lupita no se deixa tocar por essa encenao.
       Ao invs de sentar-se no lugar arrumado ao lado de Marcos, coloca-se suficientemente distante dele, evitando que seus olhos se cruzem ou que se toquem de 
qualquer forma.
       Marcos finge no perceber essa artimanha e, como se nada estivesse acontecendo, senta-se  mesa, ordenando  criada que lhes sirva a refeio.
       Ao longe, ouve-se o murmrio da cidade e vozes parecendo lamentos, que entoam canes desconhecidas.
       Os dias passam, sem que Lupita consiga qualquer avano em suas tentativas de se comunicar com o mundo para alm dos muros onde se encontra encerrada. 
       Maria se mostra uma pessoa honesta, sensvel e generosa, oferecendo todo conforto possvel para aliviar o sofrimento daquela jovem que ela mal conhecia, mas 
que lhe conquistara a simpatia, por sua doura e fina educao. Como boa crist, sente-se culpada por ajudar seu patro a manter a moa enclausurada, mas entende 
que, nos casamentos arranjados, como era natural em sua cultura, algumas vezes eram necessrias tais medidas, at que a esposa aprendesse a amar e a respeitar o 
marido escolhido por sua famlia. Afinal, fora essa a explicao que o senhor Salen lhe dera para aquela estranha situao.
       Por seu lado, Marcos parecia ter decidido mudar a forma de tratar Lupita, embora ela recuse seus carinhos e o trate com dio e desprezo.
       Apesar de todas as dificuldades que encontra, Lupita no abandona seu plano de escapar daquela priso e telefonar para Luciano.  Noite aps noite, continua 
a tentar alguma forma de burlar a vigilncia dos seguranas e dos ces de guarda, sem, no entanto conseguir chegar nem mesmo ao porto de entrada daquela fortaleza.
       Com todas suas tentativas frustradas, Lupita vai ficando cada vez mais desanimada, porm, no perde as esperanas de rever Luciano e Ceclia. No se conforma 
com aquela situao, voltaria para casa a qualquer custo, no desistiria de lutar. 
       Com o tempo, as tentativas frustradas de se libertar e buscar ajuda, vai minando suas energias e Lupita deixa-se dominar pela tristeza e saudades que sente 
de seus amados. No consegue se alimentar. Chora o tempo todo, trancada no quarto. 
       Essa situao acaba enfraquecendo a sade j debilitada da moa, que passa a ter febre e em seus delrios chama por Luciano e Ceclia. 
        Marcos, sentado ao seu lado, com as mos de Lupita entre a suas, ri-se de cimes e revolta. 
        Tendo aquela linda e frgil mulher to prxima, os instintos passam a falar mais alto e a falha de carter do rapaz vem  tona. Fala com Lupita com voz suave, 
como se fosse Luciano, e em seu estado febril, a moa acredita que seu amado est junto dela. 
       Ele a toma nos braos e abraa-a contra o peito. Sua pele arde de desejo como o fogo em brasa.
       Queimando em febre, Lupita corresponde ao beijo de Marcos, chamando-o de Luciano e dizendo-lhe palavras de amor.
       Nesse momento, Maria entra no quarto e informa que o mdico havia chegado.
       Marcos coloca Lupita na cama e o mdico, aps ouvir algumas informaes sobre o que vinha ocorrendo com a jovem, comea a examin-la. A moa estava muito 
debilitada e a febre alta era causada por uma grave infeco. Alm disso, tinha olheiras profundas, e era visvel que dormia muito mal.
       O mdico receita antibiticos e analgsicos, alm de recomendar que oferecessem alimentos leves  paciente, insistindo que, se no houvesse melhora, teriam 
que intern-la no hospital, para alimentao endovenosa.
       Despede-se, dizendo que retornaria no dia seguinte para verificar o estado de Lupita, mas antes de partir insiste que  necessrio que a jovem tome sol e 
respire ar puro.
       Marcos agradece e o acompanha at a porta. Ordena, ento, a um dos seguranas que v at a farmcia mais prxima para trazer os medicamentos receitados pelo 
mdico.
       Volta para o quarto e fica admirando a beleza da moa adormecida. Aproxima-se dela, completamente tomado pela loucura do desejo. Ao perceber o contato das 
mos de Marcos, Lupita se debate, chamando por Luciano. Ele se curva sobre a jovem indefesa e a beija com paixo. Agora saciaria seu desejo.
       Mesmo sem se dar conta da caridade que estava fazendo, novamente Maria interrompe a ao doentia do patro. Chega com os remdios e com um leno embebido 
em lcool e o coloca na testa da moa para ajudar a baixar a febre. 
       Marcos ordena, aos gritos, que ela se retire, mas a boa senhora insiste que trouxera tambm os remdios e que era necessrio medicar Lupita o quanto antes. 
A jovem acorda assustada, senta-se na cama com esforo e toma a medicao que a criada lhe oferece, sem perceber o dio estampado na face de Marcos.
       Maria senta-se ao lado da moa, molha novamente o leno no lcool e o coloca sobre a fronte de Lupita. A moa agradece por essa ateno e carinho e lhe pede 
que no se afaste. A criada atende ao pedido da patroa, enquanto Marcos anda de um lado para outro, raivoso como um urso enjaulado.
       Poderia ter ordenado que a empregada os deixasse a ss, mas temia levantar suspeitas sobre a situao irregular que estavam vivendo e a mulher o denunciasse 
s autoridades.
       Pensava consigo mesmo que o melhor era esperar uma ocasio mais propcia, para ento tomar aquela mulher, de uma vez por todas. J esperara bastante, mas 
no poderia correr nenhum risco. Teria que ter mais um pouco de pacincia. 
       Luciano no conseguia se conformar com o fim de seu casamento. Estava furioso e queria encontrar Lupita para perguntar-lhe por que o abandonara daquele jeito, 
gostaria de olhar novamente para ela e despejar toda sua mgoa e rancor. Pela primeira vez, desejou t-la diante de si, no para dar-lhe amor, e sim para desprez-la. 
       Muitas vezes interrogara ris sobre o paradeiro de Marcos, esta porm alegava sempre que, tal como ele, no sabia que Marcos fingira estar morto, e consequentemente, 
no tinha como encontr-lo.
       Pelo sobrenome, Luciano conseguiu encontrar Geovana, que era a irm mais nova de Marcos. No entanto, por mais que a pressionasse, a jovem dizia no saber 
que destinoseu irmo tomara.
       Por mais que sentisse raiva de Lupita e fizesse de tudo para esquec-la, aquele amor no saa de seu peito. Estava cada vez mais infeliz e deprimido. J no 
era o professor competente que sempre fora, chegava atrasado na escola, faltava s aulas e muitas vezes ficava sentado e deixava os alunos  vontade, de modo que 
o diretor da escola, embora compreendesse seu sofrimento, foi obrigado a lhe chamar a ateno. 
       O pobre rapaz, sem saber a quem recorrer, cara numa depresso profunda e, para minorar sua dor, buscava refgio na bebida.
       Tornara-se um pai ausente, mal cuidava da filha e o pior era que se recusava a falar com as pessoas, at mesmo com Rogrio. Lucimara o ajudava como podia, 
mas ele a ofendia e procurava afast-la da sobrinha, dizendo que, tal como Lupita, com certeza ela tambm iria decepcionar sua filha.
       Assim, procurava se virar da forma como podia. Sua inexperincia fazia com que a hora do banho fosse um martrio, pois morria de medo de machuc-la, e s 
vezes a colocava na gua muito quente ou muito fria, fazendo com que a criana reagisse com choro e isso o enlouquecia. Toda noite a menina acordava chorando de 
fome ou clica.      
       Uma noite, Ceclia acordou chorando muito, o pai fez de tudo para acalm-la, mas sem conseguir, desesperado, ligou para Rogrio.
       Quinze minutos depois, Rogrio e Lucimara chegaram apavorados. A tia tirou Ceclia dos braos do pai e perguntou o que estava acontecendo com ela. Luciano 
estava muito nervoso e no sabia responder. Rogrio comeou a examinar o beb e tranqilizou o amigo, pois era apenas uma clica. Lucimara fez um chazinho para a 
menina e massageou-lhe a barriguinha com carinho. Logo em seguida Ceclia dormiu e Luciano ficou aliviado.
       Rogrio e Lucimara voltaram para casa, comentando que no conseguiam entender como Lupita, uma me to zelosa, pudera abandonar uma criana indefesa, que 
amava tanto. Isso no fazia sentido para eles. Que a moa quisesse se separar de Luciano, era at plausvel, mas abandonar a criana, era uma atitude absolutamente 
incoerente com a personalidade amorosa e responsvel damoa.
       Lucimara tentava defender a irm, dizendo que, provavelmente, o cunhado fizera alguma coisa muito grave, mas nada convencia Rogrio: Lupita demonstrara no 
ter amor por Ceclia, pois nem mesmo as feras abandonam seus filhotes. A discusso entre os dois se acalorou e chegaram a brigar e at a dormirem em quartos separados, 
coisa que at aquele dia no tinha acontecido.
       No dia seguinte, Rogrio disse  esposa que havia pensado bem e que no era justo que um problema de Luciano e Lupita atrapalhasse o casamento deles. Ela 
concordou e disse que queria que a sobrinha viesse morar com eles, para que pudessem cuidar dela, pois no estado em que o pai se encontrava, no tinha como dar conta 
dessa delicada tarefa.          
       O marido aprovou a idia e os dois foram falar com Luciano, que concordou, desde que visse a filha todos os dias, e que esse arranjo fosse apenas enquanto 
ele se recuperava da depresso. 
       Para se tratar, Luciano pediu uma licena mdica na escola, o que no melhorou em nada seu estado de nimo, pois passava os dias em casa deitado, sem querer 
ver ningum. 
       Havia descuidado da aparncia, a barba por fazer acentuava sua magreza e palidez. Sentia-se sem vontade de viver, isolava-se com as garrafas de bebida, e 
recusava-se a tomar os remdios para depresso.  
       Rogrio tentava convencer o amigo a tomar os medicamentos e se alimentar melhor, mas Luciano no queria saber de nada. Fora abandonado pela mulher que mais 
amava no mundo, que era sua razo de viver, era o sol da sua vida. Porm ela o trara, fugira com outro, o humilhara.
       O rapaz sofria ainda mais ao imaginar que, nesse momento, ela deveria estar toda feliz com Marcos. Sentia-se um homem miservel, um fracassado, um intil 
que fora trocado por outro bem mais interessante do que ele. 
       Doa-lhe a falta da esposa, seu corpo, seus beijos, seus carinhos. Mas agora ela pertencia a outro, ao desgraado que a tirara dele, e que agora deveria estar 
zombando de sua tristeza.
       ris fora muitas vezes  sua casa para consol-lo, no entanto, ele se recusava a falar com ela. 
       Rogrio e Lucimara levavam Ceclia todo dia para junto do pai, mas em depresso profunda, o rapaz ficava pouco tempo com ela no colo e no brincava com a 
filha. 
       Em Marrakech, Marcos desfrutava de uma boa condio financeira, o que lhe permitia conviver com pessoas, tanto da elite marroquina, como com brasileiros, 
seus colegas de trabalho, especialmente aqueles que desempenhavam altos cargos na mineradora. 
       Com o passar do tempo, comeou a organizar jantares em sua casa, encarregando Lupita de receber os convidados. Por seu lado, a moa convivia com as esposas 
dos colegas e amigos de Marcos e, embora tivesse muita vontade de lhes contar toda a verdade e pedir-lhes socorro, sabia que no poderia faz-lo ou colocaria em 
risco a vida de Luciano e de Ceclia.
       Nessas ocasies, Lupita se comportava de forma educada e corts, mas sem a jovialidade, a leveza e a aparncia de felicidade que Marcos lhe exigia.
       Dentre as esposas dos colegas de Marcos, apenas uma era brasileira e as demais eram de origem rabe francesa, espanhola e portuguesa. Todas eram muito simpticas, 
mas muito discretas e os assuntos das conversas eram sempre os problemas com as criadas, com os estudos dos filhos, com as novidades que encontravam nos souks, sem 
jamais entrarem em detalhes sobre suas vidas. 
       Lupita limitava-se a ouvir e aprender tudo o que pudesse com aquelas mulheres sem, contudo, mostrar-se demasiadamente ansiosa. Desempenhava a contento seu 
papel de anfitri, embora isso lhe custasse um grande esforo.
       Esperta, a jovem tentava fazer algumas das vontades de Marcos, tal como fingir na frente dos amigos, que ela e o falso marido se davam bem. Isso no lhe era 
penoso porque, de acordo com a cultura marroquina, os cnjuges agem de forma muito discreta e no costumam demonstrar afeto em pblico.
       Mesmo assim, Marcos no perdia oportunidade de tratar Lupita carinhosamente, abraando-a e dizendo-lhe palavras gentis, o que lhe causava ainda mais nojo 
pelo farsante.   
       Marcos se comunicava pela internet com o Brasil, conversava com alguns amigos e raramente com ris e Geovana. Quando estas lhe contaram que Luciano as interrogara, 
fez a irm jurar que no lhe revelaria seu paradeiro, e zombou do rival, afirmando que este nunca poderia encontr-lo.
       Cada vez mais atrado por Lupita, seu desejo se transformara em uma parania, mas no podia tom-la  fora, uma vez que ele se realizaria apenas quando a 
tivesse completamente apaixonada em seus braos, perdida de amor por ele.
       Lupita, no entanto, no lhe dava chance de se aproximar, afastava-o demonstrando seu desprezo e profunda averso e essa estratgia vinha mantendo-o longe 
dela, mas a moa no sabia por quanto tempo conseguiria manter sua integridade e isso a apavorava.
       E assim se passaram dois meses. 
       A primavera estava chegando ao fim e um calor mais acentuado prenunciava o vero. 
       Marcos estava perdendo a pacincia, a cada dia que passava desejava Lupita mais e mais. 
       Naquela noite, ao chegar do trabalho,cansado de tanto esperar, no consegue se controlar e vai at o quarto dela.
       Quando o v se aproximar, a moa se desespera, no entanto Marcos no a toca. Senta-se ao seu lado e diz num tom de voz sedutor:
       - Nenhuma mulher consegue viver sem o amor de um homem, principalmente uma linda jovem como voc.
       - Uma mulher apaixonada  fiel ao marido por mais longe que ele esteja. - diz Lupita com firmeza. Marcos segura-lhe a mo:
       - Voc nunca mais vai ver o Luciano, e no  justo que vivamos nessa solido. - ela se afasta e tenta sair do quarto, contudo ele a segura pelo brao:
       - Por favor, Lupita, entregue-se de uma vez, voc no sabe como eu posso faz-la feliz.
        - Eu nunca vou me entregar ao homem que me separou da minha filha!- diz a moa, decidida.
         - Minha cara, tenho sido extremamente paciente com voc, na expectativa de conseguir seu amor, mas voc teima em no aceitar meus carinhos. Ento voc vai 
ser minha por bem ou por mal. 
         Dizendo isso, ele a abraa e comea a beij-la, mas Lupita morde seus lbios, debatendo-se violentamente, fazendo de tudo para se defender, porm de nada 
adianta, pois Marcos a domina com sua fora mscula. 
        - Serei como um cadver, voc vai se arrepender. - e completamente apavorada, Lupita comea a gritar por socorro.
        Maria ouve os gritos e corre at o quarto, levando um copo d'gua, como pretexto. Bate na porta, e como no obtm resposta abre-a. Ao v-la, Marcos solta 
Lupita, que est muito plida, e tem uma expresso de profundo pavor.
       - Senhora Soha, vim trazer sua gua. - diz Maria assustada, ao compreender o que estava acontecendo.
       - Obrigada, Maria. - diz Lupita com a voz trmula, agradecendo a Deus pela chegada da senhora.
       Marcos, branco de fria, grita para que a criada os deixe a ss, mas Lupita se esquiva dele e dizendo que teria que dar umas ordens a Maria, retira-se com 
ela.
       Marcos bate a porta com toda fora, praguejando em portugus. Em seguida, pega seu palet e sai para a noite quente do deserto.
       A moa, em desespero, abraa Maria chorando e, sem poder esconder a verdade por mais tempo, conta-lhe sua triste histria. 
       A mulher fica espantada e percebendo que a moa confiava nela, confidencia-lhe que seu marido havia morrido quando ela ainda era muito jovem. Criara sua filha 
e uma sobrinha sem a ajuda de ningum. A filha, aos dezessete anos fora vtima de uma grave doena e acabara morrendo. Hoje ela vivia apenas para a sobrinha, que 
era viva e tinha um filho de trs anos, que Maria considerava como seu neto.
       Lupita condi-se com tanto sofrimento, pois no imagina nada pior no mundo do que ver seu marido e sua filha morrerem. Muito emocionadas, ambas se abraam, 
chorando copiosamente.
       Maria prepara um ch e, depois de se acalmarem, Lupita lhe pede segredo sobre o que haviam conversado, dizendo: 
       - Marcos no pode saber que tivemos essa conversa. Fico apavorada s em pensar que daqui a pouco ele estar de volta e eu j no sei mais o que fazer para 
no cair em suas garras.
       - No se preocupe, minha filha, eu vou ajud-la a fugir. - diz Maria, comovida com a triste histria. A moa abraa-a cheia de gratido e pensando que aquela 
senhora, por sua bondade, fazia juz  santa2 do mesmo nome.
        Marcos chegou tarde da noite e, parecendo bbado, foi direto para seu quarto, para alvio de Lupita que agradecia a Deus por mais um dia sem passar pela 
indignidade de ser tomada  fora por esse homem.
       No dia seguinte, Lupita procurou ficar o mais longe possvel de Marcos, evitando encar-lo. Ele tomou o caf da manh sozinho e partiu para o trabalho, para 
s voltar ao entardecer.
       Seguindo o plano que arquitetara, quando preparava o jantar, Maria colocou um sonfero na cerveja de Marcos e do segurana. Nenhum deles percebeu essa manobra 
e logo caram em pesado sono.
       Ento, as duas fizeram as malas de Lupita e comearam a procurar seus verdadeiros documentos, que Marcos escondera muito bem. Finalmente, Maria acha a chave 
da gaveta da escrivaninha do patro e l os encontra. Joga pedaos de carne com sonfero para os ces, que logo adormecem, sem alarde.
       A boa senhora leva Lupita para sua casa, onde vivia com a sobrinha, Manall e  seu pequeno filho Haman, de trs anos.
       A casa era grande e confortvel, ainda que muito modesta. Os quartos eram espaosos e arejados, e na sala havia uma imagem da Virgem Maria e um Cristo na 
cruz. S ento Lupita descobriu que Maria era crist, pois se casara com um ocidental, embora usasse o vu, em respeito  tradio dos pais.
       A moa  muito bem tratada pelas duas, mas a ansiedade pelo reencontro com Luciano e Ceclia, no a deixa dormir. Ela se vira na cama, dominada por mil pensamentos 
e preocupaes. No entanto, uma esperana a anima: voltaria a segurar sua filha querida, cuidaria dela dando-lhe todo seu carinho, acompanharia seu crescimento e 
estaria a seu lado quando desse os primeiros passos. Abraaria o marido, e poderia matar a saudade, recuperariam o tempo perdido e ningum os separaria de novo.
        Ento lhe ocorreu um terrvel pensamento: e se Luciano no a aceitasse novamente? E se j estivesse com ris ou com outra mulher? E se quisesse impedi-la 
de ver a filha? E se Marcos conseguisse aprision-la novamente? Estes pensamentos a deixaram muito angustiada, decidiu tir-los da cabea, e pensar apenas nas coisas 
boas que a esperavam.
       Assim que amanhece, Manall vai  agncia de viagens comprar as passagens para Lupita, com o dinheiro que haviam encontrado junto com seus documentos, na escrivaninha 
de Marcos.
       O avio, com destino  cidade de Granada, na Espanha, s partiria na tarde daquele dia. Aps essa escala, o vo faria o trajeto at Madri e, de l, para So 
Paulo.  
       O dia amanheceu muito bonito, o sol forte iluminava e aquecia as casas e ruas, com tonalidades de vermelho, amarelo e laranja. Lupita, quase morrendo de tanta 
ansiedade, vestiu suas roupas ocidentais, e isso a fazia sentir-se mais prxima de seu pas. 
       Maria e Manall a acompanharam at o aeroporto, onde aguardaram ansiosamente a hora do embarque. Finalmente, ouviram o alto-falante anunciar o vo. Lupita 
despediu-se das amigas e caminhou at o porto de embarque, quase sem conter as emoes. De repente, sentiu uma mo pesada segur-la pelo ombro. Ela virou-se e, 
apavorada, viu Marcos com uma expresso de fria incontrolvel:
        -  melhor no gritar e vir comigo, se no quiser que suas queridas amigas morram aqui mesmo!
       A mo de Marcos em seu brao a machucava, parecendo quebrar seus ossos.
       Do lado de fora do aeroporto, longe da vista das pessoas, o segurana de Marcos apontava uma arma contra Maria e Manall, que segurava o pequeno Haman nos 
braos. Sem alternativa e chorando muito, Lupita  obrigada a acompanh-lo. 
       Ao chegar em casa, Marcos entra com Lupita no quarto, tranca a porta e d-lhe um forte tapa no rosto. A moa grita de dor e dio, caindo de costas no cho.
       - Eu fui bom com voc, tive pacincia, no lhe fiz nada porque sabia que ainda amava aquele desgraado. Me empenhei em conquistar seu amor, mas voc me traiu, 
Lupita, queria voltar para os braos daquele maldito. Agora voc vai ver, eu cansei de agentar o seu desprezo. 
       Dizendo isso, feito uma fera, Marcos comea a agredir Lupita, que chora desesperada, suplicando que ele pare. Transtornado, Marcos agarra-a e comea a beij-la 
 fora, enquanto suas mos correm luxuriosas pelo corpo esguio da jovem. 
       Com o corpo dolorido pela surra, a moa se defende desesperadamente, tentando machuc-lo de todas as maneiras. No meio da luta, o retrato de Luciano se quebra, 
bem como muitos objetos, que Lupita atira contra Marcos, sem conseguir det-lo.
       Com um safano, Marcos a atira contra a cama e atordoada, a moa perde as foras. Tenta, em vo, afastar o brutamontes, mas ele consegue domin-la sem esforo. 
Lupita lhe implora que no lhe faa mal, perdendo os sentidos. Louco de desejo, Marcos a possui.
       "E agora, seu estpido, como voc se sentir ao saber que sua esposa j no  to pura?" - pensa o covarde mirando o retrato cado de seu rival.
       Juntando suas roupas, Marcos deixa o quarto, voltando-se para olhar Lupita ainda desfalecida sobre a cama, em meio a um caos de objetos com os quais tentara 
se defender de seus carinhos.
       Como lembrana daqueles fatdicos instantes, Marcos levaria as marcas das unhas de Lupita em seu rosto, braos e trax.
       Um gosto amargo lhe ficara na boca. Afinal, sua vitria no o fizera feliz. Fora como possuir uma boneca sem vida e o que ele queria era o calor de um amor 
vibrante, plenamente correspondido.
       Lupita acordou ao ouvir o barulho da porta batendo.
       A moa se sentia suja,  horrorizada por aquela indignidade.
       Tomou um demorado banho, e por mais que se lavasse, seu corpo parecia estar marcado para sempre. No conseguira se guardar para Luciano como sempre sonhara, 
chorava muito e aqueles terrveis momentos no saam de sua cabea. E agora no tinha ningum com quem desabafar, pois Marcos mandara Maria embora e para substitu-la, 
contratara uma taciturna criada turca, com quem Lupita conseguia se comunicar apenas atravs de gestos. 
       A moa comeou a ter fortes crises nervosas, e precisava tomar calmantes fortssimos. Todavia, Marcos se tornara extremamente agressivo e abusava dela todos 
os dias, mesmo ela se defendendo desesperadamente, agredindo-o violentamente, provocando srios ferimentos que o deixavam ainda mais irritado. 
       Muitas vezes a moa tentara o suicdio, porm ele sempre conseguia salvar sua vida.
       Lupita sentia que aquilo tudo a estava enlouquecendo, parecia que sua cabea ia explodir, e o corao estava partido em mil pedaos. Sentia nojo de Marcos 
e sua vida era um verdadeiro inferno. A saudade da famlia a corroa, queria rever a filha e o marido a qualquer custo, mesmo que fosse a ltima coisa que fizesse 
na vida.
       Determinada a escapar daquela tortura, tentou inmeras fugas, sem obter xito e enfurecendo cada vez mais seu torturador.
       O nico jeito de conseguir sua liberdade era matar Marcos. Jamais imaginara que pudesse pensar em assassinar algum, entretanto agora era s nisso que pensava.
       Esse pensamento era a nica coisa a anim-la. Agora era preciso planejar cuidadosamente esse ato, e para isso, seria necessrio verificar a forma de faz-lo.
       Passaram-se alguns meses, o inverno se fora e o outono estava quase no fim. 
       Uma tarde, enquanto caminhava pelo quintal, observou que um dos criados guardara veneno para ratos no depsito, situado na rea externa da casa. Pronto, j 
tinha o meio de acabar com o crpula que destrura sua vida. 
       A noite de quarta-feira estava nublada, o vento glido aoitava as janelas e o cu estava escuro, prenunciando uma forte chuva. Lupita foi at a cozinha e 
disse  cozinheira que ela mesma prepararia o jantar, conforme j havia feito outras vezes.
       Assim que a mulher foi arrumar a mesa na sala de jantar, Lupita colocou veneno na comida de Marcos e a serviu sem pestanejar, sem um mnimo de remorso, tanto 
era o dio que lhe oprimia o corao.
       Sem desconfiar de nada, Marcos elogiou a "esposinha" por estar se esforando para agrad-lo.
       Depois de comer, ele comeou a passar mal e pediu-lhe ajuda. A moa, porm, olhou bem dentro de seus olhos e lhe disse:
       - Isto  para que pague por todo o mal que me fez, maldito. E sem sequer olhar para trs, levantou-se, pegou a mala que escondia na despensa e correu para 
fora da casa. Disse ao segurana que o patro estava passando mal e que ele devia chamar uma ambulncia. Assustado, o rapaz correu para dentro da casa, deixando 
o caminho livre.
       Lupita corria pelas largas ruas, onde transitavam motos, carros, bicicletas, camelos e todo tipo de veculos. Nem sabia como se sentia, se assustada, ansiosa 
ou apavorada, s o que sabia,  que agora estaria livre, e finalmente, depois de tantos sofrimentos, reencontraria o marido e a filha. Ah, Ceclia, deveria estar 
to linda!                         
       Tomou um txi e chegou ao aeroporto para pegar o vo, cujas passagens Manall havia comprado e que ela, a duras penas, escondera de Marcos.
        Fez o check in e verificou que o avio sairia dentro de duas horas. A moa no sabia para onde ir, provavelmente o aeroporto seria o primeiro lugar onde 
o segurana de Marcos iria procur-la. Tambm no poderia colocar em perigo a vida de Maria, Manall  e Haman, pois se Marcos se recuperasse, no hesitaria em vingar-se 
da pobre senhora e de seus nicos parentes.
       Voltou s ruas, caminhando sem rumo. Mal reparava nas grandes construes cor-de-rosa pelas quais passava.
       Pensamentos desencontrados povoavam sua mente. Afinal, envenenara um homem. Oh, Deus, nunca imaginara que um dia faria isso, e se Marcos morresse? Era isso 
que queria, mas apesar de tudo que ele lhe fizera, temia no suportar o peso desse crime na conscincia.
       Lupita mal se deu conta do longo tempo que passou caminhando pelas ruas. De repente, sobressaltou-se ao ver o segurana de Marcos que se aproximava. Ela estava 
usando vu e ele no poderia reconhec-la, entretanto, tal foi seu desespero que comeou a correr. Isso despertou a ateno do segurana, que ao alcan-la, tirou 
seu vu, e por mais que ela resistisse, levou-a de volta para casa. 
       Marcos havia sido levado para o hospital e ordenara ao segurana que reencontrasse sua esposa a qualquer custo. Por ordem dele, Lupita ficou trancada no quarto 
durante vrios dias, no saa nem para fazer as refeies. Ficava chorando e pensando em como teria sido se tivesse conseguido fugir, provavelmente estaria feliz 
nos braos do marido, matando a saudade, e poderia novamente segurar sua adorada filha, a razo de sua vida. Contudo, no perdia as esperanas de rev-los, e planejava 
novas fugas.
        Trs dias depois, Marcos saiu do hospital totalmente recuperado e pronto a continuar maltratando-a, agora ainda com maior rancor.
       Para os amigos e para a empresa, Marcos disse que havia sofrido uma indisposio gstrica, devido ao consumo de algum alimento indigesto.
       Enquanto isso, no Brasil, os remdios e o passar do tempo comearam a fazer efeito e Luciano retornara ao trabalho, ainda que a tristeza continuasse a mago-lo. 
Viu-se obrigado a cuidar da aparncia, a fim de no passar para seus alunos e colegas o estado de esprito em que se encontrava.
       Incentivado pelos amigos, Luciano passou a aceitar alguns convites para sair  noite. Na turma que freqentava, encontrava-se Karen, a professora que ficara 
no lugar de Lupita, uma jovem muito simptica e de conversa inteligente, que lhe despertou interesse. ris tentara se aproximar dele vrias vezes, mas devido a seu 
estado depressivo, no lhe dera ateno nem mesmo nos intervalos de aula, quando preferia ficar afastado, sem se contagiar com o entusiasmo dos colegas. Seu nico 
confidente era Rogrio. 
       Pensando que se tivesse a filha ao seu lado seu sofrimento seria menor e, ,j se encontrando em condies de tomar conta da menina, Luciano pede a Lucimara 
e Rogrio que a deixem voltar para casa. Sabia, no entanto, que no estava em condio de faz-lo e entendeu as objees dos cunhados, contentando-se em ficar parte 
dos finais de semana com a criana. Assim, nas poucas horas que Ceclia ficava com ele, mantinha-o ocupado e o distraa, fazendo-o esquecer, por algum tempo a desiluso 
que o acometera. 
       Assim, chegaram as frias escolares e Luciano, mais calmo e decidido a encontrar rumo para sua vida, passou a se dedicar integralmente ao convvio com a linda 
filha, a lev-la a passeios, a ensinar-lhe as coisas belas do mundo.
       A menina, muito esperta, embora ainda no houvesse completado um ano, j falava algumas palavras, dava alguns passinhos e transformava o mundo de seu pai 
com sua inocncia e seu riso cristalino. 
       O natal foi comemorado pela famlia sem grandes festejos,uma vez que a tristeza pela ausncia de Lupita pairava no corao de todos. Embora fizessem de tudo 
para demonstrar alegria, quando Luciano, Rogrio e Lucimara estavam longe de Ceclia, era inevitvel ser ela motivo de dor e sofrimento.
       O vero brasileiro aquecia os coraes e eles trataram de viv-lo da melhor forma possvel.
       Com o retorno ao perodo escolar, a vida de Luciano volta  sua rotina e ele procura dar tudo de si para atender a filhinha e ser o excelente professor que 
sempre fora.
       Chega o ms de maio e, com ele, o dia do aniversrio de Ceclia. A festa, organizada por Lucimara seria realizada no clube da cidade, especialmente em seu 
jardim, onde se encontravam brinquedos para as crianas, carrinhos com farta distribuio de sorvete, pipoca e cachorro-quente, tudo muito bem organizado e com decorao 
com o tema de Cinderela.
        Era sbado, a tarde estava ensolarada e uma brisa suave arejava o ambiente. O inverno logo chegaria, mas as flores do jardim, ainda exuberantes, exalavam 
um leve perfume. A menina estava no colo do pai, encantadora em sua fantasia de Cinderela. Luciano, aparentemente recuperado do sofrimento pelo qual passara, parecia 
um gal de cinema devido a sua grande beleza e charme. 
       Os dois estavam na frente do jardim, juntamente com Rogrio e Lucimara, recebendo os convidados. ris aproximou-se com uma roupa chamativa, abraou Luciano 
e entregou seu presente para Ceclia. Karen chegou em seguida, acompanhada por Lia e Roseana, que tambm presentearam a menina. O diretor da escola veio acompanhado 
por sua esposa e por suas duas filhas.
       A festa foi muito animada e todos se divertiram. 
       Luciano, porm, estava dividido, por um lado estava feliz, pois aquele era o dia do aniversrio de sua filha. Mas por outro, seu corao estava dilacerado. 
       Doa-lhe pensar que, h um ano atrs ele e Lupita estavam juntos e comemoravam o nascimento de Ceclia e agora estava sozinho, sua amada vivendo com outro 
homem. Como seria feliz se Lupita estivesse a seu lado naquele momento.
        Na hora das fotos, Luciano abraou Ceclia e sorriu, disfarando a dor que sentia. Tambm foi difcil o momento de cortar o bolo. Foi quase impossvel esconder 
sua tristeza, mas sabia que precisava faz-lo, afinal aquele era um dia de alegria.  
       Muito longe dali, Lupita no sara do quarto, nem mesmo para tomar gua. Ficara chorando o dia todo e lembrando-se do que acontecera h um ano atrs, quando, 
ao amanhecer, sentira fortes contraes, acordara Luciano e foram para o hospital. Rogrio fez seu parto, Lucimara fora a primeira a banhar Ceclia. Luciano permanecera 
ao seu lado o tempo todo e ela segurava a filha, radiante de felicidade.
       Agora, porm, estava em um pas distante, longe da filha e prisioneira de um homem cruel. 
       Pensava que todos deveriam estar comemorando o aniversrio de Ceclia. Como seria sua festa? Ser que Lucimara tomaria frente na organizao? Como a filha 
estaria vestida? O que teria ganho de presente? Qual seria o painel da festa? Ser que sua filhinha estaria nos braos do pai? Ou no colo de uma mulher, acreditando 
que era sua me? Como seria a aparncia de Ceclia? Ser que algum se lembrava dela com algum carinho e saudade? Isso achava muito difcil, pois a forma como fora 
arrancada da vida de seus familiares provavelmente deixara neles muita mgoa e rancor.
       Se Ceclia soubesse o quanto a amava, se ela pudesse se lembrar da grande dor que a me sentira quando fora raptada. Se a menininha inocente soubesse o quanto 
a me gostaria de estar junto dela...
        A pobre moa chorava desesperada de saudade da filha, sua vida no tinha mais sentido, ela queria morrer. Continuava tentando fugir, porm tudo que tentava 
era em vo. Depois do fracasso de seu plano de envenenar Marcos, este expulsara a antiga criada, culpando-a por no haver cuidado suficientemente de Lupita e lhe 
permitindo agir de forma como o fizera.
       Dias depois, Marcos contratara uma nova criada, desta vez uma mulher rude, parente afastada de um dos seguranas, que sabia de tudo o que ocorrera e vinha 
tambm com a misso de vigiar Lupita. 
       A criada, aparentemente, falava apenas a lngua rabe e Lupita, embora soubesse algumas palavras nesse idioma, ainda no tinha condio de conversar com a 
mulher, que se mostrava arredia e no lhe dava chance de nenhum tipo de aproximao.
       Marcos ordenara  cozinheira que no permitisse a entrada de Lupita na cozinha, e guardasse os objetos perigosos longe do alcance de sua esposa.
       Entretanto, o dio que sentia por Marcos aumentava cada vez mais. Uma idia no abandonava a mente de Lupita, haveria de mat-lo e depois cometeria suicdio. 
       J no era mais a jovem ingnua e pura que Marcos seqestrara, era a prisioneira de um homem cruel, uma mulher amargurada que no tinha motivos para viver 
e que no conhecia limites para seu dio.
       Marcos a transformara em outra pessoa, uma mulher que perdera a f e que no se sentia no direito de sonhar com a felicidade, somente lhe restando a morte 
como forma de libertao.
       Enquanto isso, Luciano procurava recompor sua vida, cuidando da filha, embora suas noites fossem terrveis. Na cama fria, a solido tomava conta dele. O sono 
demorava para chegar e, quando finalmente conseguia dormir, tinha horrveis pesadelos, nos quais via sua amada nos braos de Marcos. 
       No incio, persuadido por Rogrio e depois por vontade prpria, Luciano passou a freqentar bailes e festas, onde era muito assediado por vrias mulheres, 
principalmente por ris e Karen, mas apesar de tudo, no conseguia esquecer Lupita. 
       Um ms depois
        No fim da tarde de uma tera-feira do ms de junho, Rogrio e Lucimara descobriram que iam ter um filho. Muito felizes, foram  casa de Luciano e lhe deram 
a boa notcia. O rapaz os parabenizou animado, dizendo que uma esposa e filhos eram a maior riqueza de um homem, e tinha certeza que Lupita ficaria muito feliz com 
a notcia. A cunhada concordou, e os olhos dele encheram-se de lgrimas. 
       Quando Lucimara e Rogrio foram embora, ele comeou a corrigir os cadernos dos alunos, enquanto Ceclia brincava perto dele e, pouco depois, Karen chegou 
em sua casa. Os dois estavam conversando, quando ela viu o retrato de Lupita sobre a mesa de centro:
       - No sei como ela teve coragem de abandonar um homem to educado, atraente. Sabe, Luciano, eu estou apaixonada por voc. 
       O rapaz ficou muito surpreso. Jamais imaginara que Karen, uma moa to discreta, lhe dissesse aquilo e, quando encontrou as palavras, disse-lhe:
       - Karen, voc  bonita, simptica, mas o fim do meu casamento  muito recente e agora eu quero me dedicar apenas  minha filha.
       - Eu entendo, mas vou saber esperar, prometo que serei uma verdadeira me para a Ceclia. - disse acariciando os cabelos da menina, que brincava sentada no 
tapete.        
       Naquele momento, ris chegou  casa de Luciano e ficou furiosa ao ver Karen. Percebeu que ela estava de sada e ofereceu-se para lev-la embora.
       As duas entram no carro de ris: 
       - O que voc estava fazendo na casa do Luciano? - Pergunta ris, furiosa.
       - Eu estou apaixonada por ele. - diz Karen, pois j sabia quais eram as intenes da outra com relao ao rapaz.
       - Se afaste dele, ou voc vai se arrepender, eu juro que sou capaz... - e fez um silncio ameaador. 
       Karen assustou-se, no entanto disse que no desistiria dele. ris volta a amea-la, pra o carro na esquina, manda-a descer e volta para a casa de Luciano. 
       Agora ele estava sozinho, Ceclia assiste um desenho animado  na sala de televiso.
       - Voc est namorando a Karen? - pergunta ris, com a testa franzida.
       - No, desde que a Lupita me deixou, decidi viver s pela minha filha. - Ela o abraa, mas Luciano tem uma sbita viso de Lupita e pede a ris que se afaste.
        Quando ris vai embora, Luciano comea a chorar abraado com o retrato de Lupita. Pergunta a si mesmo por que ela o havia abandonado? Ser que no fora um 
bom marido? Ser que ris a jogara contra ele? Ser que ela procurava um tipo de amor que ele no lhe dera? Ser que Marcos a fazia mais feliz do que ele fizera?
       Ento lembrou-se do dia de seu casamento, quando Lupita lhe jurara fidelidade e amor eterno, dizendo-lhe que ele era sua eterna paixo, mas no cumprira seu 
juramento, o abandonara, e agora estava nos braos de outro. Furioso, deu um murro na mesa de centro, trincando o vidro.
       Em Marrakech, o sol de vero brilhava forte naquela bela manh de sbado. Lupita h muito no saa de casa e Marcos pensou que passear um pouco lhe faria 
bem. Por isso, convenceu-a a fazer um passeio com ele.
       Desde que chegara ao Marrocos, aquela era a primeira vez que ela saa de casa acompanhada por Marcos. As pessoas andavam alegremente pelas ruas, ora muito 
largas, ora muito estreitas, vestidas com trajes leves de algodo e com vus cobrindo seus rostos.
        A populao marroquina era alegre, suas msicas tinham um ritmo ao mesmo tempo lamentoso e encantador, convidando  dana sensual. Nas ruas de comrcio por 
onde passavam - as medinas - ouvia-se um burburinho que misturava sons musicais de ctaras, com preges de mercadorias e buzinas de carros que dividiam as ruas com 
cavalos rabes meio-sangue, com  charretes e pessoas pedalando suas bicicletas em vrias direes.
       Passando pelo museu de arte marroquina, Marcos insistiu com Lupita para que o visitassem. Ela concordou e se encantou com as belssimas peas que ali se encontravam, 
mas nada daquilo alegrava o corao da moa.
       Marcos disse que estava muito interessado em conhecer a cidade de Essaouira, que ficava a 180 quilmetros de Marrakech. Andara to ocupado que ainda no estivera 
no litoral e, como o dia estava muito ensolarado e quente, decidiu aproveitar para levar Lupita para tomar um pouco de sol.
       O trajeto at Essaouira foi feito com uma certa facilidade, uma vez que, em grande parte do percurso, no se vissem outros carros. Chegaram  cidade, considerada 
como patrimnio histrico mundial. Suas ruas eram angulosas e estreitas, abrigando pequenos edifcios de um branco sublime, pontuados pelo azul-marinho das janelas. 
Marcos e Lupita caminhavam pelas ruas, observando a simplicidade acolhedora da cidade e as pessoas que passavam por eles, sempre alegres. Uma jovem me vinha carregando 
um lindo beb, o que fez os olhos de Lupita encherem-se de lgrimas.
       A praia era belssima, tinha uma areia alva e fina, o mar era um tanto bravo, mas  excelente para surfar. Em torno da praia havia muitas rochas que a tornavam 
ainda mais bela. L havia muitas pessoas, uma mistura de diferentes povos, africanos, berberes, portugueses e franceses, que enriqueciam a cidade com suas culturas. 
No entanto, diferentemente das praias brasileiras, as pessoas no usavam roupas ousadas. As mulheres entravam no mar usando suas longas vestimentas, sem parecerem 
incomodadas. Demonstravam muita felicidade, sentindo o calor do sol que irradiava vida.
       No cais, vrios pescadores trabalhavam, descarregando os barcos que chegavam lotados de peixes. A paisagem era lindssima, contudo o corao de Lupita estava 
fechado, ela chorava pelo marido e pela filha. Como seria bom se os dois estivessem com ela passeando pela praia, estaria feliz, apreciaria a bela paisagem e tudo 
seria diferente. 
       Com o corao sangrando, aproveitou uma distrao de Marcos, saiu correndo e jogou-se no mar.
       As guas eram fortes e foram-na arrastando para o fundo. Ela estava convencida de que iria morrer. Entretanto, Marcos entra no mar, lutando muito contra as 
guas, agarra-a e a leva at a areia.
       - Voc poderia ter morrido, sua louca! - disse ele, cansado.
       - Era isso que eu queria, mas voc insiste em me manter nesse sofrimento. - diz a moa depois de desafogar-se, pois engolira muita gua. 
       Um amigo de Marcos aproximou-se com a esposa, ambos estavam muito assustados e convidaram-nos para ir a um restaurante, para que Lupita se secasse e se refizesse 
do susto.
       O restaurante era grande e confortvel, vrias pessoas comiam sopa de melo e coquetel de camaro, pratos muito apreciados. Marcos e o amigo conversavam, 
o outro contava-lhe animado sobre uma viagem que fizera a Rabat, capital do Marrocos, e Marcos tentava esconder o nervosismo, pois dissera ao amigo que Lupita se 
afogara por acidente. 
       As duas mulheres estavam caladas, a esposa do amigo de Marcos ainda assustada, e Lupita lamentando profundamente o fato de estar viva, mas sem poder contar 
 outra a verdade sobre seus sentimentos.
       De volta a Marrakech, ao chegar na casa que era sua priso, Lupita teve uma crise nervosa e comeou a atirar o que encontrava  sua frente contra Marcos, 
gritando feito louca. Finalmente, ele consegue cont-la, leva-a para o quarto, fecha a porta e diz: 
       - Eu j estou perdendo a pacincia! - grita, furioso, dando um bofeto no rosto da moa. Obriga Lupita a tomar um calmante e, aps ela adormecer, sai trancando 
a porta.
       O tempo vai passando e o sofrimento de Lupita parece no ter fim. 
       Aps o incidente na praia, Marcos passou a ter ainda mais cuidado para evitar que ela acabasse por dar cabo da prpria vida. Agora, quando saam, ele a trazia 
pela mo. A moa tentava ser forte e no se deixar abater pela depresso profunda que a dominava. Procurava exercer algum domnio sobre Marcos, no entanto, isto 
era impossvel.
       No Brasil, o ms de setembro chegou enfeitado pelas lindas flores da primavera, trazendo paz e alegria aos coraes. Os dias eram muito ensolarados, e as 
noites perfeitas para longos passeios. Luciano j estava cansado de tanto sofrer, precisava de algo interessante para se distrair, no queria mais ser alvo da pena 
alheia e por amor a Ceclia, decidiu resgatar um antigo desejo, pois no queria que sua filha crescesse ao lado de um pai amargurado. 
       Sempre desejara cursar a Faculdade de Histria, que muito o atraa, e incentivado por Rogrio, prestara vestibular e iniciara o curso realizado a distncia, 
a fim de no se ausentar por muito tempo da vida de Ceclia. Isso lhe dera nimo e foras para sair de vez da depresso, embora ainda continuasse sofrendo muito 
com a ausncia de Lupita.
       Certa tarde, Luciano estava saindo da escola, quando Karen aproximou-se dele e pediu para conversar em um lugar mais reservado.
       - Luciano, eu j no consigo suportar o seu desprezo, estou cada vez mais apaixonada por voc.
       - Eu sei que voc realmente me ama, e  por isso que no me envolvo com voc. No me sinto preparado para um novo relacionamento e no tenho o direito de 
faz-la sofrer.
        Karen se afastou, infeliz, mas Luciano a deteve e sem pensar, beijou-a vorazmente. No momento que seus lbios tocaram os dela, a lembrana de Lupita invadiu 
sua mente, e no era Karen que ele beijava, mas Lupita, que imaginava estar no lugar dela. A moa percebeu e disse:
       -  muito difcil lutar com a lembrana dela, mas eu no vou desistir de voc. - e se afastou cabisbaixa. Luciano sentia-se um homem fraco, dominado pela 
lembrana da amada. Por mais que tentasse, no conseguia esquec-la, chorava de saudade todos os dias, no se conformava em ter perdido Lupita, sua eterna paixo.
       O tempo passara muito depressa, e j estavam em meados de janeiro. O calor do vero era quase insuportvel e Luciano, Rogrio e Lucimara decidiram ir passear 
na praia, num balnerio de Santa Catarina. 
       Estavam todos muito entusiasmados, especialmente pela oportunidade de apresentar o mar em sua imensido e beleza a Ceclia, porm Luciano sabia que aquele 
lugar lhe traria muitas recordaes de Lupita, pois fora ali que passaram sua lua-de-mel.
       No dia seguinte, levantaram-se cedo e foram  praia. 
       O sol forte brilhava, mas a brisa martima aliviava um pouco o calor do vero. Era uma tera-feira, todavia, como era tempo de frias, a praia estava cheia 
de gente. Ceclia, fascinada pelo mar, dava gritinhos de alegria puxando o pai pela mo e enfrentando As pequenas ondas que molhava seus pezinhos inquietos.
       Luciano sentou-se com ela na areia e comearam a brincar. A menina fazia muita festa e os dois se divertiam a valer, fazendo com que Rogrio e Lucimara, que 
permaneciam sob o guarda-sol, uma vez que Lucimara se encontrava em adiantado estado de gravidez, os contemplasse com enlevo. 
       Embora Luciano risse para alegrar a filha querida, seu corao chorava. 
       H mais ou menos dois anos atrs, ele e Lupita estavam naquele mesmo lugar. Lembrava-se de quando os homens ficavam olhando para ela, e ele enciumado, abraava 
a esposa. Lembrava-se da vergonha que ela sentia por estar apenas de mai, e ele gabava-se, pois a mulher mais bonita de toda a praia era sua.
       De repente, sentiu que Rogrio o sacudiu:
       - O que foi? - perguntou, sobressaltando-se.
       - Faz dez minutos que estou perguntando se voc quer sorvete. -disse Rogrio estranhando a atitude de Luciano.
       - Ah! Desculpe. No, obrigado. .- Ento olhou para o lado e percebeu que Ceclia no estava.
       - Cad a Ceclia? - Perguntou, apavorado.
       - Foi comprar picol com a Lucimara, que  que voc estava fazendo que no percebeu?
       - Estava pensando na Lupita, ns passamos nossa lua-de-mel aqui.
       -Voc precisa esquec-la, meu amigo. - diz Rogrio e, apontando para uma bela mulher de biquni, que no tirava os olhos de Luciano.
        - Olha que linda aquela moa! E est dando mole para voc.
       Luciano olha para amoa, que era realmente bonita, mas nem chegava aos ps de Lupita. 
       Pouco depois, Lucimara e Ceclia voltam. Luciano estava sem vontade de tomar sorvete, mas a filha trouxera um especialmente para ele, e tomou para agrad-la. 
Como seria bom se Lupita estivesse l, estariam juntos tomando picol e brincando na areia, ele seria o homem mais feliz do mundo. 
               s onze horas, como o sol estava muito forte, os quatro foram para casa e aps se arrumarem, foram almoar em um restaurante que servia frutos do 
mar.
       Ceclia estava sonolenta e ento voltaram para casa e todos foram descansar.
       L pelas quatro horas, o sol diminuiu e eles voltaram  praia. 
       Ceclia estava morrendo de vontade de brincar no mar e o pai segurava-a bem na orla, deixando que ela se divertisse com as marolas.
        Ele se lembrava de quando entrava no mar com Lupita, os dois pulavam ondas, divertiam-se muito e ele se sentia o homem mais feliz do mundo. Agora estava 
sem ela, perdera sua amada, ela estava nos braos de outro, agora era ele que ganhava seus carinhos, ela o abandonara, no fora homem para ela, no lhe dera todo 
o amor que precisava. 
       Algumas lgrimas comearam a escorrer por seu rosto, mas ele as enxugou depressa, pois no queria que a filha o visse chorando. 
       Alguns dias depois, Luciano passeava pela praia com Ceclia no colo.A menina tomava um picol e o pai cuidava para que no o derrubasse.
        Pouco depois, uma linda moa aproximou-se dos dois:
       - Que linda menina,  sua sobrinha? - perguntou ela, puxando conversa.
       - minha filha. - respondeu ele
       - A me dela  ciumenta? - Luciano ficou constrangido, e com o corao partido pela tristeza e saudade de Lupita, contou que havia se separado da mulher. 
A moa deu um sorrisinho e comeou a dar em cima dele abertamente.
       Vrios dias se passaram. Era uma noite tranqila e quente, iluminada pela luz da lua crescente. Muitas pessoas passeavam pelas ruas. Uma leve brisa entrava 
pelas varandas das casas, onde outras tantas pessoas conversavam, aproveitando o calor do vero. Lucimara queria ir a um shopping center para fazer compras para 
ela e para o beb, pois no dia seguinte voltariam para casa. 
       Enquanto a esperavam, Luciano, Rogrio e Ceclia foram a um barzinho. Pediram cervejas e um refrigerante para a menina, que estava no colo do tio. Aquele 
lugar trazia muitas recordaes para Luciano, ele e Lupita iam sempre ali, era como se houvesse um vazio em seu corao, que s a presena dela podia preencher. 
Quando a dona do barzinho veio trazer as bebidas ficou olhando atentamente para Luciano e perguntou se era ele que viera em seu bar acompanhado por uma moa muito 
bonita, morena de olhos verdes. O rapaz confirmou e a mulher animada perguntou por sua esposa. Luciano ficou constrangido e com lgrimas nos olhos, disse que haviam 
se separado. A dona do bar, encabulada, pediu desculpas eo rapaz, a fim dequebrar o incmodo silncio lhe apresentou a filhinha. Depois de elogiar a menina, ela 
pediu licena e se afastou. 
       - Eu nunca vi um homem amar uma mulher desse jeito, precisa esquecer a Lupita e continuar sua vida com outra pessoa. - diz Rogrio, baixando um pouco o tom 
da voz, para que ningum mais o ouvisse.
       - Nem eu sei por que a amo tanto, no consigo esquec-la, ela  minha eterna paixo. - diz Luciano secando uma lgrima que escorria pelo rosto. 
       As frias terminaram e Luciano mergulhou no trabalho, no estudo e nos cuidados com a filha, procurando manter-se totalmente ocupado para no lembrar de seu 
amor perdido.
       Em Marrakech, o tempo passava lento, arrastando-se e trazendo com ele cada vez mais infelicidade para Lupita. As noites frias do outono e um longo perodo 
de chuva contribuam para tornar mais lgubre o cenrio de dor e desamparo. 
       H dias Lupita vinha se sentindo mal, sonolenta, com enjos. Mal podia acreditar nos sinais que seu corpo lhe dava. Desesperava-se com as evidncias, aquilo 
no podia ser verdade, no podia estar grvida.
       Lupita e Marcos estavam na sala, quando ela sentiu uma vertigem e ele precisou ampar-la, para que no casse no cho. 
       - O que foi? -Perguntou, preocupado.
       - Nada, s uma tontura. - respondeu a moa com desprezo. Marcos ficou desconfiado tambm e disse-lhe que, provavelmente, ela havia engravidado. 
       A moa desesperou-se. Aquilo no podia ter acontecido, ela no podia estar grvida, no queria um filho do homem que arruinara sua vida. 
       Marcos mandou-a se deitar e chamou um mdico, que confirmou as suspeitas. A moa teve uma terrvel crise nervosa, levantou-se e comeou a jogar no cho tudo 
que encontrava, e gritava que aquilo no podia ser verdade, e que no queria aquele beb. Marcos a conteve e disse que, ela querendo ou no, teriam aquela criana.
       Muito feliz, o rapaz beijou Lupita, mas ela mordeu sua boca e recomeou a gritar que no queria aquele beb, pois ele era fruto de abuso sexual, de tortura.
       Os dias iam passando e Lupita no se conformava com a gravidez, sentia que enlouqueceria. A falta de Ceclia a machucava, e agora esperava um beb do homem 
que a separara da filha e que arruinara sua vida. Aquele beb era fruto do dio e ela o repudiava.
       Porm, no fundo de seu ser a educao crist que recebera dos pais a impedia de pensar em abortar a criana. Afinal, a inocente no tinha culpa da indignidade 
de seu genitor.
       Marcos, ao contrrio, estava cada dia mais feliz e quando Lupita tinha crises lhe dava um calmante, mas no usava de fora fsica para cont-la.
       S no quarto ms a moa conseguiu ver o beb com outros olhos, no o amava, mas quando nascesse ela fugiria com ele. No poderia permitir que aquele inocente 
fosse criado por um homem sem escrpulos. Prometeu ao filho que faria dele um homem de bem, como o pai da irmzinha. Era uma vida que crescia dentro dela, e alm 
disso, a pobre criana no tinha culpa de ser filha de Marcos.
                O inverno passara, j estavam novamente na primavera e agora as saudades aumentavam ainda mais. Aquele era o ms do segundo aniversrio de Ceclia 
e o maior desejo de Lupita era estar ao lado da filha e do marido. Tudo seria to diferente se aquele beb fosse dele, a alegria tomaria conta de seus coraes, 
mas infelizmente a realidade era outra. 
       Lupita estava em seu quinto ms de gestao e Marcos passou a lhe dar um calmante mais forte para mant-la calma e no prejudicar a gravidez. Entretanto, 
depois de alguns dias, a moa comeou a passar mal, sentiu uma dor terrvel no ventre e percebeu que estava tendo hemorragia. 
       Desesperada, contou a Marcos e ele apavorado chamou o mdico. Infelizmente no houve nada que pudesse ser feito, o beb, que poucas semanas antes descobriram 
ser um menino, havia morrido. Marcos ficou transtornado e pela primeira vez comeou a chorar descontrolado diante de Lupita. Nunca sentira tanta tristeza em sua 
vida, era como se acabassem de lhe arrancar metade do corao, como se a vida fosse se esvaindo dele. E o pior de tudo,  que era o culpado pela morte da criana, 
o filho homem que ele sempre desejara, e comeou a implorar que Lupita o perdoasse por causar a morte dobeb. A moa tambm sofria e chorava muito, no sentia a 
dor de ter perdido um filho seu, mas sofria por aquela vida inocente que havia sido levada sem sequer nascer, e porque tambm se sentia culpada pela morte da criana. 
Afinal, nunca aceitara verdadeiramente sua existncia. 
       Uma noite, ela teve um sonho com a Virgem de Guadalupe, que tinha nos braos um beb, mas no era o Menino Jesus, era o seu filho. 
       "Filha, mesmo que voc no acredite mais, eu e meu Divino Filho estamos com voc. Sei que tens sofrido muito, mas um dia todo esse martrio ter fim, eu tambm 
sofro contigo. Mas creia, tudo isso vai acabar. Quanto ao seu filho, no se culpe pela morte dele, qualquer mulher na sua situao se sentiria como voc se sente. 
Ele no veio por acaso, veio para fazer Marcos sofrer, para que ele sinta a terrvel dor de perder um filho, e o que  pior, reconhecer-se culpado pela morte do 
beb. Voc no sabe, mas ele sofre e chora muito pelo menino. Agora ele tambm vai saber o quanto di a ausncia de um filho. Eu lhe darei foras, confie em mim 
e em Deus, minha filha.". O menino no colo da Virgem sorria, e disse a Lupita. "Mame, no deixa o papai te mal-tratar, luta contra ele, no perca as foras, eu 
estou pedindo  Virgenzinha que voc possa ver a minha irmzinha e o papai dela de novo.". Lupita acordou assustada, e pela primeira vez disse a si mesma que amava 
o filho. 
       De fato, Marcos sofria muito com a perda domenino, sempre chorava por ele, sentindo-se esmagado pela culpa de ter provocado sua morte. No conseguia dormir 
direito, e nos primeiros dias foi dominado pelo desnimo, no tinha vontade de fazer nada e jamais conseguiria se perdoar, pois involuntariamente, matara o prprio 
filho. 
       De personalidade dbia, Marcos no era homem de se abater. Para combater a dor que o consumia, apesar de ter uma vida conjugal com Lupita, envolvia-se com 
vrias mulheres, divertindo-se em noitadas regadas a muita bebida.
       Muito longe dali, a filhinha de Rogrio e Lucimara, Isabella, completava trs meses de vida. Era uma menininha linda e muito parecida com a me. Os pais estavam 
radiantes de alegria, pois seu mais lindo sonho se realizara.
       E assim se passaram dois anos.
       Numa fria e chuvosa madrugada de inverno, em que o vento balanava o vidro das janelas, Ceclia acordou sentindo-se mal e foi at o quarto do pai. Luciano 
colocou a mo na testa da filha e percebeu que ela estava ardendo em febre. Deu-lhe um remdio, e lhe disse para dormir com ele naquela noite.
       Ceclia ficou toda contente, pois adorava dormir com o pai, porm de repente um triste pensamento a invadiu:
       - Papai, por que a mame no mora com a gente?- Luciano viu o sofrimento da criana e abraou-a com carinho.
       -  por que ela se apaixonou por outro homem e foi morar com ele. -disse o pai tristemente. A menina baixou a cabea e disse chorando:
       - Eu queria muito que ela morasse com a gente. 
       - Eu tambm, princesinha. - Luciano pegou-a no colo e beijou seu rostinho.
       - Eu te amo muito, meu anjo.
       - Eu tambm, papai. -disse a menina ainda chorando.
       Na manh seguinte, a forte chuva continuava a cair e o frio impiedoso desencorajava as pessoas a sarem de casa. Como a febre de Ceclia no havia passado, 
Luciano ficou preocupado e a levou at o consultrio de Rogrio.
       O mdico a examinou com muito carinho, e constatou que ela estava com infeco de ouvido e de garganta. Receitou-lhe antibiticos e disse a Luciano que se 
a febre continuasse era para avis-lo que ele iria ver Ceclia em sua casa. 
       Ao meio-dia, quando Luciano chegou em casa, encontrou a filha no colo da empregada. Esta ficou aliviada quando o viu, contou que Ceclia estava com febre 
muito alta, chorava de dor e no parava de chamar por ele e pela me.
       Luciano pegou-a no colo, Ceclia estava muito quente e dizia chorando e com a voz fraca: 
       - Papai, eu quero a mame. - Luciano lhe deu mais uma dose do remdio e ficou o tempo todo com ela no colo. Ligou para o diretor da escola e disse que no 
poderia trabalhar naquela tarde, pois a filha se recusava a sair de perto dele.
       - Eu quero a mame! A menina pegou o retrato da me que estava sobre o criado-mudo e o beijou. 
       - Ela  to linda, eu queria que ela morasse com a gente - disse Ceclia. 
       Os olhos de Luciano se encheram de lgrimas. Como seria se Lupita estivesse com eles? Ceclia provavelmente estaria em seus braos e a me saberia como faz-la 
sentir-se melhor. A esposa estaria ao seu lado e ele a faria a mulher mais feliz do mundo. E como ela estaria agora? Ser que estava bem? Ser que Marcos a fazia 
feliz? Ser que tinham outros filhos? Em meio a estes pensamentos, Luciano comeou a chorar e Ceclia chorava em seu colo chamando: 
       - Mame, mame!
        Eram dez horas de uma fria noite de inverno e Lupita chorava sentada na cama, segurando o retrato de Luciano. Pouco depois, Marcos entrou no quarto:
               - Saia daqui! - disse a moa assustada, pondo-se de p.
               - Voc deve estar muito carente. -zombouolhando maldosamente para o retrato de Luciano - Mas eu estou aqui, querida - disse Marcos agarrando-a. Sendo 
o retrato sua nica defesa, Lupita bateu fortemente com ele no rosto de Marcos, que em contato com o vidro quebrado, se cortou.
       Furioso e sangrando muito, ele foi obrigado a sair do quarto para cuidar do corte. A moa apanhou a foto e beijou os lbios de Luciano. 
       Daquela vez escapara da violncia de Marcos e mal sabia descrever a sensao de alvio que sentia. Continuava tentando fugir, embora nenhuma de suas tentativas 
fosse bem sucedida.
            
           
Captulo 6
           
           O Reencontro
            
       Dois anos depois
       Ceclia estava com cinco anos e sentia muito a falta da me. Em uma festinha de dia das mes que houve na escola, vrias meninas perguntaram por que sua me 
no estava com ela. Quase chorando, ela contara que a me havia ido embora e as meninas comearam a rir dela, cantando: "A Ceclia no tem me, A Ceclia no tem 
me, a me da Ceclia no gosta dela." Ceclia comeou a chorar, foi para junto do pai e contou o que havia acontecido. Ele a pegou no colo e tentou acalm-la, mas 
a pobre inocente pensava: "Todas as minhas amiguinhas tm me, s eu no tenho. Por que a mame foi embora, ser que ela no gostava de mim? Seria to bom se a mame 
morasse comigo e com o papai." Ceclia chorava muito, e Luciano sofria ao ver o sofrimento da filha. 
             Tentava fazer com que ela compreendesse que o fato da me no estar mais ao lado dela, no significava que no a amava, mas que decidira dar um outro 
rumo  sua vida e que a menina no tinha nenhuma culpa por essa deciso. 
              Embora lhe doesse muito, buscando foras no fundo de seu corao, Luciano tentava preservar a imagem de me amorosa de Lupita, dizendo que um dia, 
quando pudesse, amoa viria visit-la.
       Por mais que o sofrimento agisse no sentido de impedir que Luciano percebesse as coisas boas e interessantes que aconteciam ao seu redor, o tempo ia aplacando 
as mgoas de seu corao.
       Numa linda noite, em que a lua e as estrelas brilhavam no cu e as flores perfumavam o jardim, Luciano estava com a filha no quarto dela lendo historinhas 
e cantando msicas infantis. Aos poucos, o sono foi chegando e a menina beijou o pai, desejando-lhe uma boa noite. Como sempre fazia, Ceclia beijou tambm o retrato 
da me. Luciano saiu do quarto da filha levando o retrato, quando ouviu algum bater na porta. 
       ris entra, trazendo consigo seu perfume inconfundvel e sensual.
       - Boa noite, Luciano. Achei que voc gostaria de ter algum com quem conversar e resolvi dar uma passadinha, incomodo?
       O rapaz, muito educado, agradeceupela amizade, convidou-a a entrar e sentaram-se na sala.
       Luciano ofereceu-lhe um refrigerante e comearam a conversar sobre seus amigos, a escola e o rapaz lhe contou que havia se candidatado a participar de um 
concurso de monografia de sua Universidade, sobre a Histria do Oriente, cujo patrocnio era de uma indstria brasileira de minrios que tinha negcios no Marrocos.
       Por um instante, passou pela mente de ris a incrvel coincidncia que o destino preparava para as pessoas. No entanto, isso no a preocupou, pois embora 
soubesse da competncia de Luciano, sabia o quanto esses concursos eram concorridos e julgava que seria quase impossvel que o rapaz fosse contemplado com o prmio 
- uma viagem de dez dias ao Marrocos, com direito a acompanhante, para visita  indstria exportadora marroquina e s principais cidades daquele pas.  
       O rapaz estava entusiasmado, dizendo que pesquisara muito e ficara encantado com a cultura do Marrocos, assunto pelo qual nunca se interessara e que antes 
lhe parecia to distante de sua realidade.
       A conversa rolava e, aos poucos, o assunto foi ficando mais ntimo, at que ris, muito insinuante, aproximou-se de Luciano e, tentando beij-lo, disse:
       - Voc sabe que eu o amo, no , Luciano, e tudo o que eu possa fazer para que voc esquea a mulher que lhe causou tanto sofrimento, farei com todo meu corao. 
Somente assim voc perceber que ao seu lado h pessoas que o amam e que s querem o seu bem.
       A moa, cada vez mais envolvida, acaricia Luciano e, sedutoramente, lhe sussurra: 
       - Meu amor, voc sente falta de uma mulher, no sente? 
       Desculpando-se, Luciano a afasta gentilmente. Olhando-a nos olhos, o rapaz lhe diz:
       - ris, no quero que voc entenda esse meu gesto como desprezo, afinal voc  uma jovem atraente, que encantaria qualquer homem que estivesse com o corao 
disponvel, o que no  o meu caso e eu no quero engan-la. Como voc sabe, apesar de tudo e de minha contnua luta para esquecer de Lupita, inexplicavelmente, 
eu ainda a amo.
       - Mas ela abandonou voc e a Ceclia para fugir com o Marcos. Voc precisa reagir, ter amor prprio e entender que Lupita no  a nica mulher no mundo.
       Dizendo isso, ris beija apaixonadamente Luciano e o envolve num abrao sedutor. O rapaz sente-se sexualmente atrado por essa linda mulher, mas a afasta 
mais uma vez.
       ris no se conforma e implora pelo amor do rapaz, confessando sua paixo:
        - Eu sou louca por voc, Luciano. Vamos, meu amor, eu sei que voc no resiste aos meus encantos. 
       Contudo, Luciano levanta-se e, delicadamente diz a ris que j  tarde e que no dia seguinte ambos teriam que estar muito cedo na escola.
       ris procura esconder mais essa decepo, enxuga uma lgrima que teima em surgir em seus olhos, beija-o no rosto e se afasta dizendo:
               - Um dia voc ainda vai implorar pelo meu amor.
       No ntimo, a decepo e o amor prprio ferido fazem com que odeie cada vez mais a mulher cuja lembrana impede que Luciano seja seu.  
       
       
       Enquanto isso, no Oriente, amanhecia mais um dia e Lupita, por mais que tentasse ser forte, perdera completamente a esperana de se libertar. Sem f, sem 
ter em que se apegar, a moa se abandonara  prpria sorte. J no tentava fugir de Marcos, pois suas foras haviam se esgotado totalmente. S o que lhe restava, 
era o desejo infindvel de rever a filha, e era isso que a mantinha viva.
       
       Passaram-se alguns meses, e nesse nterim, Luciano recebera a notcia de que sua monografia fora classificada para a etapa final do concurso e que agora dependia 
de uma entrevista sua com os organizadores, para a definio do ganhador do prmio.
       No dia marcado, Luciano viajou para So Paulo, a fim de ser entrevistado pelos responsveis pelo concurso e ficou surpreso com a grandiosidade e luxo do prdio 
onde se encontrava instalada a empresa brasileira que mantinha negcios com o Marrocos.
       Como havia se aprofundado no estudo do francs e do ingls, lnguas exigidas dos candidatos ao prmio, no teve dificuldade em se comunicar com seus entrevistadores.
       Retornou para sua cidade, confiante que deixara uma impresso positiva nos representantes brasileiros e marroquinos que o entrevistaram.
       Passados alguns dias, atendendo ao chamado da diretora da escola, Luciano para l se dirigiu e encontrou sua chefe com um enorme sorriso no rosto.
       Abraando-o fraternalmente, a diretora lhe deu a notcia de que ele fora o primeiro colocado, com louvor, e que agora ele deveria fazer os preparativos para 
a viagem ao Marrocos.
       Como a inscrio de Luciano no concurso fora feita atravs da escola, cabia  diretora indicar quem seria seu acompanhante nessa viagem e o rapaz sabia que 
a escolha recairia sobre um de seus colegas.
       Ficou surpreso quando a diretora lhe disse que havia escolhido, para compartilhar do prmio, uma professora de Geografia - ris, cujos conhecimentos nessa 
rea poderiam contribuir para o melhor aproveitamento da viagem, trazendo para a escola um relato mais completo de tudo o que pudessem conhecer durante a estadia 
no Marrocos. 
               A diretora pede, pelo interfone, que sua secretria chame a professora para que possa lhe dar a notcia. Pouco depois, ris entra na sala, parecendo 
surpresa e muito feliz ao mesmo tempo.
             Apesar da insistncia de Lucimara e Rogrio para que Luciano deixasse Ceclia aos seus cuidados, o rapaz no abre mo da companhia da filha, mesmo que 
isso significasse que as despesas da pequena correriam por sua conta. Seria maravilhoso apresentar um novo mundo para a filha que tanto amava.
       Os dias que seguiram foram poucos para tantos preparativos: fotografias, passaportes, arrumao das malas, etc.
       Uma semana depois, ris, Luciano e Ceclia foram para o aeroporto. ris disse que assim, juntos, eles pareciam uma famlia. Ceclia zangou-se e mostrou a 
fotografia da me, pois tinha muito cime do pai, e com a sinceridade natural das crianas, disse-lhe que ela jamais seria sua madrasta. A moa ficou furiosa, mas 
teve o cuidado de no demonstrar.
       Ceclia passou quase a noite toda acordada, pois nunca viajara de avio e sentiu muito medo. Entretanto, querendo parecer corajosa, agarrou com fora a mo 
do pai e fez sua orao ao Anjo da Guarda e  Virgenzinha de Guadalupe, at que se rendeu ao sono. 
       No dia seguinte, chegaram  cidade de Marrakech. O calor estava insuportvel e o aeroporto cheio de turistas. Tomaram um txi para ir ao hotel que lhes havia 
sido reservado. Ao passar pelas ruas, cuja intensa movimentao de pessoas, veculos e animais os deixou fascinados, principalmente a Ceclia, que olhava para tudo 
curiosa e enchia o pai de perguntas, sentiam um misto de curiosidade e expectativa.
       O hotel, no alto de uma colina, era muito extico e confortvel, com suas palmeiras e fontes de gua cristalina. Os visitantes estavam impressionados com 
tanta beleza, fazendo com que se sentissem como personagens de um filme. A proprietria doestabelecimento, Madame Margheritte, era uma simptica senhora de origem 
francesa, que encantando-se com a graa e a vivacidade de Ceclia, os recebeu carinhosamente, deixando-os  vontade e lembrando-os que o jantar seria servido no 
restaurante do hotel, a partir das 21 horas.
       Ao subir aos seus quartos, passaram por uma escadaria centenria, em madeira escura, por corredores cobertos por tapetes persas e paredes decoradas com quadros 
com paisagens marroquinas.
       Da janela em arco, Luciano e Ceclia olhavam encantados o pr do sol, alcanando com a vista o horizonte que se perdia no deserto, j nos arredores da cidade. 
       As ruas que cercavam o quarteiro onde se situava o hotel eram bastante movimentadas, uma vez que se encontravam dentro da medina, uma espcie de fortaleza 
que cercava a cidade antiga.
       Dali podiam vislumbrar a Riad zitoune le Kdim, rua que desembocava na Praa Jemaa el Fna e a Avenue du Prince, um trajeto para pedestres, ladeado de casas 
comerciais e tendas diversas.
       A contragosto, Ceclia foi para o banho, pois sua vontade era descer e caminhar por aquelas ruas to diferentes. J arrumados, Luciano e a filha se encontraram 
no mezanino com ris e juntos foram para o restaurante.
       A decorao berbere os encantava e a iluminao com grandes candelabros lhes dava a impresso de estarem vivendo um sonho.
       Aps o jantar, composto por pratos tpicos marroquinos e tendo como sobremesa as frutas da poca, alm de tmaras e damascos secos, acompanhados de um delicioso 
vinho, para os adultos e suco de frutas para Ceclia, os trs saram para a rua, dispostos a caminhar pelos arredores.
       Apesar do entusiasmo inicial, logo o cansao venceu a menina e, sonolenta, ela pediu para voltar para o hotel. 
       ris tentou convencer Luciano a deixarem Ceclia dormindo e a fazerem um passeio mais prolongado, mas este no aceitou o convite e subiu para seus aposentos, 
desejando-lhe uma noite repousante, pois no dia seguinte iniciariam o passeio turstico prometido pela mineradora que lhes concedera o prmio. 
       Irritada, ris foi para seu quarto e de l telefonou para Marcos, contando-lhe todos os acontecimentos que culminaram com a estada dela e de Luciano na cidade.
        Marcos ficou espantado e gritou:
       - O Luciano est aqui? Isso  impossvel!
       Lupita, que passava perto do escritrio, ao ouvir o nome de Luciano aproximou-se da porta fechada para saber do que se tratava. Quando se refez da vertigem 
que a acometera ao escutar o nome do amado, com o corao aos pulos, pensou que suas oraes haviam sido ouvidas, que o marido descobrira seu paradeiro e viera resgat-la 
da priso em que se encontrava.
       Tentou escutar o que Marcos dizia, na expectativa de saber onde Luciano se encontrava, mas seu algoz bateu o telefone, dizendo palavres.
       Voltou silenciosamente para seu quarto, com as esperanas  renovadas e com um mpeto de felicidade que no conseguia controlar. Esta era a chance de reencontrar 
o marido e contar-lhe toda a verdade, abra-lo e matar a saudade que lhe oprimia o peito.
       S de imaginar que teria notcias da filha, seu corao explodia de felicidade.
       Marcos estava possesso, sem entender como o destino tecia suas teias, fazendo com que ele nunca conseguisse atingir seus bestiais objetivos.
       Ele sabia que a empresa marroquina em que trabalhava, com a finalidade de estreitar seu relacionamento comercial com a importadora brasileira, sua melhor 
cliente, havia lanado o tal concurso de monografia, mas jamais esperara que justamente seu maior rival ganhasse o prmio. Sentia-se trado pela sorte.
       Precisava agir com rapidez e bom senso, a fim de evitar qualquer aproximao de Luciano com ele prprio ou com seus colegas de trabalho, pois estes podiam 
deixar escapar informaes sobre a "esposa" do amigo e despertar suspeitas em Luciano.
       Telefonou para o hotel e pediu que ris informasse qual era a agenda de Luciano para aquela semana. A moa lhe disse que, na manh seguinte, uma representante 
da mineradora iria apanh-los para um tour pela cidade e para lhes passar a programao das atividades a serem desenvolvidas nos prximos dias.
       Marcos espumava de raiva. Dando um murro na mesa, saiu de carro, fritando os pneus. Resolvera ir at o hotel onde, sem que Luciano percebesse, falaria com 
ris e com ela planejaria algum meio de afastar Luciano de Marrakech, mas nomeio do caminho, o receio de no conter sua fria e colocar tudo a perder, fez com que 
mudasse de idia. Resolveu ento que, logo pela manh, iria ao escritrio, a fim de saber, com o pessoal do setor de relaes pblicas, quais eram os passeios programados 
para os brasileiros e, enquanto isso, traaria um plano para impedir que Luciano o encontrasse e o impedisse de dar seqncia ao seu projeto de vida com Lupita.
            Enquanto isso, Luciano, ris e Ceclia se maravilhavam com a beleza dos bosques naturais, com imensas palmeiras, das fontes de gua, presentes em todos 
os jardins. A moa que lhes apresentava os encantos do Oriente era de origem francesa, mas falava fluentemente a lngua espanhola, o que facilitou a comunicao 
com os visitantes brasileiros, uma vez que ris no dominava a lngua materna de Ettienne, uma jovem muito simptica e de uma beleza singela, que no se cansava 
de responder s tantas perguntas de Ceclia. A menina estava eufrica com tanta novidade, tinha vontade de correr, cantar, gritar de alegria.
                No carro luxuoso e confortvel, com a logomarca da mineradora que patrocinava a visita dos brasileiros, passearam por ruelas de surpreendente beleza, 
enfeitiados pela arquitetura extica, pelos perfumes inebriantes, pelos jardins de surpreendente frescor, umedecidos por chafarizes e crregos artificiais. 
                O marroquino era um povo fascinante, cujas vestimentas, turbantes e adereos atiavam a imaginao dos estrangeiros. A msica, ora feita de lamentos, 
ora alegre e esfuziante, os encantadores de serpentes e o misticismo que pairava no ar transportavam -nos para um mundo irreal.
          Passearam pela  Avenue du Prince, seguindo at o Palcio da Bahia e de l, at a Koutubia, admirando-se com os imensos restaurantes, alguns hotis e lojas, 
tanto de roupas, calados e adereos europeus, como marroquinos.
             As lojas de perfume exalavam inebriantes odores, o comrcio de jias em ouro os deslumbrava, especialmente a ris que no resistiu e comprou um rico 
colar. Mais adiante, encontraram uma tenda onde se vendiam sucos naturais extrados das mais diferentes frutas e aproveitaram para matar a sede que os consumia.
               No restaurante Berbere, tpico do Marrocos, fizeram uma rpida refeio e, aps, afastando-se da medina, deixaram o centro da cidade e, ao    faz-lo, 
avistaram o incio do deserto, com todo seu esplendor e mistrio.
           Ceclia quis caminhar pelas dunas, afundando os pezinhos na areia fofa e escaldante, inebriada com a brincadeira. Andar num camelo foi para ela uma alegria 
imensa. Sua risada cristalina ecoava pela imensido, caoando do desajeitamento do pai que fingia estar quase caindo do animal. 
            Ettienne deixara-os no hotel, prometendo que os apanharia na manh seguinte para visitarem locais tpicos, onde conheceriam a verdadeira cultura marroquina, 
seus museus, suas feiras de artesanato, suas danas tpicas, suas oficinas de tecelagem, onde eram manualmente produzidas a rica tapearia to cobiada pela cultura 
ocidental. 
          Mais tarde, depois de um breve descanso, os trs saem para jantar em um restaurante prximo,onde se serviram com manjares marroquinos exticos.
           A noite cai, trazendo com ela o frio tpico do deserto e, cansados, os visitantes desejaram retornar ao hotel. Ento, exaustos, pai e filha subiram para 
seus aposentos.
           Embora extremamente cansada pelo passeio e pelas tantas surpresas, Ceclia no parava de tagarelar sobre o dia maravilhoso que haviam desfrutado, at 
que o cansao a venceu e dormiu abraada ao pai, que a olhava cheio de amor e orgulho pela sua inteligncia e vivacidade. 
              ris, a contragosto, despediu-se de Luciano, aps insinuar que gostaria de passar a noite com ele e ter como resposta a expresso desinteressada do 
rapaz.
              Chateada, foi para o apartamento, tomou um demorado banho, vestiu-se com capricho e foi se encontrar com Marcos, conforme haviam combinado por telefone.
              O rapaz a esperava num barzinho a algumas quadras do hotel. Ao v-la, elogiou sua beleza e sensualidade, abraando-a com intimidade.
                Pediram uma bebida e ento ris lhe contou, com detalhes, como se haviam transcorrido os ltimos anos e como Luciano reagira ao ser abandonado por 
Lupita.
               Marcos ria sarcasticamente ao saber do sofrimento do rival, debochando de sua estupidez em acreditar que a esposa que amava, o abandonara por outro 
que ela dizia odiar.
               J ia alta a madrugada quando os comparsas saram abraados, entraram no carro de Marcos e foram terminar a noitada em um outro hotel, perto dali. 
Antes do amanhecer, no entanto, o rapaz a levou de volta, a fim de que Luciano no desconfiasse que ela conhecia outra pessoa naquela cidade.
                Ceclia foi a primeira a acordar. Pulando na cama do pai, batia as mozinhas com alegria, dizendo que no poderiam perder tempo, pois ela queria 
ir logo passear.
                 Assim que se aprontaram, desceram ao restaurante do hotel onde os esperava um belssimo desjejum, com comidas tpicas do Marrocos e tambm ocidentais.
               ris demorou a aparecer e, embora tentasse disfarar, dava para perceber seu ar cansado. Tomou apenas um suco de laranja e, logo que Ettienne chegou, 
se disse pronta para partir. 
                Novamente tomaram o carro da firma e foram visitar museus, parando algumas vezes para assistir s apresentaes de artistas em locais pblicos. O 
artesanato marroquino os encantou de tal maneira que adquiriram algumas peas para si e para presentear Lucimara, Rogrio, a diretora da escola de Luciano e outros 
amigos.
            Enquanto Luciano e Ceclia foram ao mercado de ervas ao ar livre, ris aproximou-se de alguns adivinhos para comprovar se eram realmente capazes de prever 
o futuro, ficando muito impressionada quando um deles lhe disse que todo mal que algum pratica, faz com que as energias negativas se voltem contra quem o praticou, 
avisando-a de que via muito sofrimento em seu futuro. Entre zangada e assustada, foi para junto de Luciano e Ceclia, tentando se convencer de que nada do que ouvira 
era real.
               Depois do almoo, foram visitar o Museu de Marrakech, a escola Madrassa ben Youssef e o tmulo de Mohamed V, um trio de monumentos situados prximos 
uns dos outros.
           L pelo final da tarde, um aroma de po fresco os conduziu at uma tenda onde um forno comunitrio assava os pes trazidos por vrias famlias. Ali ao 
lado, uma barraca vendia sucos, pes e bolos frescos  e os viajantes se deliciaram com essas iguarias. 
           Voltando para o centro da medina, entraram na desordem composta por animais como cabras e camelos que disputavam espao com bicicletas, carrinhos-de-mo 
e todo tipo de veculos conduzidos por humanos e animais, atravessando a praa em todas as direes, principalmente, avanando sobre os turistas, deslumbrados com 
tudo.
                 ris deu um grito e pulou para trs, quando um garoto a assustou com uma serpente de madeira, o que era muito comum na praa. Outros meninos vendiam 
adagas, espadas e bandejas de lato ricamente decoradas a mo. Encantadores de serpente atraam a ateno dos turistas. 
              Ouviam-se flautas e ctaras, alm de instrumentos rudimentares de percusso, que faziam Ceclia danar, totalmente enlevada pela msica estranha, mas 
cativante. 
              O dia estava extremamente quente, mas nada impedia os visitantes de desfrutarem de todos os encantos dessa cidade. Ao cair da tarde, passaram pela 
Boulevard Mohamed V, depois de atravessar a muralha da medina por uma de suas portas gticas. Em seguida visitaram a mesquita de Koutoubia, subiram suas escadas 
e, do alto da torre, tiveram uma viso panormica da cidade.
       - Este pas  fascinante!  uma pena no dispormos do tempo necessrio para conhecermos todos os seus encantos. -comentou Luciano, quando se afastavam da 
mesquita de Koubba Baadiyn, e dirigiam-se ao Palais Dar Si Said, o Museu de Arte marroquino.
       No dia seguinte, depois de fazerem uma visita  mineradora, onde foram recebidos pelo presidente da empresa e almoaram com membros da diretoria, iriam novamente 
visitar o deserto e fazer um longo passeio de camelo at um dos osis, como era o desejo de Ceclia.
       
       J fazia trs dias que Lupita soubera que Luciano se encontrava to prximo dela e desde ento, no pensava em outra coisa seno em ver seu amado. A moa 
arquitetara um plano para se encontrar com ele, mas para isso teria que dar um jeito de escapar de sua priso.
       Depois de muito pensar, decidiu usar novamente o truque de Maria.  Marcos nem imaginaria que ela faria aquilo, pois ultimamente ela parecia ter se conformado 
com a situao, embora continuasse a chorar infindavelmente e ele no soubesse que o havia ouvido falar com ris ao telefone. 
           Nos dias anteriores no fora possvel executar seu plano, pois Marcos chegara em casa apenas ao amanhecer. Ela tinha certeza de que ele fora se encontrar 
com ris e o diopela traidora amargurou sua alma.
            Na tarde seguinte, no entanto, Marcos chegou mais cedo e, quando estava quase na hora do jantar, Lupita pediu-lhe que dispensasse a cozinheira, pois 
ela mesma queria preparar-lhe o jantar. A princpio, Marcos achou que Lupita queria envenen-lo, mas pensou bem e deduziu que j fazia tempo que ela no tentava 
nenhuma forma de fuga, e como ela mesma acabara de lhe dizer, havia se conformado com aquela situao. Sorriu sonsamente e disse:
        - Est tentando me agradar, no , querida? - e enchendo-se de coragem, Lupita o abraou.
       Na hora do jantar, ao beberem a cerveja, Marcos e o segurana sentiram muito sono, a ponto de no conseguirem se controlar. Marcos adormeceu no sof da sala 
e o segurana mal conseguiu chegar ao seu quartinho, nos fundos da casa.
       Fazendo o menor barulho possvel, Lupita comeou a procurar a chave do porto que Marcos escondera muito bem, mas que h dias ela descobrira seu esconderijo. 
De posse da chave, foi at seu quarto e apanhou o endereo do hotel onde estava Luciano, que ela havia copiado na mesma tarde em que Marcos recebera o telefonema 
de ris. Enchendo-se de coragem e pedindo a proteo da Virgem de Guadalupe, colocou seu vu e saiu da casa.
       Como o hotel ficava no centro da cidade antiga, bem distante do bairro onde morava, pegou um txi e, tremendo dos ps  cabea, entrou na portaria e perguntou, 
em francs, ao recepcionista onde ficava o quarto de Luciano. Gentilmente, ele disse que iria anunci-la, mas ela afirmou que Luciano j estava  sua espera. 
           O porteiro lhe informou o nmero do apartamento de Luciano, explicando como chegar at l. Lupita tenta se acalmar,mas seu corao no a obedece, parecendo 
explodir de tanta emoo.
          Sem saber como, toca a campainha do quarto.  Parece se passar um sculo antes que a porta se abra e nesse tempo, mil pensamentos cruzam sua mente: 
           - Meu Deus, passou-se tanto tempo, ser que meu amado se lembra de mim? Depois de tanto sofrimento devo estar desfigurada, ser que ele me reconhecer? 
Ser que ainda acredita que eu o abandonei por outro? Ser que me perdoou? 
       As dvidas lhe trazem insegurana. Est to confusa que j no sabe se est agindo corretamente, se sua atitude no exporia Luciano ao perigo de ser assassinado 
por Marcos e seus comparsas.
         Est com os olhos cheios de lgrimas e quase desistindo de reencontrar o homem de sua vida, quando Luciano abre a porta e se depara com uma jovem marroquina, 
coberta da cabea aos ps por uma burca preta, que o impede de ver at mesmo seus olhos. 
           Ao v-lo, ela se emociona, comea a tremer ainda mais e a chorar de emoo por trs do vu que lhe cobre o rosto, mal podendo acreditar que estava diante 
de seu amado. Sonhara tanto com o dia em que estaria com ele novamente, e agora esse dia chegara, estava frente a frente com o amor de sua vida. Seu maior desejo 
era se jogar nos braos dele, beij-lo, falar  de sua saudade e sofrimento, contudo sabia que deveria se controlar. Ento decidiu disfarar a voz, fingir que era 
outra pessoa. Caso sentisseque ele 
no acreditasse em sua histria, iria embora, pois no suportaria o seu desprezo. Preferia morrer a no ter o seu amor.
            - Boa noite, em que posso ajud-la? -pergunta Luciano formalmente.
               - Poderia... podemos conversar? -pergunta Lupita, com a voz trmula. Luciano olha para seu rosto escondido por trs do vu. Aquela voz no lhe era 
estranha, mas no podia ser ela. Os dois sentam-se na sala da pequena sute e a moa, com voz embargada, diz:. 
       - Meu nome  Soha, vim representando a senhora Guadalupe.
       - Lupita? Voc a conhece? -pergunta, desconfiado.
       Levantando-se, visivelmente irritado, Luciano contesta:
        - Que histria  essa, como pode conhec-la, voc  brasileira?
        Sem dar chance da moa responder,ele diz: 
         - Isso est me parecendo muito estranho, e alm do mais, eu no quero saber nada sobre ela.
         - Calma, senhor, eu posso explicar, as coisas no so como parecem. -diz Lupita temerosa, embora j esperasse aquela reao.
        Luciano altera o tom da voz:
       - Ah no, ela me deixou uma carta dizendo claramente o porqu de me abandonar. 
         Pedindo-lhe calma e ateno por uns minutos, Lupita conta-lhe a verdadeira histria.
          Luciano ouve tudo, incrdulo. 
       - Isso tudo  um absurdo! - disse ele exasperado, julgando estar sendo vtima de alguma armao de ris. Era a nica possibilidade que lhe ocorria para aquela 
situao inacreditvel.
       - Voc fala como se no conhecesse o carter de Marcos e de sua esposa. Ser que no se lembra de tudo o que ele fez para tentar separar vocs dois? E que 
ris sempre foi sua cmplice?
         Luciano ficou ainda mais espantado e perguntou como ela podia saber de tantas intimidades do casal. Lupita no respondeu, perguntou novamente se ele acreditava 
nela. 
          O rapaz, abalado por essas informaes, abaixou a cabea, refletiu por alguns minutos e, ao levantar os olhos, Lupita percebeu lgrimas em seu rosto.
         Finalmente, disse que acreditava e que ainda era loucamente apaixonado pela esposa. 
         Essas palavras explodiram dentro de Lupita como milhares de sinos ecoando a maravilha da vida.
          A moa, extremamente comovida, retira o vu do rosto. Ambos se olham longamente nos olhos e se jogam nos braos um do outro, sem conseguir conter as lgrimas. 
Parecia um sonho estarem juntos novamente, sua felicidade era indiscritvel. 
          Finalmente, depois de cinco anos de amargura, sofrimentos e dor, estavam novamente unidos, pela fora de sua eterna paixo. Comearam a se beijar apaixonadamente, 
cheios de amor e desejo.
       - Meu amor, eu no acredito que  voc mesma, senti tanto a sua falta, achei que nunca mais iria v-la, beij-la e t-la em meus braos novamente.  - diz 
Luciano, sem crer no que via, dominado pela emoo.
       - Meu amor, se soubesse o quanto sofri longe de voc, o quanto desejei estar em seus braos novamente. - diz Lupita que agora chora ainda mais e perguntava-se 
se no estava sonhando.
       - Mas agora estamos juntos, querida, e nada nem ningum vai nos impedir de ser felizes. Eu a amo com todas as minhas foras.
       - Eu tambm o amo, meu amor, voc  o homem da minha vida. Mas, por favor, fale-me de Ceclia. Como ela est? Ela sabe que eu sou sua me? Ah, meu Deus, quanto 
tenho sofrido  espera do momento em que poderei rev-la, abra-la.
         Luciano percebe que Lupita no sabe que a filha est no Marrocos, bem ali, prximo dela.
       - Ela est no quarto, querida, deve estar dormindo, mas vamos at l. 
       Lupita quase desfalece de surpresa e alegria. Iria rever a filha muito antes do que esperava.
        Os dois entram silenciosamente no quarto da menina e Lupita se emociona ainda mais quando a v deitada na cama. Ceclia estava crescida,  linda, parecendo 
um anjo a dormir. Os pais aproximam-se dela. Luciano tenta acord-la, dizendo que a me estava ali e Lupita toma a filha nos braos, apertando-a junto ao peito:
       - Minha filhinha adorada! Amor da minha vida! Meu Deus, como eu senti a sua falta. Voc est to crescida, est linda, oh, meu Deus  a minha menina. - diz 
transbordando de emoo. 
       A menina, ainda sonolenta, abre os olhos, olha para a me e diz que era um sonho, e volta a adormecer. Lupita fica muito tempo com a filha adormecida no colo, 
sua emoo  tanta que ela mal consegue falar. Teve a filha arrancada de seus braos, no pde amament-la, cuidar dela, nem segurar sua mo quando tentava dar os 
primeiros passos. Durante cinco anos sofrera amargamente por estar longe das pessoas que mais amava no mundo. E agora, por graa divina, voltara a segurar sua filha, 
a olhar para o fruto de sua eterna paixo. Como ela era linda, seus cabelos loiros e longos, seus olhinhos verdes, sua pele clarinha, e aquele ar angelical. Esta 
era a maior graa que Deus lhe concedera. 
             Luciano tambm chorava muito. Mal podia acreditar que aquilo era verdade, era maravilhoso, sua amada Lupita estava ali, ao alcance de suas mos e, maravilhado, 
pensava que ela nunca o abandonara, fora seqestrada e tambm sofrera muito por estar longe dele.
       Depois de vrios minutos abraados, calados, ouvindo as batidas dos prprios coraes, os dois foram para o quarto de Luciano, se abraaram e se beijaram. 
E, movidos por sua forte e eterna paixo, se entregaram um ao outro de corpo, alma e corao. Depois de tanto sofrer nas mos de Marcos, Lupita estava novamente 
nos braos de Luciano, como sempre sonhara desde o dia do seqestro.
        Agora nada mais importava. Ao lado de Luciano ela se sentia fortalecida, pronta para enfrentar o mundo e todas as adversidades para lutar por seu amor e 
pela felicidade junto da famlia que tanto amava.
       O dia seguinte amanheceu muito lindo. O sol brilhava no cu com tonalidades de vermelho, laranja e amarelo, iluminando as janelas fechadas do quarto, refletindo 
a emoo e a felicidade do casal. Os dois acordaram sorrindo, aquilo parecia um sonho. Lupita tivera uma noite maravilhosa nos braos do amado, voltara a se sentir 
mulher, depois de tanto tempo separados, era como se o tempo tivesse voltado atrs, pois nada no amor de ambos havia mudado. 
       Luciano sentia-se radiante de felicidade depois de amar aquela linda mulher. Era sua esposa, sua amada que estava a seu lado. Ele no cabia em si de tantaalegria, 
era como se tudo voltasse a ser como antes, como se o passado no existisse, era o homem mais feliz do mundo. 
       Os dois vo ao quarto da filha e o pai a acorda, dizendo que tem uma surpresa para ela. Ceclia abre os olhos e pergunta curiosa qual  a surpresa. Lupita 
tira o vu e a filha a reconhece imediatamente:
       - Mame! Mame,  voc? - grita abraando-a:
       - - Minha filhinha, voc  to linda, meu amor, que saudade a mame sentiu de voc, princesinha, mas agora ns nunca mais vamos nos separar, eu a amo mais 
do que tudo, meu anjo, mais do que tudo.
       - Eu tambm te amo, mamezinha, e agora a nossa famlia est completa e a bruxa da ris no vai se casar com o papai. 
       Lupita pega a filha no colo e a conforta:
       -  claro, meu amor, ns vamos ficar juntos para sempre. - disse a me que chorava de emoo, pai e filha tambm choravam.
       Caindo na realidade, Luciano diz que devem sair do hotel imediatamente, pois este seria o primeiro lugar onde Marcos procuraria por Lupita.
       Rapidamente arrumam as malas, acertam as contas e deixam o hotel, com a inteno de procurar a Embaixada Brasileira e pedirem auxlio para o retorno imediato 
ao seu pas.
                 
       J vai alta a manh quando Marcos  acordado pelo segurana, que muito assustado, o avisa que a mulher fugira.
       O patro fica completamente transtornado e comeaatirar ao cho todos os objetos que encontra, gritando feito louco, pois algo lhe dizia que Lupita tinha 
ido se encontrar com Luciano.
       Marcos toma um rpido banho, veste-se e ruma para o hotel, onde encontra ris muito nervosa porque, sem qualquer explicao, Ceclia e Luciano haviam deixado 
o hotel sem deixar nenhum endereo.
        Parecendo um demente, o rapaz pragueja:
         - Desgraados, fugiram juntos!
         - Como assim?
         -  Lupita tambm sumiu, ela me deu um calmante e dormi como pedra. Deve ter ouvido a nossa conversa pelo telefone e os dois fugiram juntos. Vamos procur-los, 
Luciano vai me pagar e Lupita voltar a ser minha, nem que eu tenha que matar aquele miservel.
       - Eu vou ligar para a Geovana, para que ela verifique se eles foram para o Brasil. Talvez ela possa nos ajudar. - Disse ris que tambm estava transtornada.
       Lupita levou Luciano e Ceclia at a casa de Maria, apresentou-os e explicou a difcil situao em que se encontravam. A boa mulher lhes ofereceu abrigo. 
Eles agradeceram muito e ela levou o casal para o quarto. Ceclia logo fez amizade com Haman, o filho de Manall e foram brincar juntos.
       - Que senhora bondosa!.- Diz Luciano
       - Ela me ajudou muito enquanto trabalhou na casa de Marcos.
       - Fico feliz porque voc e Ceclia ficaro na casa de uma boa pessoa enquanto eu vou at a Embaixada para resolver nosso retorno para o Brasil.
         Pedindo-lhe muito cuidado,a esposa beijou-o apaixonadamente.
         Lupita e Ceclia conversavam com Maria e Manall na sala, quando ouviram algum bater na porta. A moa sentiu seu corao estremecer, com um mau pressentimento. 
Manall foi atender e, antes que pudesse fechar a porta, Marcos e ris entram abruptamente. 
            Apavorada, a moa grita o nome de Marcos. Percebendo que ela conhecia sua verdadeira identidade, ele perguntou friamente se Lupita estava l. A moa, 
disfarando, disse que nem sabia que ela havia fugido. 
        Marcos disse no acreditar nela e queria ver com seus prprios olhos. Manall diz que ele no entraria enquanto no tivesse a permisso de Maria e mandou-o 
esperar enquanto ela ia falar com a tia. A moa trancou a porta e correu para a sala:
       - O que foi, Manall? Voc est plida! - perguntou Maria.
       - O senhor Marcos est l fora e quer entrar para ver se Lupita est aqui.
       - Minha Virgem de Guadalupe, proteja-me. - diz Lupita, desesperada,  abraando a filha:
       - Fique calma, Lupita, vou esconder voc e Ceclia no poro. - diz Maria num tom tranqilizador. Lupita e Ceclia acompanham-na at o poro.
       - Vou trancar a porta, fiquem tranqilas, falarei com ele. - Maria abre a porta da casa.
       - No entendo porque o senhor acredita que Lupita esteja aqui. Se quiser pode entrar e revistar a casa, mas pode ter certeza de que no vai encontr-la.
       Marcos e ris entram na casa e a revistam toda. 
       - Agora s falta o poro. -diz ris, to nervosa quanto Marcos.
       - Lamento, mas desde que me mudei para c este poro  trancado e no tem chave. -diz Maria, com firmeza
        - A senhora est mentindo. - diz ris furiosa, porm Maria permanece firme. Depois que os dois vo embora, Maria tira Lupita e Ceclia do poro. A moa abraa 
a senhora, agradecida. Estava assustada, mas ao mesmo tempo aliviada.
       
       
            Algumas horas depois, Luciano chega com boas notcias, mas fica revoltado e apreensivo ao saber do ocorrido em sua ausncia. 
            Decide, ento, que devem tomar urgentemente as providncias que lhe foram indicadas pelo Cnsul brasileiro. Passou a Lupita os detalhes do plano. Conforme 
fora orientado, levara os documentos da esposa, fizera as cpias necessrias, a fim de que os funcionrios do consulado mantivessem contato com a Embaixada Brasileira, 
com a Polcia Federal e com a empresa area que os levaria de volta ao seu pas.
            Marcos fora denunciado por seqestro, crcere privado e tortura, alm de falsidade ideolgica, uma vez que este se mantinha no Marrocos com identidade 
falsa e como se tratavam de crimes cometidos em pas estrangeiro, a Interpol fora acionada, iniciando os procedimentos para a busca e captura do criminoso.
         Luciano fora orientado para ficar de sobreaviso e aguardar um telefonema do Consulado, pois a polcia marroquina precisaria colher o depoimento de Lupita 
e, assim que fossem liberados, receberiam autorizao para deixar o Marrocos.
         A ansiedade dos dois era imensa, uma vez que, a qualquer momento, Marcos poderia aparecer e, enlouquecido como estava, causar algum mal tanto a eles e  
filha, como s bondosas amigas que os haviam acolhido com tanto carinho e desprendimento.
         Alertada pelo Consulado sobre essa possibilidade, a polcia marroquina enviara uma viatura com um policial para fazer a segurana dos brasileiros e essa 
medida os tranqilizou um pouco.      
           noite, quando foram para o quarto, Lupita e Luciano, apesar do perigo que corriam, davam graas a Deus por haverem se reencontrado. Sentados na cama, 
abraados, olhavam a lua cheia e as estrelas que brilhavam no infinito, enquanto falavam do imenso amor que sentiam e do quanto haviam sofrido nesses longos anos 
de separao.
          Curioso, Luciano perguntou como Marcos a tratava e Lupita lhe contou que estivera doente, que Marcos tentara abusar dela, falou sobre suas crises, sobre 
as tentativas frustradas de fuga, do desejo que sentira de morrer cada vez em que fora violentada e sobre a gravidez interrompida pelos maus tratos recebidos de 
seu torturador.
          Essas tristes lembranas faziam com que um frio lhe percorresse a espinha, deixando-a trmula de dio e revolta. Sabia que devia ser totalmente honesta 
com o marido, e embora soubesse que tais detalhes o feriam profundamente, tinha conscincia de que ele teria que tomar conhecimento sobre seu calvrio, at mesmo 
para poder passar essas informaes s autoridades.
          No entanto, relatar-lhe tais fatos a envergonhava e ela temia o desprezo dohomem que amava. Chorando desesperadamente, Lupita diz a Luciano: 
              - Eu no quis lhe contar ontem, meu amor. Tive medo que voc me desprezasse e no acreditasse em mim. Eu prpria no me acho digna de ser tocada por 
voc, estou suja pelas mos daquele infeliz.
             Enquanto ouve a mulher que amava lhe contar tais fatos, o rosto de Luciano se fecha, tornando-se sombrio e ele, em evidente luta entre o extremo amor 
que sente por aquela mulher e o cime que lhe corri o corao, livra-se do abrao de Lupita e se afasta, deixando-a confusa e magoada.
             Chegando  porta do quarto, Luciano se volta para ela, com os olhos cheios de lgrimas e lhe diz secamente:
              - Desculpe, Guadalupe, preciso de um tempo para pensar. Vou dormir com Ceclia e amanh nos falaremos. Boa noite.
              - Luciano, por favor, me escute. Eu preciso explicar, juro que jamais me entreguei a ele, fui forada...
              - Estou muito cansado, amanh conversaremos. Boa noite! 
       
       
       
            Depois de sair da casa de Maria com ris, Marcos retorna para casa furioso. Entra em seu escritrio e pega uma arma que guardava no cofre. Verificando 
se continua carregada, coloca-a na cintura, sob o palet.
             Enquanto isso, ris fala novamente ao telefone com Geovana, a fim de verificar se a moa tinha alguma notcia de Luciano e Lupita. Informada de que 
na cidade ningum sabia dos dois, ris pensou que, mesmo que houvessem partido no dia anterior, ainda no teria dado tempo de chegarem at sua cidade, no Brasil.
              Alertada por Marcos, ris diz a Geovana que, se procurada pela polcia, no dissesse nada a respeito de Marcos. Pelo contrrio, deixasse claro que 
ele havia desaparecido h anos e que ela no sabia de seu paradeiro e nem que ele havia seqestrado Lupita.
              Geovana mostrou-se muito arrependida por haver participado, mesmo sem saber a verdade sobre as intenes criminosas de seu irmo, da tramia que ele 
urdira para separar Luciano e Lupita.
               Demonstrando juzo e bom senso, a jovem pede a ris que aconselhe Marcos a se entregar  polcia e acertar suas contas com a justia, mas a moa lhe 
diz que seria loucura, que o rapaz jamais desistiria de seu intento, pois  agora o dio reprimido o havia deixado completamente fora de si.
          Desligou o aparelho deixando Geovana chorando e implorando-lhes uma atitude digna e honesta.
           Nisso, Marcos entra na sala, com dois clices e uma garrafa de vinho nas mos. Entrega um deles para ris e diz, com os olhos fuzilando de dio:
           - Vamos comemorar, minha cara, que de hoje aqueles dois no passam. Se Lupita no pode ser minha, no ser de mais ningum.
          ris, um pouco confusa, pergunta:
          - Comemorar o que, Marcos, se no sabemos sequer onde eles se encontram?
          - No se preocupe, que j tomei minhas providncias. Meu pessoal est no encalo desses idiotas, e em breve, teremos notcias sobre seu paradeiro.
          Passados alguns minutos, o telefone celular de Marcos toca e ele d um soco no ar.
           - Achamos os pombinhos! Vamos engaiol-los!   
       Dizendo isso, apanha uma pasta de couro que estava sobre a mesa e sai, levando ris pela mo.          
       L fora, um segurana, com vestimentas marroquinas os espera, com o carro j em funcionamento.
       Lupita continua acordada, a dor lhe rasgando o peito. Luciano no acreditara nela, pensara que ela havia se entregado a Marcos. A moa continua a chorar desesperada, 
pois mesmo distante, Marcos conseguira acabar de vez com seu casamento.                
        Levanta-se para ir ao banheiro, quando encontra Manall. A moa fica assustada ao ver que Lupita est chorando. Pergunta o que havia acontecido e a amiga 
conta-lhe o motivo de sua tristeza.
       - Mas por que voc contou ao Luciano, teria sido melhor que no dissesse nada !
       - Eu no quero que haja nenhum segredo entre ns, Manall. Voc no sabe como foi difcil dizer isso a ele. Eu no mereo que ele me ame, no mereo dormir 
na mesma cama que ele. -diz a pobre moa chorando ainda mais.
       - No fale assim, Lupita, voc no teve culpa do que aconteceu. E mais do que nunca, merece todo o amor e compreenso do Luciano. Eu tenho certeza que ele 
vai pensar bem e vai lhe pedir desculpas pela atitude que teve. - as amigas se abraaram e esse carinho acalmou o corao de Lupita.
         Luciano tambm no conseguia dormir. Levantou-se e foi at a cozinha tomar um copo de gua. Sentia-se humilhado, com dio de Marcos e uma dor funda no peito 
o perturbava, sem conseguir aceitar os fatos que Lupita lhe narrara. Ela havia pertencido a outro homem, no era mais a mulher pura com quem se casara. Seu orgulho 
estava ferido e no sabia o que pensar. 
       Seus sentimentos eram confusos. Ao mesmo tempo em que se sentia imensamente feliz por haver reencontrado sua amada e ainda que soubesse que nesses anos todos, 
convivendo com Marcos, fatalmente ela teria que ceder aos seus desejos, a verdade o magoava profundamente.
       Com o amor prprio ferido e desejando abrir-se com algum, vai at a sala onde Maria borda uma tapearia. Ela percebe que ele est nervoso e inquieto, ento 
o deixa  vontade e pergunta sobre suas expectativas em relao ao retorno para o Brasil.
       Luciano diz que seriam necessrios pelo menos dois dias para que seus documentos ficassem prontos e Lupita fosse ouvida pela polcia local, ento poderiam 
voltar para o Brasil e pensar no que fazer de suas vidas.
       - Como assim ? - pergunta Maria, percebendo na voz do moo uma ponta de amargura.
       O rapaz ento lhe fala sobre o que Lupita lhe contara e a forma como se sentira dividido entre a alegria de hav-la reencontrado e a tristeza de saber que 
sua amada havia pertencido a outro homem.
       - Voc no acredita que ela foi forada? No precisa responder, mas eu convivi com os dois naquela casa e vi o desprezo com que sua mulher tratava o Sr. Marcos. 
A pobrezinha fez tudo para impedir que ele a tocasse. - Diz Maria de um jeito maternal.
        Luciano pensa um pouco e diz:
       - Eu at acredito nela, mas no consigo suportar a idia de que a minha mulher foi tocada por outro homem. Tudo bem, eu j imaginava, mas no  fcil ouvir 
isso dela.
       - Eu o compreendo, mas no  justo que voc despreze Lupita. Ela  uma mulher de fibra e no teve culpa nenhuma, foi vtima da sanha de um louco e agora precisa 
de voc mais do que nunca para tentar superar os traumas que ele deixou. 
       Envergonhado de seu egosmo, Luciano agradece  bondosa senhora por seus conselhos e vai se deitar.
       No quarto, insone, fica pensando no que Maria lhe dissera. J era de madrugada, quando conseguiu dormir.
       Essa foi uma noite longa para todos na casa, exceto para as crianas, que cansadas de tanto brincar, adormeceram como dois anjos.
       No dia seguinte, Luciano levantou-se cedo, pois havia marcado uma audincia com o Cnsul brasileiro, que solicitara a presena de Lupita, a fim de ouvir a 
histria toda da prpria vtima.
       Luciano teve o cuidado de telefonar para o Consulado, mostrando-se preocupado ao saber que a polcia ainda no prendera Marcos, mas que estava em seu encalo 
e que logo o bandido seria encontrado.
       Antes de sarem, recomendaram a Maria e a Manall que tomassem muito cuidado e no perdessem Ceclia de vista, j que Marcos e ris eram capazes de qualquer 
maldade para atingir seus intentos.
       Ainda preocupada, Lupita despediu-se da filha e encaminhou-se para a sada, onde um txi, que Luciano chamara, os esperava.
       Verificando que o carro da polcia estava estacionado prximo da casa, partiram.
       A algumas quadras dali, Marcos estava na espreita, dentro de um carro alugado, pois sabia que a polcia o procurava e que seria uma temeridade circular pelas 
ruas em seu prprio automvel.
       Tomara providncias, tambm, no sentido de orientar seus empregados para dizerem a quem o procurasse, que ele havia partido na manh anterior, sem informar 
seu destino ou a data do retorno. Na empresa, avisara que tivera um problema urgente para resolver no Brasil e que ficaria fora por alguns dias.
       Desligara seu celular e comprara outro, a fim de no dar chance  polcia de encontr-lo. Apanhara no cofre um valor suficiente em dlares, o que lhe possibilitaria 
negociar, com o mundo do crime, formas de exterminar com seus desafetos.
       Embora cheio de dio, Marcos sabia que deveria ter cuidado e pacincia, se quisesse ter sucesso em seu plano de matar Luciano e Lupita. Por isso, aguardou 
por algumas horas at que o policial que fazia a segurana dos brasileiros se afastasse para o almoo e antes que o seu substituto chegasse, tocou a campainha da 
casa de Maria. 
       Quando a senhora abriu o porto e reconheceu Marcos, tentou impedir sua entrada, mas ele lhe deu um safano, derrubando-a.
         Aos gritos, disse que iria levar a menina e que, se os idiotas de seus pais a quisessem de volta, teriam que negociar com ele.
       Assustadas, as crianas, que brincavam no jardim, tentaram fugir, mas o homem foi mais rpido, agarrou Ceclia, tapou-lhe a boca e a levou para o carro, dizendo 
ao motorista que arrancasse imediatamente.  
       Maria entrou correndo em casa, pegou o telefone e ligou para o Consulado. Falando com Luciano, contou-lhe o ocorrido e disse que temia pela vida da menina, 
pois Marcos parecia fora de si e disposto a qualquer loucura.
       O Consulado brasileiro acionou a polcia local e a Interpol, que iniciaram imediatamente a busca pelo criminoso, tendo como ponto de partida essa nova informao.
       Luciano tentava acalmar Lupita, que se desesperava ao pensar em sua filhinha nas mos daquele alucinado, cuja capacidade de fazer maldades no tinha limites.
       A tarde j ia alta, e sem vontade de comer e incapaz de raciocinar, orientado pelos policiais, o casal retornou  casa de Maria, onde a amiga os esperava 
de braos abertos e olhos marejados de lgrimas, desculpando-se por no haverem conseguido proteger Ceclia.
       Sem nada que pudessem fazer para ajudar a polcia a localizar a criana, Lupita e Luciano sentam-se ao lado do telefone, na expectativa de alguma informao 
que lhes acalmasse o desespero.  
       A noite chega e nenhuma notcia de Ceclia.
       Maria e Manall trazem ch para tentar aliviar o sofrimento do  casal, mas nada os acalma.
       O dia est amanhecendo, quando finalmente, o telefone toca.
       Num pulo, Luciano pega o aparelho e empalidece quando ouve a voz de Marcos, que sarcasticamente, lhe diz:
       - Seuidiota, estou com sua queridinha aqui e voc sabe do que sou capaz. Venha busc-la!
       Luciano treme de dio e avisa:
       - Marcos, a polcia est atrs de voc, entregue minha filha, ela  uma criana indefesa, onde est sua valentia?
       O rapaz d uma gargalhada histrica, dizendo:
       - Ento venha busc-la, seu idiota. Se quiser rever sua filha, venha somente com Lupita, sem avisar a polcia e nem ningum, no endereo que vou lhe passar. 
       Luciano anota a informao no bloco de notas, enquanto Marcos bate o telefone.
       Lupita, desesperada, abraa Luciano, implorando que ele lhe conte tudo.
       - Como est nossa menina, ela est bem? Por favor, me diga o que vocs conversaram, Luciano!
       Desesperado, mas ciente de que a vida de sua querida filha depende de suas atitudes, Luciano explica a Lupita o que entendera do telefonema de Marcos, pedindo-lhe 
calma, pois teriam que ter tranqilidade para executar as ordens do seqestrador.
       Ambos se abraam chorando e Luciano diz que Marcos os espera num bairro, cujo nome passa para Maria. Esta o informa que se trata de um local prximo do deserto 
e se oferece para chamar um txi para lev-los at sua filha.
       Lupita pergunta qual a proposta de Marcos para lhes devolver a menina, mas o rapaz no tem essa resposta, embora saiba que toda a famlia corre grande perigo.
               - Escute, Luciano, se ele quiser trocar a liberdade dela por mim....
               - Isso eu no vou permitir, encontraremos outra sada. - diz Luciano decidido.
       O casal pega seus documentos, algum dinheiro e roupas para Ceclia, alm de garrafas de gua mineral e, assim que o txi chega, mesmo sabendo que essa pode 
ser sua ltima viagem, despedem-se das amigas e partem na direo indicada por Maria.
       Desobedecendo as ordens de Luciano, temerosa pela vida daquela sofrida famlia, Maria, aps muito confabular com Manall, resolve telefonar para o Consulado.
       Em poucos minutos, o chefe de polcia chega  casa e, interrogando as duas mulheres, colhe as informaes necessrias para seguir Luciano e Lupita. Pelo rdio, 
contata seus subordinados e lhes passa algumas ordens e o endereo indicado pelo seqestrador para o resgate da refm. 
       Enquanto isso, Geovana, pensando que talvez pudesse impedir o irmo de cometer mais loucuras e comprometer-se cada vez mais com o mundo do crime, resolve 
atender ao seu chamado e, nessa manh desembarca em Marrakech, aps uma longa e cansativa viagem. 
       Chegando  casa de Marcos, fica sabendo que ele e ris saram da cidade no dia anterior, sem informar seu destino, nem a data do retorno.
       Preocupada, a jovem resolve ir at o Consulado brasileiro, onde  informada dos ltimos acontecimentos. Depois de muito insistir, dizendo que poderia ser 
de alguma ajuda na libertao de Ceclia, consegue ser encaminhada ao local onde se encontra o chefe de polcia.  
       Apesar de extremamente preocupada e exausta, Geovana se encanta com a paisagem que apenas havia visto em filmes. A manh quente e seca faz com que os grandes 
montes de areia paream incandescentes. Mesmo na sombra de algumas palmeiras, o calor  insuportvel e a secura que sente na garganta faz com que se sinta mal, com 
vertigens. 
       Como no fala francs, Geovana sente muita dificuldade em entender as explicaes que o chefe de polcia lhe d. Deduz que a situao  muito grave, pois 
o casal adentrara o deserto, seguindo as orientaes de Marcos e como no conhecem a regio, podem estar perdidos nessa imensido de areia.
       Lupita e Luciano chegam ao local indicado por Marcos, e dispensando o txi, entram no deserto.
        J caminham por algumas horas, quando encontram um tuaregue, provavelmente a servio de Marcos, que lhes acena e, falando um francs sofrvel, lhes diz que 
o Sr. Salen os espera no Osis O'Mairik.  Com gestos, aponta para a direo que deveriam seguir.
       A paisagem absolutamente idntica em qualquer lado para o qual olhassem os desnorteia, mas a nsia de encontrar a filha amada lhes refaz as foras e, embora 
extenuados, continuam a andar.
       O sol vai desaparecendo e mesmo andando h horas, no  encontram o osis ao qual Marcos se referira. Com a viso embaralhada pela luminosidade da luz solar 
refletida na areia e com um mnimo de gua, os dois param por uns minutos para descansar e decidir o rumo que deveriam tomar.
       Luciano abraa a esposa, tentando confort-la e dar-lhe foras para continuar a busca pela filha. Agora pensava que havia sido uma temeridade enfrentar o 
desafio proposto por Marcos, sem pedir a ajuda da polcia. Afinal, ningum sabia onde procur-los, pois h muito haviam se desviado do local onde o taxicista os 
deixara.
       Parecia que caminhavam em zigue-zague, uma vez que a monotonia da paisagem deixava-os confusos e sem direo.
       Ao longe, vem uma caravana de tuaregues, que montados em camelos, cruzam o deserto, com suas silhuetas destacando-se no horizonte. 
       Os dois gritam e agitam os braos, em vo, pois mais uma vez, o deserto lhes prega uma pea e aqueles nmades, por estarem demasiadamente distantes, no poderiam 
v-los ou ouvi-los. 
       Enquanto isso, no Osis para onde Marcos levara ris e Ceclia, a menina chora desesperada, pedindo pelos pais, deixando ris sem saber o que fazer.
               - O que vamos fazer agora? - pergunta a Marcos.
       - Deixe os idiotas virem buscar a menina. Eu vou matar aquele desgraado com minhas prprias mos. - Diz o homem olhando para Ceclia com desprezo.
       - Escute bem, Marcos, se voc matar o Luciano, eu juro que te mato! - diz ris com firmeza, olhando no fundo dos olhos do comparsa.
       - Voc no vai matar o meu papai, ele vai bater muito em voc se no me levar para ele. Voc  mau! Voc  mau!  por isso que a mame no gosta de voc, 
seu bruxo! - Grita a menina entre lgrimas.
       - Voc se acha muito esperta, no , garotinha, pois eu vou lhe ensinar a respeitar os mais velhos. - Dizendo isso, Marcos a agarra, disposto a dar-lhe uns 
safanes, porm ris  o impede, afastando a criana de seu alcance.
       - Voc s pode estar louco, deixa a menina, ela no sabe o que diz. - e, dirigindo-se para a criana, grita:
       - E voc, Ceclia, fique quieta, j chega dessa choradeira.
       A menina olha para ris e diz, com os olhos cheios de lgrimas:
       - Me leva pro papai, ris, voc no  to m como esse moo, me desculpa por te chamar de bruxa.
               Luciano e Lupita continuam seu caminho. O sol  escaldante e o calor insuportvel. O ar seco lhes causa grande desconforto. No entanto seguem caminhando 
em busca do osis que, segundo a explicao do emissrio de Marcos, ficava prximo da orla do deserto e onde eles encontrariam a filha.
       Nesse momento, um terrvel pensamento lhes ocorre. E se a inteno de Marcos fosse justamente fazer com que os dois se perdessem no deserto e ali perecessem? 
       Lupita e Luciano refletem sobre essa possibilidade, que cada vez lhes parece mais plausvel, pois daquele monstro se poderia esperar qualquer tipo de maldade 
e a hiptese de que o bandido os houvesse atrado para uma armadilha, fazendo com que o casal encontrasse a morte em sua forma mais cruel, lhes parecia a mais provvel.
       No entanto, no tinham outra opo, uma vez que a vida para eles no teria nenhum sentido sem a filhinha que tanto amavam.
       "Ser possvel que em um lugar como este exista um osis? E se nos perdermos, morreremos neste deserto." Pensou o casal cheio de preocupao, e por um momento, 
lhes passou pela mente a sensao de que Marcos conseguiria alcanar seu insano objetivo.
       Exaustos e sedentos, os jovens no conseguiam mais prosseguir e decidiram parar ali mesmo e descansar durante algumas horas. Ao alvorecer continuariam a caminhada.
       Abraados e agasalhando-se como podiam, encostaram-se numa das muitas pedras por ali existentes e procuraram refazer suas energias. Um nico pensamento dominava 
suas mentes, a preocupao com a filha: "Como estaria Ceclia, ser que os dois criminosos seriam capazes de maltratar uma criana indefesa?"
       O temor pela vida da filha os fazia estremecer, com um frio que lhes cortava a alma. No entanto, no perdiam a f. Rezavam  Virgem de Guadalupe, implorando 
proteo quela inocente criana.
       Por fim, a bno do sono os livrou, por algumas horas, da aflio em que se encontravam. Aos primeiros raios do sol, retomaram a caminhada, agora quase desidratados, 
com os lbios rachados pela secura do ar e pelo frio noturno.
       Andaram durante horas, at que ao longe, avistaram algumas palmeiras. Pensaram ser fruto de suas mentes cansadas e sofridas, uma miragem. Ainda assim, animados, 
correram como puderam para chegar at o pequeno bosque, ficando maravilhados ao se depararem com o osis, um jardim em pleno deserto, com palmeiras, vegetao rasteira 
abundante e um lago.
       Sfregos, entram na gua fresca e cristalina que lhes mata a sede e aplaca as queimaduras que lhes ferem a pele.
       O lugar  lindo, e sob as sombras das palmeiras poderiam descansar durante alguns minutos. Ajoelharam-se na areia e comearam a agradecer a Deus e  Virgem 
de Guadalupe, implorando pela vida de Ceclia.  
       Conforme determinao de Marcos, deveriam aguard-lo num osis, porm no tinham como saber se seria esse o local indicado pelo facnora.
       Muito longe dali, vrias equipes de busca, coordenadas pelo chefe de polcia Ahmed, tentam encontrar os estrangeiros perdidos no deserto.
       Geovana pergunta ao funcionrio do consulado que os acompanha, quais as chances de encontrar Luciano e Lupita com vida e o rapaz lhe responde:
       - A cada hora que passa, as possibilidades de encontr-los vivos diminui, pois se trata de pessoas que no conhecem o deserto e que no se encontram com os 
equipamentos e os materiais necessrios para enfrent-lo.
       Desculpando-se por ser to franco e direto e percebendo o abatimento da moa, o agente consular tenta minimizar suas palavras, afirmando que as pessoas que 
estavam encarregadas da busca eram muito experientes e que haveriam de encontr-los.
       A noite chegava e a preocupao das autoridades em relao  vida dos estrangeiros se tornava mais evidente. O chefe esbravejava, numa lngua incompreensvel, 
cada vez que uma das equipes se comunicava com ele pelo rdio, o que significava que nenhuma pista havia sido encontrada. 
       Geovana  aconselhada a ir para um hotel e descansar, mas embora exausta, a jovem decide no arredar p dali enquanto no tiver notcias do casal, da filha 
e do irmo enlouquecido. Havia passado quase toda vida longe dele, mas a voz do sangue fala mais alto, fazendo com que sinta sincero afeto por aquele homem que no 
conhecia o bom senso, nem a compaixo. Afinal, ele era seu nico parente vivo, e embora discordasse de seus mtodos, entendia que seus atos tresloucados se deviam 
 vida infeliz e sem amor familiar que tivera.
       No osis, Luciano e Lupita recuperam as energias e se preparam para passar mais uma noite longe da filha que tanto amam e cujo paradeiro parece cada vez mais 
distante deles.
       Adormecem por algumas horas, tremendo de frio e fraqueza pela falta de alimentao. Lupita tem um horrvel pesadelo em que Marcos os ataca traioeiramente 
com uma adaga e seus corpos estraalhados tingem a areia com seu sangue.
       Gritando desesperada, a moa desperta e abraa o marido. Ambos choram muito, mas procuram se controlar, para no perder a razo e a esperana de encontrar 
a filha viva e saudvel.  
          No conseguem mais dormir e comeam a conversar sobre os ltimos acontecimentos.
           - Parece mentira, meu amor, que h apenas trs dias nos reencontramos e tantas coisas nos aconteceram.- diz Lupita.- Nossa vida  mesmo muito intensa. 
Quer na alegria, como na tristeza, temos vivido experincias que vo da extrema felicidade,  mais profunda dor.
           - Pois , minha querida, nosso destino  viver lutando pela nossa felicidade e quantos obstculos j transpusemos. Agora no podemos desanimar, no ? 
Veja bem, foi muito difcil aceitar que voc dormiu com aquele crpula, mas eu sei que voc no teve culpa. Perdoe-me, meu amor, eu fui to estpido quanto ele. 
- dizendo isso abraou a esposa com ternura. Ela nunca o vira to magoado consigo mesmo e seu corao se encheu de pena.
         - No fique assim, meuamor, eu compreendo a sua decepo, disse ela, apertando-o contra seu corao. 
         - Eu prometo que no vou deixar a sombra daquele canalha atrapalhar o nosso amor, e vou ajud-la a superar todos os traumas que ele lhe causou. Eu juro 
que vou fazer aquele desgraado pagar por todo o mal que nos fez. Vou mat-lo com minhas prprias mos.
        - Pelo amor de Deus, Luciano, no fale em vingana, eu no vou permitir que voc cometa essa loucura. -diz Lupita, desesperada.
        Ento, unidos pela fora de sua eterna paixo e pelo desejo que sentiam, apesar do sofrimento pelo qual passavam, os dois se entregam ao amor. No cu, as 
estrelas brilhavam, parecendo que a Virgem de Guadalupe abenoava o casal. 
          Ficam abraados em silncio, cada qual concentrado em seus pensamentos e oraes, at que os primeiros raios do sol surgem num cu de um azul incrvel.
           De repente, ouvem rumores de passos e ficam tensos ao verem alguns nmades montados em seus camelos se aproximarem da gua. Era uma caravana detuaregues, 
com homens com as cabeas cobertas por grandes mantos, parecendo exticos e assustadores.  frente do grupo, destaca-se, pela imponncia da postura e pelos adereos 
de seu cavalo puro sangue, o chefe da tribo. 
       Apesar do receio, sentem que esto salvos.
       Com um grande esforo, pois esto desidratados e bastante enfraquecidos, levantam-se e se encaminham em direo ao pequeno lago, em cuja margem aquele estranho 
grupo conversa enquanto saboreia frutas secas e po rabe regado por uma bebida que cheira a aniz.
         Ao ver o casal, um dos tuaregues alerta os companheiros e estes se colocam em p, exceto o chefe, que sequer os olha.
         Conhecendo a belicosidade daquele povo, Luciano teme por suas vidas, mas sem outra alternativa, diz a Lupita para erguer os braos, em sinal de entrega 
e ambos se aproximam dos homens. Gesticulando e falando numa lngua incompreensvel pelos dois, os estranhos os encaminham at aquele que parece ser o chefe do bando.
            O homem, que usa trajes requintados, tem a cabea coberta por um tarbuche vermelho e dourado, alm de colares, pulseiras e anis em ouro, fuma tranqilamente 
uma espcie de cigarro, que Lupita j vira em algumas ocasies - o narguile - parecendo totalmente alheio ao que ocorria  sua volta.
            Um dos homens os coloca defronte ao chefe e este os olha longamente, fixando-se em Lupita, surpreendido pela beleza da moa, que nem o sofrimento sob 
o sol inclemente conseguira macular.
            Com um gesto, faz com que um dos homens oferea gua fresca e alimentos aos estrangeiros, enquanto lhes pergunta, em bom francs, quem so e o que fazem 
no deserto.
             Luciano explica a situao em que se encontram, perguntando-lhe se poderia ajud-los a encontrar a filha querida.
             O chefe nmade fala em rabe com um dos homens e, em seguida, diz a Luciano que, h dois dias, o grupo encontrara uma caravana de tuaregues e, nela, 
um casal e uma criana europeus.
             Apontando na direo onde os vira pela ltima vez, disse que pareciam tomar o rumo das dunas de Erg Chebbi.
             Lupita, em lgrimas, pergunta se a menina parecia bem e o homem responde que sim, pois a vira brincando com algumas crianas que faziam parte da caravana. 
              O chefe diz que seu grupo se dirige para Marrakech, onde participar da feira de animais e que, se o casal quiser, poder acompanh-los, alertando-os 
sobre os perigos que correm sozinhos, sem conhecerem as armadilhas mortais que o deserto esconde em sua aparente calmaria.
         No entanto, embora saibam dos perigos que correm, Luciano e Lupita dizem que no desistiro de encontrar a filha amada.
         Diante dessa atitude de coragem, o chefe ordena a um dos homens que lhes oferea suprimentos para a permanncia nessa busca. Assim, agradecidos, recebem 
po rabe, frutas secas e bilhas que podem encher de gua, alguns mantos para se protegerem do sol inclemente na caminhada que empreendero, alm de orientaes 
sobre as melhores horas para esse deslocamento e uma bssola para indicar-lhes a direo a seguir.
       Reverenciando a extrema cortesia e hospitalidade desse povo, Luciano e Lupita agradecem ao chefe Farouk que se despede, com acenos tpicos de sua etnia.
       Quando o sol comea a baixar, j descansados e alimentados, Lupita e Luciano reiniciam sua jornada, pedindo  Virgem de Guadalupe que guie seus passos e os 
proteja.
       Caminham em silncio por longas horas, subindo e descendo por dunas que parecem no ter fim.
       A nsia por encontrar Ceclia os domina e lhes d foras para andar noite adentro, iluminados por uma lua cheia que parece estar ao alcance das mos. Vez 
ou outra param por alguns minutos, alimentam-se, massageiam os ps cansados e em chagas e retomam a jornada, sem queixas ou desnimo.
       Ao cabo de dois dias nessa caminhada, encontram alguns negociantes de camelos, tuaregues que passam ao largo, sem se deterem, embora Luciano e Lupita gesticulem 
pedindo ajuda.
       Pela indicao da bssola, percebem que esto indo em direo ao mar, porm no podem imaginar a distncia que tm a percorrer. Passa-lhes tudo pela cabea: 
Ser que Marcos e ris conseguiram transpor o deserto? Como estar Ceclia?
       Enquanto isso, no muito longe dali, Marcos e ris, bem acomodados numa ampla tenda, desfrutam dos prazeres de uma noite tipicamente rabe, num acampamento 
de tuaregues.
       Haviam chegado ao Osis de Fint no dia anterior e, conforme Marcos planejara, seus serviais j os esperavam com o conforto que o patro exigira: muita bebida, 
comida, msica e mulheres que danavam sensualmente a dana do ventre, ao som de uma cimitarra tocada por um beduno.
       Embriagado, Marcos comemorava sua vitria, uma vez que considerava seus desafetos j mortos pelas agruras do deserto. Cantava as msicas rabes, abraava 
as danarinas e blasfemava, em completa insanidade, enquanto ris, sentada em ricas almofadas, pensava no inusitado daquela viagem e nos riscos que corria ao lado 
de um homem completamente embrutecido pela paixo no correspondida.  Seu dio por Lupita aumentava ainda mais. Desejava que a rival morresse da forma mais indigna 
possvel. Gostaria de mat-la com as prprias mos.
       No entanto, sabia que o caminho para o corao de Luciano passava, necessariamente, pelo amor que sentia pela filha, e mesmo sem sentirnenhum afeto por Ceclia, 
vinha cuidando dela e evitando que Marcos a maltratasse.
       A menina, de tanto chorar e pedir pelos pais, adormecera e ris a levara para uma outra tenda, acomodando-a em almofadas.
       A lua cheia ia alta no cu, quando os rudos do acampamento cessaram e os bedunos carregaram Marcos, completamente brio para dentro da tenda.
       Para Luciano e Lupita, a noite de lua cheia havia sido providencial, pois lhes permitira caminhar durante um longo tempo, guiados pela bssola, at que o 
cansao fez com que parassem para descansar por algumas horas.
       To logo os primeiros raios do sol surgiram, ambos se alimentaram e seguiram viagem. Tinham muita f que naquele dia alcanariam o Osis indicado por Marcos.
       Haviam caminhado por algumas horas e, com o sol a pino, vislumbraram o que parecia um pequeno bosque. Animados, aproximaram-se.
       Um beduno, que estava de sentinela, percebeu a chegada de estranhos e alertou os companheiros. Com o alarido, Marcos acorda e sai da tenda, ainda cambaleante 
pela embriagus da noite anterior. Cego pelo sol do meio dia, coloca culos escuros e pergunta ao criado a razo de tanta azfama e este lhe explica que haviam capturado 
um casal que se aproximara do acampamento. 
       Marcos acompanha o homem at o local indicado, no sem antes se certificar de que est de posse de seu revlver e de sua adaga. Em seus olhos doentios brilha 
o dio e a fria.
       Entrando na tenda, Marcos v Luciano e Lupita maltrapilhos, sujos, cansados, mas abraados e essa unio lhe causa repulsa.
       - Cumprimos o prometido, Marcos, estamos aqui. Devolva-nos a nossa filha! - diz Luciano com voz firme.
       - Mas voc  mesmo um idiota, acha ento que eu os faria vir at aqui apenas para buscar a menina? No pensaram, seus imbecis, que este  o final de suas 
vidinhas medocres? Aqui ningum poder socorr-los. Os homens que aqui se encontram foram contratados por mim para darem cabo de vocs, seusinfelizes. - dizia o 
rapaz, fora de si.
       Luciano tenta faz-lo voltar  razo, dizendo que toda a polcia de Marrakech e at a Interpol estava em sua captura, e que mesmo que os matasse, no teria 
como escapar da justia.
       Marcos d uma gargalhada e, aos gritos, agride Luciano com o punho fechado, derrubando-o. 
       Luciano reage como uma fera, golpeando Marcos com todo seu dio, at v-lo cado no cho, com o rosto coberto de sangue.
       Traioeiro, Marcos pega o revlver e atira em sua direo.
       Lupita, num impulso, pega um vaso de metal e acerta-lhe a cabea. Mesmo cambaleante, Marcos atinge o ombro de Luciano.
       Lupita corre para o amado, agora indefeso diante do homem enfurecido. Cobre-o com seu corpo, implorando:
       - Pelo amor de Deus, no o mate, eu farei tudo que voc quiser. Volto para a sua casa e juro que nunca mais tentarei fugir, posso lhe dar muitos filhos, mas 
pelo que  mais sagrado, deixa ele em paz. No  culpa dele que eu o ame e no a voc.
       Lupita estava completamente fora de si, Luciano no podia morrer. Durante aqueles cinco anos de martrio tinha o consolo de saber que seu amado estava bem, 
mas se ele morresse... no, no podia permitir. Apanhou a adaga que estava cada ao lado de Luciano e atirou-se em cima de Marcos. Suas mos estavam firmes, ela 
estava decidida a mat-lo.
       Nesse instante, ris aparece, e vendo Luciano sangrando, corre at ele, abraa-o dizendo que o ama e que no quer perd-lo. Percebendo a inteno de Marcos, 
ela tenta tirar a arma de suas mos, mas possesso, ele atira e a acerta no peito.
       Horrorizada, Lupita procura socorr-la, mas a moa rejeita sua ajuda e desfalece.
       Em meio a tamanha tragdia, nenhum deles percebe que a serpente que os bedunos encantavam na noite anterior sai do cesto onde se encontrava e pica Marcos 
na perna. Gritando de dor, o rapaz cai no cho, diante do rival. 
       Lupita abraa Luciano e tenta estancar o sangramento em seu ombro, chorando e implorando  Virgem de Guadalupe que proteja seu amado.
       Entrementes, ao perceberem a gravidade da situao, os bedunos contratados por Marcos, temendo verem-se envolvidos em tantas mortes, desmontam o acampamento, 
pegam seus pertences, e montados em cavalos e camelos, desaparecem no deserto.
       Desesperada, Lupita pensa na filha, teme por sua sorte, mas no pode abandonar Luciano.
       Passam-se alguns minutos e, embora tente reanimar ris que, por ter perdido muito sangue, no apresenta nenhuma melhora. Umedece seus lbios com gua fresca 
que apanha de uma bilha, quando a ouve dizer, com voz sarcstica, carregada de dio:
       -Todos perdemos, minha cara. Marcos e Luciano no resistiro aos ferimentos neste calor infernal. Sinto que estou no fim, mas voc e sua filha morrero  
mingua neste fim de mundo.
       Apesar da mgoa que essas palavras lhe causam, Lupita sente piedade dessa pessoa, que mesmo na hora da morte,  capaz de destilar tanto rancor.
       Inesperadamente Marcos se levanta e, com a adaga, tenta golpear Luciano, que se defende com as foras que lhe restam, empurrando seu agressor, que cai prximo 
de uma pedra.
       Luciano grita para que Lupita se abrigue, pois Marcos ainda tem o revlver na mo e est disposto a liquid-los.
       A moa arrasta o marido para longe do alcance de Marcos, mas logo se do conta de que este perdera os sentidos, sob o efeito do veneno da cobra que o picara.
       Em seus estertores finais, ao sentir-se amparado por Lupita, o moribundo sussurra:
       - Lupita, eu nunca quis machuc-la, s queria lhe dar carinho e ter seu amor, mas voc no me deixou outra alternativa, sempre me desprezou. Eu a amei e voc 
foi a minha perdio. - diz Marcos, muito agitado. 
       Arrastando-se, Luciano se aproxima e consegue ouvir as ltimas palavras de seu inimigo.
       Comovido, o casal acalma o rapaz e, movidos pelo esprito cristo, dizem-lhe que est perdoado e que descanse em paz.
       Lupita examina ris e, percebendo que ela j no tem os sinais vitais, cerra-lhe os olhos, compadecendo-se da ingrata sorte da moa.
       Preocupada com o ferimento de Luciano, Lupita o ajuda a levantar-se e, com grande esforo, chegam  margem do lago, acomodando-se  sombra das palmeiras.
       Desesperada, no sabe mais o que fazer, pois Luciano est cada vez mais enfraquecido e ela precisa procurar a filha. Agasalha o marido e sai pelo que restou 
do acampamento, gritando o nome de Ceclia. Um medo atroz lhe corta a alma: e se os bedunos tivessem levado a menina em sua fuga?
       Continua a procura, cada vez mais alucinada, quando ouve um fraco choro de criana. Corre nessa direo e encontra Ceclia escondida atrs de umas pedras, 
ardendo em febre.
       Abraa-a fortemente, procurando transmitir-lhe o calor que aplaque o frio da febre que lhe queima o corpo. Leva-a para junto do pai, agasalha-os, d-lhes 
gua e cobre-os com seu corpo, pedindo a Deus por um milagre.
       A noite chega, trazendo com ela um frio cortante. A lua cheia bia no cu sem nuvens e Lupita treme de desespero, sentindo que seus amados se encontram em 
grande perigo.
       Luciano abre os olhos, e vendo a mulher e a filha ao seu lado, se alegra por esse reencontro, embora saiba da precariedade da situao em que esto.
       Olha para Lupita e, emocionado, com a voz embargada pelas lgrimas, lhe diz:
       - Meu grande amor, acontea o que acontecer, Deus estar conosco, tenha f. Se Ele permitiu que nos reencontrssemos, certamente  porque nos ama e no nos 
deixar perecer.
       Lupita o beija carinhosamente e, chorando, pede-lhe que no se canse, pois sua f  inabalvel e ela ficar velando o sono de seus grandes amores. 
       - Eu o amo mais do que a minha prpria vida, querido, e apesar de todo sofrimento pelo qual passamos, agradeo a Deus todos os dias pela bno de nos haver 
aproximado.
        Luciano recosta-se na esposa e diz com voz sumida:
       - T-la encontrado foi a coisa mais importante da minha vida.
       Com a filha no colo e abraada ao marido, Lupita concentra toda sua energia numa orao  santa de sua devoo, implorando-lhe socorro.
       Do outro lado do deserto, h algumas horas dali, a polcia continua sua busca aos estrangeiros desaparecidos, monitorando toda a regio. O encontro com o 
chefe Farouk fora providencial para a localizao do osis onde certamente encontrariam Marcos e ris.
       Geovana, que acompanhava toda movimentao dos policiais, criou novo alento, pois soubera que, h alguns dias, Luciano e Lupita tinham sido vistos com vida. 
Agora rezava para que o irmo e ris fossem tambm encontrados, embora soubesse que ambos seriam presos por seus crimes.
       Seguindo as coordenadas indicadas por Farouk, o chefe de polcia ordenou ao grupo que se encontrava mais prximo do local onde os bedunos os deixaram, para 
ali concentrarem suas buscas.
       Jipes equipados com poderosos faris e trao nas quatro rodas, especiais para se locomoverem nas areias do deserto foram acionados. 
       Em poucas horas, o grupo encontra vestgios recentes de um acampamento e os policiais iniciam a procura por quaisquer indicativos da passagem dos estrangeiros 
pela regio, contatando o chefe pelo rdio.
       Enquanto isso, o torpor acaba por fazer com que Lupita adormea abraada a Luciano e Ceclia. Como num sonho, de repente ouve ronco de motores e vozes masculinas, 
cada vez mais prximas.
       Em breve, braos amigos os amparam e eles percebem que esto salvos. O milagre acontecera.
       No hospital, horas depois, Luciano volta da anestesia e, ainda meio sonolento, v sua amada ao seu lado. Pergunta por Ceclia e, antes de ouvir a resposta, 
sorri e adormece novamente.
       A esposa o olha enternecida, tentando apagar a lembrana das terrveis experincias recentemente vividas.
       Ceclia fora medicada e, no precisando de mais cuidados mdicos, fora levada para a casa de Maria.
       Os policiais constataram que Marcos e ris estavam mortos e Geovana, extremamente consternada pelo triste fim do irmo e da amiga, providenciaria o traslado 
dos corpos para o Brasil.
       O chefe Ahmed pede a Lupita que assim que Luciano tenha alta do hospital, os procure para a tomada de depoimentos e para os procedimentos de praxe, depois 
do que o caso seria encerrado.
       Luciano, sob os cuidados carinhosos da esposa, se recupera maravilhosamente da cirurgia, e alguns dias depois, tem autorizao dos mdicos para retornar ao 
seu pas.
       Enquanto isso, Geovana toma todas as providncias legais para fazer o traslado dos corpos de ris e Marcos para o Brasil, rezando para que tais tresloucadas 
almas enfim encontrem a paz. 
       Naquela manh, esto todos na casa de Maria e Manall, quando recebem a visita de Etienne, que lhes traz uma agradvel notcia.
       A empresa mineradora que patrocinara a viagem de Luciano para o Marrocos, sentindo-se parcialmente responsvel pelas loucuras praticadas por um de seus diretores, 
decidira conceder-lhes quinze dias para conhecerem melhor o Marrocos, cobrindo todas as despesas dos trs.
       Lupita, Luciano e Ceclia ficam encantados com tanta amabilidade, mas agradecem erecusam o convite, pois no viam a hora de retornar ao Brasil, onde Lucimara, 
Rogrio, a pequena Isabella e os amigos, cientes de toda histria, os esperavam saudosos.
       Aps todos os procedimentos legais e liberados pela Interpol e pelo Consulado Brasileiro, Luciano, Lupita e Ceclia se preparam para o retorno, na manh seguinte, 
 sua querida Ptria.
       Em Marrakech cai a noite e a natureza apresentava, orgulhosa, seu espetculo crepuscular. Da sacada do luxuoso hotel onde se hospedavam, Lupita e Luciano 
contemplavam esse magnfico cenrio, comemorando essa ltima noite na terra das miragens, do mistrio e do fascnio, vivendo-a intensamente, em completo amor e encantamento.
       O avio enfim pousa em solo brasileiro. Lupita sente o cheiro de sua terra e ouve as pessoas no aeroporto conversando em sua lngua me. Lgrimas silenciosas 
comeam a escorrer por seu rosto e seu corao d um salto ao ver a bandeira verde e amarela, bela e esplendorosa, tremulando ao vento.
       Ao longe, avistam Rogrio, com uma linda menina no colo e Lucimara, correndo ao seu encontro. As irms atiram-se nos braos uma da outra, soluando, sem conseguir 
articular as palavras.
       Diante da estranheza da cena, a pequena Isabella abraa a prima querida e os bons amigos abraam-se fraternalmente.
       Todos ento se encaminharam para um hotel j reservado por Rogrio, a fim de ali passarem a noite, onde colocam todas as confidncias em dia.
       A histria que ouviram era to intrigante e cruel, que deixa Rogrio e Lucimara aturdidos com tamanho dio e maldade.
       Mais descansados, na manh seguinte seguem viagem de carro at a cidadezinha do interior do Paran, onde pretendem retomar suas vidas e esquecer os horrveis 
pesadelos pelos quais passaram, agora libertos de toda dor e sofrimento.
       Aos poucos, Lupita retorna ao trabalho, d incio aos seus estudos superiores, formando-se em Pedagogia, um de seus acalentados sonhos.
       Tudo corria bem para essa linda famlia, e para coroar sua felicidade, dois anos depois Lupita descobre que est grvida, enchendo de alegria Luciano e Ceclia, 
que h tempos, vinha pedindo a companhia de um irmozinho.
       Meses depois, para grande felicidade da famlia, nasce Otvio Augusto, uma linda e saudvel criana, mais um precioso fruto do grande amor do casal.
       E como Deus premia aqueles de corao puro, a chama desse amor nunca se apagou, pois o que sentiam um pelo outro era uma Eterna Paixo.
            
            
            
            
            
             
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
Biografia da autora
            
       Eu, Carolina Reis Dal Bon, nasci em Santo Antnio da Platina, Paran, em 24 de setembro de 1993. Sou cega de nascena, nunca enxerguei nem mesmo sombras ou 
vultos. Desde pequena adorava cantar e ouvir histrias, geralmente lidas por minha me.
       Comecei a escrever aos 8 anos de idade. Tive o apoio de muitas pessoas, principalmente de meus pais, Dirce e Jos Carlos. Nesta poca no escrevia as histrias, 
que eram criadas em brincadeiras de boneca, como foi o caso deste livro.
       Com a idade de dez anos escrevi Eterna Paixo e aos doze para treze anos, reescrevi esta obra.
       Atualmente resido em Ibaiti, no Paran, onde vivo desde que nasci. Estudo no Colgio Nossa Senhora das Neves, onde curso a 3 srie do Ensino Mdio. Freqento 
a Ajadavi (Associao Jacarezinhense de atendimento ao deficiente auditivo e visual), e neste ano de 2010, formei-me em msica pela  Escola de msica Talentos.
       Desejo tornar-me uma escritora renomada, para que com minhas obras alcance o reconhecimento do que para mim no  trabalho, mas um ato de amor, e que atravs 
delas, meus leitores no vejam o mundo apenas com os olhos do corpo, mas tambm com os olhos do corao.
       A autora.
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            
            

Criadora e Criatura
            
            J escrevi 45 histrias que esto em esboo e uma pea de teatro, na qual abordo problemas sociais, como prostituio e trabalho infantil, mendicncia, 
trfico de drogas e pedofilia. Para mim, cada personagem que crio  como um filho, tenho por eles um amor especial, principalmente os personagens deste romance, 
uma das  obras de que mais gosto. 
            No so apenas os filhos reais que do trabalho, pois muitas vezes j entrei em conflito com os personagens, sem saber o que fazer com eles em algumas 
partes do enredo. No vou negar que sinto certa pena de Marcos, que perdeu a me com apenas 15 anos de idade. Na verdade tenho duas opinies sobre ele, como mulher 
o considero um verdadeiro animal, mas como escritora vejo nele o que , minha criatura,  e assim o amo muito. At mesmo os piores viles possuem algo de seus autores, 
pois foi graas a minha persistncia que consegui realizar esse sonho. Assim como eu, Marcos luta pelo que quer e jamais se deixa abater por muito tempo.
            ris  muito diferente de mim,  claro que no faria o que ela fez para tirar a rival do caminho, mas sem dvida ela  filha de minha mente e eu a amo 
muito,a ponto de sentir pena de sua triste situao de amar e no ser correspondida, se  que podemos chamar seus sentimentos por Luciano de amor.
            Luciano  meu orgulho, o queridinho da mame, um homem maravilhoso em todos os sentidos, o homem que qualquer mulher gostaria de ter a seu lado, inclusive 
eu. Nele idealizei o homem perfeito, e nem  preciso dizer que este personagem  mais do que um filho para mim, a mais linda de minhas criaes.
            Lupita tem muito a ver comigo, seu lado me, seu lado mulher, eu a amo com todo o meu corao. Sua maneira de seduo e sua doura so o que mais encantam 
Luciano, alm de sua infinita beleza, tanto interior quanto fsica.
            Espero, amigo leitor, que voc tenha gostado de meu livro.
            Um abrao
            A autora.
1     Nota da Autora: Trecho da msica Guadalupe, cantada pela dupla Chitozinho e Xoror

2 N.da A.: Santa Maria, a Carismtica,  tambm conhecida como a Pequena rabe, devido  sua nacionalidade palestina. De origem pobre, com a morte dos pais, Maria 
foi adotada por um tio que queria que ela se casasse com  idade de treze anos. Maria, porm, resolveu fugir de casa e pediu ajuda a um muulmano para que entregasse 
uma carta a seu irmo. Em troca,porm,o homem queria que ela renunciasse ao cristianismo, convertendo-se  f muulmana. A recusa da jovem o deixou furioso e ele 
a feriu gravemente no pescoo e, acreditando que ela estivesse morta, abandona-a  beira da estrada. A Virgem Maria curou-a e lhe mostrou o caminho de sua vida. 
A moa tornou-se carmelita, participando antes da Congregao  de So Jos, na Frana. Era extremamente humilde e,devido  sua pouca cultura e extraordinrios dons, 
enfrentou  muitas dificuldades com seus superiores. Era, no entanto, muito querida, tanto por catlicos, como por muulmanos. Morreu em 1970, quando caiu de um andaime. 
Fonte:  Revista O Mliti, Julho de 2007.
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